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História Intelectual e Cultura Escrita: desafios teóricos e metodológicos

08-04-2021

 Chamada pública para a Revista Gavagai (v.8, n.2)

 

O dossiê procura reunir pesquisas que problematizam temas relativos a desafios teóricos e metodológicos da história intelectual e da cultura escrita. Por um lado, buscamos pensar a cultura escrita em suas práticas mais diversificadas, associadas a intimidade, ao mundo editorial, a grafites urbanos e até mesmo, ao grafismo indígena. Essa abordagem abrangente de cultura escrita, sem perder de vista as categorias a ela relacionadas como oralidade e leitura, também está associada às novas formas de problematizar o lugar e as definições do intelectual, ao considerar artistas, pensadores, filósofos e cientistas reconhecidos pelo público, mas também, aqueles que durante muito tempo produziram à margem do cânone e por meios e suportes diversos.

O historiador François Dosse (2007) apresenta uma visão panorâmica do campo de pesquisa, dedicando-se minuciosamente a produção francesa, e de forma complementar, anglo-saxônica. Foi somente no século XVIII, o “século das Luzes”, que constituiria no ocidente um campo específico daqueles identificados como “homens das letras”. Essa noção tornou possível falar de uma esfera que unificaria escritores, filósofos, artistas, cientistas, ligados a uma cultura erudita e livresca, interessados na circulação de ideias e na constituição de uma esfera pública. Muitas vezes, de forma quase sacerdotal, esses homens (sobretudo, homens) passaram a entender-se como aqueles capazes de dizer o verdadeiro e promoveram a busca por um saber universal. Foi no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, que a essa missão universal e pública dos intelectuais foi incorporada outra tarefa: a de vanguarda intelectual. Cada vez mais artistas, cientistas, filósofos passaram a se identificar como aqueles capazes de falar em nome do futuro, das rupturas radicais, fossem elas políticas e/ou estéticas. Seja como intérpretes dos sentidos da história ou como traidores do destino da humanidade, é certo que os intelectuais ocuparam um papel de destaque na história política dos últimos séculos.

Neste dossiê, entretanto, nos interessa examinar também a respeito do crepúsculo dessa ideia de intelectual. Beatriz Sarlo (1997) demonstra que ao longo do século XX, essa crença redentora e universalizante das palavras foi sendo colocada em xeque, na medida que os caminhos que pareciam tão certeiros para a humanidade se mostraram incertos e capazes de produzir efeitos terríveis. O intelectual público foi pouco a pouco sendo substituído pela noção de especialista, aquele que, através de um método específico, seria capaz de dar respostas pontuais ou conjunturais sobre a realidade. Essa mudança da expectativa social sobre a palavra do intelectual promoveu uma profunda transformação nas instituições e nos espaços ocupados pelos intelectuais em nossas sociedades, no entanto, ainda assim, garantiu uma presença significativa dos intelectuais na vida comum, seja através das universidades, dos institutos de pesquisa ou, em alguma medida, na imprensa. Além disso, mesmo que seja cedo para uma leitura definitiva sobre fenômeno, parece que vivemos tempos de uma mudança ainda mais profunda, com implicações diretas no papel do intelectual. De forma generalizada, por diferentes concepções ideológicas, têm se colocado em xeque a figura do especialista, seja pela relativização das formas de dizer o verdadeiro, seja pelos questionamentos sobre quem tem autoridade para falar a respeito de determinado assunto, seja pela difusão de informações e interpretações da realidade historicamente reconhecidas como não sendo verdadeiras. Ao chegar a esse entendimento da história recente que fez com que Sarlo se perguntasse: afinal, ainda precisamos mesmo dos intelectuais? Serão os intelectuais inevitáveis porque tal função é favorável aos especialistas, aos cientistas e aos artistas? Será que é mesmo necessário existir uma gente que fale daquilo que não lhe diz respeito diretamente? Se essas dúvidas ainda nos assombram, mesmo sem ter respostas definitivas, é porque, apesar da crise da figura clássica do intelectual, nós precisamos pensar a respeito dessa categoria que se deslocou historicamente: o que significa ser intelectual hoje? Qual a possibilidade de se fazer uma história que amplie a categoria de intelectual, encontrando essas experiências em vidas que lidaram com as palavras, com o simbólico, com as práticas de escrita, mesmo que estando longe dos espaços que tradicionalmente legitimam essa condição?

