Dossiê n. 40 - 2022/02 – “A História Global e as fronteiras na Antiguidade”

21-12-2021

Entre as grandes rupturas culturais do final do século XX, a crise do eurocentrismo - entendido como a cosmovisão que situa a modernidade ocidental como modelo e destino da história universal - foi a que teve mais efeitos no campo historiográfico global. As diferentes áreas do campo reagiram de modos particulares: enquanto a história econômica e comparada reviu a centralidade da Europa na história mundial (revisão exemplificada na corrente intelectual do ReOrient), a história social buscou ressaltar a imbricação entre estruturas e agência dos grupos subalternos tanto nas sociedades, quanto nas memórias ocidentais; enquanto a história cultural ressaltou as tensões implicadas na construção de identidades e representações sociais tais como “civilizado” ou “colonial” (como nas abordagens pós- e decolonial), a história ambiental reelaborou as relações entre sociedade e ambiente para além do discurso da “conquista da natureza” ou do “lamento da degradação”. Neste contexto novas áreas emergiram, como a História Global, cuja missão de criticar o eurocentrismo e o internalismo metodológico orienta os mais diversos estudos, das macrocomparações ao estudo das “microglobalizações”, das redes aos sistemas-mundo, dos impérios em contato aos viajantes, dos processos transnacionais aos fenômenos ambientais globais. Central no projeto da História Global é a crítica das fronteiras projetadas pelas sociedades contemporâneas sobre o passado, sob o efeito dos estados nacionais e suas comunidades imaginadas, o que desvinculou as sociedades de seus contextos concretos. A História Antiga dialogou com estas perspectivas de forma múltipla, resultando na promoção de ao menos três abordagens: a história dos grupos subalternos antigos, a história da recepção e usos da Antiguidade no mundo contemporâneo, e a história das conexões e contatos entre as várias sociedades antigas com seus contextos mais amplos. Nestas três abordagens, o problema das fronteiras - sociais e espaciais, internas e externas - aparece de modo particularmente agudo. Como definir as fronteiras entre grupos dominantes e subalternos, ou entre segmentos de grupos subalternos? Como a Antiguidade foi usada em contextos de fronteira do Ocidente, como a América Latina contemporânea? E, de modo mais direto em relação à História Global: fronteiras como “mundo romano”, “Egito”, “mundo grego”, “África”, são algo além da projeção dos estados nacionais sobre o passado antigo? Quais eram os contextos nos quais as sociedades se reproduziam e interagiam? Qual era a relação entre fronteiras internas e externas às sociedades? A integração a contextos maiores eliminava as fronteiras? O objetivo deste dossiê é refletir sobre o problema das fronteiras na Antiguidade em função destes questionamentos. Nas últimas décadas o conceito de fronteira ganhou novos contornos e tem sido discutido em diversas disciplinas das humanidades. No mundo globalizado, o esforço de dissolver fronteiras teve como reação o fortalecimento de muitas outras. Se as barreiras geográficas tendem a se diluir pela facilidade de deslocamento, comunicação e trocas, presenciamos também um esforço de manutenção de antigas fronteiras: linguísticas, culturais, sociais e também políticas.

Convidamos autores/as a escreverem textos que abordem fronteiras sociais, geográficas e/ou disciplinares. Por fronteiras sociais, entendemos as múltiplas formas de distinção de gênero, entre ricos e pobres, proprietários e trabalhadores, livres e escravos, enfatizando o aspecto relacional dos atores sociais em suas diversas formas e manifestações. Por fronteiras geográficas, entendemos tanto os espaços limítrofes entre diferentes sociedades (middle grounds) ou de uma sociedade com o espaço não habitado, assentamentos de determinadas sociedades no seio de outras, tais como colônias (cidades inteiras, bairros ou grupos de famílias) ou entrepostos comerciais. Por fronteiras disciplinares, entendemos os espaços de interseção entre as diversas abordagens, como as da História, da Geografia, da Antropologia e Arqueologia, ou mais especificamente, entre Estudos Clássicos, Assiriologia, Egiptologia, Indologia, Sinologia, Estudos Africanos, Arqueologia Brasileira, Arqueologia Pré-Histórica, etc. Por sua natureza, sobretudo nas universidades brasileiras, a História Antiga pode ser um catalisador do trabalho multi/trans/interdisciplinar e verdadeiramente colaborativo, desafiando-nos a repensar as fronteiras entre os campos definidas a posteriori. Nesse sentido, a própria definição de 'antiguidade' precisa ser revisitada e ampliada para além dos recortes tradicionais das sociedades  mediterrânicas ou próximo-orientais. O dossiê se propõe a abrigar textos que discutam as “questões de fronteira” em outras espacialidades, como a Afroeurásia e a América, de acordo com o que cada campo define como sua própria “antiguidade”. Convidamos para o diálogo estudos sobre o “Mediterrâneo Antigo”, sobre a “Amazônia antiga” ou sobre a China Antiga, ainda que com periodizações não sincrônicas, o que ajuda a refletir sobre os múltiplos usos que o termo “Antiguidade” suporta em um contexto crescentemente global. Com este dossiê, pretendemos contribuir tanto para o debate em torno do conceito de fronteiras, quanto para o movimento de construção de uma História Antiga pós-eurocêntrica, plural e colaborativa.

Proponentes: Alex Degan (UFSC), Fábio Morales (UFSC) e Thais Rocha da Silva (pós-doutoranda - USP e Research Fellow - Universidade de Oxford)

Encaminhamento de trabalhos: 22 de maio de 2022 (prorrogado)

Avaliação pelos/as pareceristas: 30 de maio de 2022

Revisão dos trabalhos pelos/as autores/as, com base nos pareceres: 20 de junho de 2022

Publicação: agosto de 2022