DOI: 10.36661/2595-4520.2026v9n3.15657
Recebido em: 10/11/2025
Aceito em: 10/03/2026
Seria a Biologia protagonista na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia?
Would Biology be the main focus of National Science and Technology Week?
¿SeríalaBiologíael foco principal de la Semana Nacional de Ciencia y Tecnología?
Griscele Souza de Jesus (griscele.souza@ufpr.br)
Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil
https://orcid.org/0000-0001-6906-4094
Laura Darif Turra(laura.turra@ufpr.br)
Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil
https://orcid.org/0009-0004-6459-4984
Camila Valente Maiolino(camila.maiolino@ufpr.br)
Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil
https://orcid.org/0009-0008-1452-4864
Marcelo Valerio(marcelo.valerio@ufpr.br)
Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil
https://orcid.org/0000-0003-2107-6023
Resumo
A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) é uma das principais iniciativas brasileiras de popularização da ciência e ocorre anualmente desde 2004, promovendo a aproximação entre ciência e sociedade por meio de diversas temáticas. Este trabalho visa situar a presença da grande área de Ciências Biológicas no contexto do evento, por meio de uma pesquisa qualitativa e no estudo documental de suas chamadas públicas em edital. Os procedimentos metodológicos seguem os pressupostos da Análise de Conteúdo, e as análises estruturam-se a partir de uma categorização prévia de base teórica e experiencial dos autores. As três categorias discutidas consideram a Biologia como tema central, articulador ou periférico. O estudo das 21 edições, até 2024, indica que, embora os conteúdos biológicos não constituam o mote da SNCT, a área se apresenta como um potente tema articulador ou transversal, cujas implicações e aplicações são consideradas relevantes para o debate público sobre temas atuais.
Palavras-chave: Popularização da Ciência; Divulgação científica; Ensino de Biologia.
Abstract
The National Week of Science and Technology (NSTW) is one of the Brazilian initiatives for the popularizing of science and has been held annually since 2004, promoting the rapprochement between science and society through a variety of themes. This study aims to situate the presence of the broad field of Biological Sciences within the context of the event through qualitative research based on a documentary analysis of its public calls for proposals. The methodological procedures follow the assumptions of Content Analysis, and the analyses are structured based on a prior categorization grounded in the authors' theoretical and experiential background. The three categories discussed consider Biology as a central, articulating, or peripheral theme. The analysis of the 21 editions held up to 2024indicates that, although biological contents do not constitute the main focus of the NSTW, the field emerges as a powerful articulating or transversal theme, whose implications and applications are considered relevant to the public debate on contemporary issues.
Keywords: Popularization of Science; Scientific Dissemination; Biology Teaching.
Resumen
La Semana Nacional de Ciencia y Tecnología (SNCT) es una de las principales iniciativas brasileñas para la divulgación científica y se celebra anualmente desde 2004, com el objetivo de acercar la ciencia a la sociedad a través de diversos temas. Este trabajo pretende situar la presencia de la área de las Ciencias Biológicas enel contexto del evento mediante una investigación cualitativa, basada em el estudio documental de sus convocatorias públicas. Los procedimientos metodológicos siguen los supuestos del Análisis de Contenido, y los análisis se estructuran a partir de una categorización previa de base teórica y experiencial de los autores. Las tres categorías discutidas consideran la Biología como tema central, articulador o periférico. El estudio de las 21 ediciones, hasta 2024, indica que, aunque los contenidos biológicos no constituy em el lema de la SNCT, el área se presenta como un potente tema articulador o transversal, com implicaciones y aplicaciones consideradas relevantes para el debate público sobre temas de actualidad.
Palabras-clave: Popularización de laciencia; Divulgación científica; Enseñanza de la Biología.
INTRODUÇÃO
Por todo o mundo, existem grandes eventos públicos de divulgação científica, como, por exemplo, a tradicional Fête de lascience, criada em 1991, na França. Diversos países, como a Austrália, a Índia, a África do Sul e aqueles que compõem o Reino Unido, promovem semanas inteiras dedicadas à popularização da ciência e da tecnologia, por meio de atividades culturais e educativas (Bultitude; McDonald; Custead, 2011). Na América Latina, essa tradição remonta aos anos 90, sendo continuamente consolidada em países como o México e o Chile (Massarani; Moreira, 2016). A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) brasileira, embora recente, já se configura como uma das maiores iniciativas do gênero no mundo.
Instituída oficialmente em 2004, a SNCT é promovida e coordenada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio da Coordenação-Geral de Popularização da Ciência (CGPC) e da Assessoria Especial de Assuntos Institucionais (AEAI), configurando-se como uma das principais iniciativas brasileiras voltadas à divulgação e à popularização da ciência. Conforme destacam Sousa et al. (2019, p.23), “com o aumento da aceitação e ampla adesão de instituições públicas e privadas, a SNCT tornou-se o maior evento de aproximação entre ciência e sociedade no Brasil”
A realização da SNCT conta ainda com o apoio da Secretaria de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social (SEDES), por meio de seu Departamento de Popularização da Ciência, Tecnologia e Educação Científica, e tem por objetivo “destacar a importância da ciência e tecnologia para a vida das pessoas e para a melhoria da qualidade da educação científica no Brasil” (Brasil, 2021, p.1).