Nesses termos, nos interessa os aspectos da sociabilidade através das redes intelectuais: envio de missivas, intercâmbio, dedicatórias e trocas de livros; os lugares de encontro: bibliotecas, livrarias, cafés e bares; as formas de constituição de si como um pensador: o trabalho de leitura, escrita e produção artística; as instituições: os ateneus, academias literárias, institutos históricos e geográficos e universidades; o próprio pensamento fruto de referências precisas ou incertas que levaram a produzir obras ou falar em nome de determinada tradição e instituição. Nesse limiar buscamos também promover esse encontro da história intelectual e a cultura escrita atravessados pela própria historiografia, compreendendo a historicidade das formas de lidar com o passado. Nos interessa discutir a relação entre a produção intelectual/artística e as formas de existência assumida pelos intelectuais. Por isso, buscamos reunir pesquisas que exploram experiências narrativas diversas, através da problematização de obras artísticas e livros impressos, mas também, de autobiografias e biografias, das cartas, dos diários, das revistas culturais, dos discursos públicos e panfletos.

Quem diz escrita, diz leitura, mas, diz principalmente oralidade, dado que, como diz Walter Ong, culturas quirográficas nascem nas culturas orais. Assim, o intelectual não está restrito à prática da escrita. A atividade intelectual está presente no texto, na voz e na apropriação leitora. Além disso, o intelectual se manifesta na plasticidade de grafismos, desenhos, pinturas e esculturas, por meio da voz, de um instrumento musical, do corpo e todo tipo de linguagem artística ou criativa. Ele escreve e é lido e seu texto ou produto criativo deve ser analisado tendo em vista o diálogo que estabelece com regimes e modalidades discursivas e interpretativas nas quais está inscrito, tendo em vista a medida de sua inscrição, isto é, a forma como acompanha ou subverte esses regimes e modalidades.

A atividade intelectual está diretamente relacionada às condições de produção, circulação e apropriação, conforme se organizam as práticas e os usos relativos à elaboração e à reação do/ao produto intelectual em uma época. Importa lembrar que o produto da atividade intelectual é apresentado, lido, decodificado ou apropriado em um suporte material ou virtual, no códice, na tela ou em um player de vídeo/áudio ou de concepção interativa. Com tudo isso, consideramos necessário ampliar as possibilidades de constituição de objetos e formas de análise do intelectual e da cultura escrita. Do oral ao escrito, do anônimo ao ilustre, do artista contemporâneo ao intelectual pré-colonial, o presente dossiê se coloca de forma aberta às diversas possibilidades de análise interdisciplinar e histórica das práticas intelectuais que se manifestam em diferentes linguagens.

 

Palavras-chave: Cultura escrita. Historiografia. História Intelectual. Linguagens. Abordagens interdisciplinares

 

Temas:

- Concepções teóricas e metodológicas na abordagem da história intelectual e da cultura escrita;

- A prática da escrita de cartas, diários, escrita de si e outras práticas relacionadas à correspondência;

- Práticas de escrita entre mulheres e crianças, escrita escolar e outros grupos ou indivíduos tradicionalmente ignorados pela história intelectual e pela cultura escrita;

- Trajetórias de intelectuais à margem do cânone, intelectuais indígenas e figuras anônimas;

- Passado e presente dos meios e suportes de circulação da atividade intelectual e dos comportamentos do leitor;

- Os espaços e instituições da circulação da atividade intelectual: galerias de arte, gabinetes de leitura, bibliotecas, sebos, livrarias, governos, instituições, arquivos públicos e privados, trajetórias, obras, sites, arquivos digitais e bibliografias;

- Formas de sociabilidade intelectual pela constituição de movimentos, revistas, editoras, livrarias, bem como a presença de resenhas e polêmicas na imprensa, as marca deixadas nas marginálias e dedicatórias de livros;

- As práticas de leitura na sua relação com os gestos, com o mobiliário, com os utensílios e com espaços para a prática;

- A relação da escrita com as práticas de oralidade, leitura em voz alta, em grupo, o cancioneiro popular, poesias orais, práticas orais de ontem e de hoje, etnomusicologia indígena.

 

Referências:

DOSSE, François. La marcha de las ideas. Historia de los intelectualeshistoria intelectual. Valencia: Universitat de València, 2007.

ONG, Walter J. Oralidade e cultura escrita: a tecnologização da palavra. São Paulo: Papirus, 1998.

SARLO, Beatriz; ALCIDES, Sérgio. Cenas da vida pós-moderna: intelectuais, arte e vídeo-cultura na Argentina. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.

 

 

Os artigos podem ser apresentados em português, espanhol ou inglês, observando as regras de submissão da Revista (https://periodicos.uffs.edu.br/index.php/GAVAGAI/about/submissions).

Prazo para recepção de trabalhos: 31/07/2021

 

                                                                 Organizadores:

                            Dr. Ricardo Machado (UFFS) e Dr. Fernando Vojniak (UFFS)

 

 

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v. 8 n. 1 (2021): Dossiê: Paulo Freire e a interdisciplinaridade
Publicado: 08-06-2021

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  • Fernanda dos Santos Paulo, Waldinéia Antunes de Alcântara Ferreira, Edite Maria da Silva de Faria
    8-11

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