O evento ocorre anualmente em espaços públicos, com a participação de escolas, universidades, institutos de pesquisa, museus, entidades científicas, empresas e organizações da sociedade civil, entre outros atores. É realizado em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que atua na gestão dos recursos desde 2017, por meio de chamadas públicas destinadas à realização de atividades em âmbito intermunicipal ou estadual/distrital. A SNCT tem como propósito,
[...] mobilizar a população, em especial crianças e jovens, em torno de temas e atividades de c&t, valorizando a criatividade, a atitude científica e a inovação. Ela possibilita que a população conheça e discuta os resultados, a relevância e o impacto das pesquisas científicas e tecnológicas (Massarani; Moreira, 2009, p.112).
Ainda que a SNCT tenha sido instituída por meio de um decreto presidencial, seu registro histórico apresenta-se de forma dispersa, com informações disponíveis em diferentes portais on-line, como os do MCTI, o do CNPq e, desde 2023, do Programa Nacional de Popularização da Ciência (PopCiência). Este programa foi criado peloDecreto Nº 11.754, de 25 de outubro de 2023, e dispões de uma página oficial com fontes de consulta e informações sobre o evento, configurando-se como o esforço mais recente de organização e sistematização de ações que visam “[...] desenvolver a cultura científica e estimular a prática da ciência, tecnologia e inovação para promover a inclusão social e reduzir as desigualdades sociais” (Brasil, 2023, p.1).
Além disso, o documento do MCTI intitulado “Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação para Popularização e Divulgação da Ciência e Tecnologia” (PACTI), de 2018, define a SNCT como “exemplo de um tipo de evento flexível, adaptável às mais diversas situações e contextos brasileiros, e que se presta à socialização do conhecimento de maneira geral” (Brasil, 2018, p. 30). Nesse contexto, Valério et al., (2023, p.34) apontam que:
Embora as finalidades, os objetivos e o público-alvo da SNCT venham, de modo inevitável e salutar, amadurecendo, ressalta-se que os editais lançados pelo MCTI, as chamadas públicas do CNPq e os textos de divulgação expostos nos sítios web dos domínios governamentais (gov.br) concebem um evento complexo, diverso, eclético, heterogêneo, multimeios e descentralizado [...].
Tais características indicam que, além de articular múltiplos atores, linguagens e estratégias, a iniciativa apresenta flexibilidade metodológica para engajar e fortalecer a cultura científica, como evidenciado nas temáticas das primeiras 21 edições, que abrangeram, entre outros assuntos, questões científicas, sociais e ambientais relevantes.
Com a meta de “apoiar, durante cada SNCT, atividades relacionadas aos anos internacionais declarados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura” (Brasil, 2018, p.34), o PACTI sugere que as edições do evento dialoguem com temas emergentes e de relevância mundial, reforçando também sua conexão com agendas globais.
Paralelamente, marcos históricos e datas relevantes para o Brasil são, eventualmente, contemplados, como nos anos 2006, 2013, 2017 e 2022, que abordaram, respectivamente, as comemorações do centenário do voo do 14-Bis; grandes eventos esportivos internacionais realizados no país (Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos); eventos científicos sediados pela primeira vez em solo brasileiro (Olimpíada Internacional de Matemática e Congresso Internacional dos Matemáticos); e o bicentenário da Independência do Brasil.
Quando se trata do universo científico, alguns estudos de percepção pública, como os de Reznik et al. (2017), sobre "Como adolescentes apreendem a ciência e a profissão de cientista?", indicam que, nos espaços de educação formal,a atividade científica costuma ser associada a conteúdos programáticos vinculados às Ciências da Natureza. Tal associação evidencia uma concepção restrita do campo científico, predominantemente relacionada aos domínios da Química, da Física e da Biologia. Para os autores, “no século XXI, as ciências biológicas, particularmente, ganharam espaço tanto do ponto de vista da produção de modelos epistemológicos como nas representações populares e no discurso midiático sobre a ciência e cientistas” (Reznik et al., 2017, p.846).
Nessa perspectiva, torna-se relevante observar se a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia compartilha ou não dessas concepções ao definir as temáticas de suas edições. Ao considerá-la como uma “[...] mobilizadora nacional para a realização de atividades relacionadas à Ciência, Tecnologia e Inovação [...]” (Garroti, 2014, p.2), interessa compreender que ciência, ou quais ciências, vêm sendo popularizadas nesse evento.
Assim, considerando-se a relevância, a diversidade temática e a abordagem interdisciplinar das 21 edições da SNCT realizadas até2024, este trabalho tem como objetivo situar a presença da grande área de Ciências Biológicas no maior evento de divulgação e popularização da ciência no Brasil.
Cabe destacar que a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia se alinha, de maneira transversal, a temas globais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), uma vez que:
[...] evoca uma concepção de ciência socialmente construída e realizada com a participação de múltiplos atores, trazendo a inovação para a base de concepção dos meios de superação dos grandes desafios globais, nacionais e regionais, considerando os avanços científicos e tecnológicos das diversas áreas do conhecimento para integrá-los e otimizá-los em benefício da humanidade (Brasil, 2020, p.1).
Conforme o portal do CNPq, essa abordagem, que articula disciplinas, saberes e linguagens — das ciências naturais, sociais e das artes —, é orientada por demandas locais, regionais e nacionais, com vistas a garantir que soluções sejam acessíveis a todos e contribuam para a redução das desigualdades, alinhando interesses, investimentos e esforços (Brasil, 2020). Para tanto, a iniciativa permeia os planejamentos de órgãos públicos e a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI),com o objetivo de fortalecer o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI), por meio da articulação setorial e doze temas estratégicos, tais como saúde, energia, bioeconomia e tecnologias convergentes, sustentados por investimentos públicos nas esferas federal, estadual e municipal.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Os dados desta pesquisa foram analisados qualitativamente, com base na teoria da Análise de Conteúdo, que articula a hermenêutica à validação técnica, promovendo um “desvendar crítico” voltado ao esclarecimento das causas e consequências que uma mensagem pode suscitar, por meio de inferências (Bardin, 2016). A análise foi conduzida a partir de uma exploração documental e estruturou-se em três fases: (a) pré-análise, caracterizada pela leitura inicial ou flutuante, formulação de hipóteses e preparação do material; (b) exploração do material, com a identificação das unidades de análise e a categorização sistemática; e (c) tratamento e interpretação dos resultados, voltados à realização das inferências.
Vale destacar que, para Bardin (2016, p.145), a análise é “[...] validada, sobretudo, na elaboração das deduções específicas sobre um acontecimento ou uma variável de inferência precisa, e não em inferências gerais”.
Para este estudo, realizou-se uma leitura flutuante das chamadas da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, bem como das divulgações veiculadas na página oficial do evento. A análise considerou recortes específicos, selecionados e unitarizados, com vistas à interpretação dos temas abordados nas edições realizadas até 2024. Nessa fase, a autora ressalta que ocorrem “a escolha dos documentos a serem submetidos à análise, a formulação das hipóteses e dos objetivos e a elaboração de indicadores que fundamentam a interpretação final" (Bardin, 2016, p.125).
Bardin (2016) destaca ainda que alguns critérios devem ser observados nessa etapa, a saber: exaustividade, representatividade, homogeneidadee pertinência.
Na fase de exploração do material, composta por operações de codificação - que “[...] corresponde a uma transformação efetuada segundo regras precisas dos dados brutos do texto, transformação esta que, por recorte, agregação e enumeração, permite atingir uma representação do conteúdo” (Bardin, 2016, p. 133) -,os códigos foram definidos a partir dos temas que emergiram de cada edição da SNCT.
No que se refere à categorização ou enumeração, compreendida como uma forma de classificação dos elementos por meio da diferenciação e do reagrupamento de acordo com critérios pré-estabelecidos (Bardin, 2016), este artigo adotou três categorias descritas no Quadro 1, a seguir:
Quadro 1 - Categorização
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Categoria |
Definição |
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Biologia como tema central - senso estrito (TC) |
As Ciências Biológicas aparecem declaradas na ementa da edição, em sua dimensão conceitual, se destacando como tema principal de grande abrangência ou claramente estruturado a partir de um de seus conteúdos, ou subáreas. |
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Biologia como tema articulador (TA) |
As Ciências Biológicas aparecem em sua dimensão prática, integrando a temática a outros assuntos e áreas de modo transversal, situando aplicações e/ou implicações de seus conhecimentos. |
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Biologia como tema periférico (TP) |
As Ciências Biológicas não se relacionam de modo direto ou evidente ao tema da semana, tendo suas relações ou influências suscitadas apenas em decorrência dos projetos eventualmente submetidos. |
Fonte: Os autores, 2025.
Para embasar o que se convencionou denominar “Biologia como tema Central - senso estrito”, os assuntos foram classificados considerando a “Grande Área de Ciências Biológicas” (número 20000006)[1] da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Tal classificação foi adotada nos casos em que conteúdos específicos da Biologia constituíam o mote das edições da SNCT.
A experiência dos autores em ações e pesquisas relacionadas ao tema, bem como em campos associados à Educação Formal - especialmente ao ensino escolar de Ciências-, contribuiu para a definição dessas categorias analíticas. Soma-se a isso a estratégia metodológica de adotar a grande área da CAPES, órgão responsável por estabelecer o escopo oficial e padronizado de classificação do conhecimento científico no sistema educacional brasileiro, o que conferiu maior rigor e consistência ao processo de categorização.
Já para a categoria “Biologia como tema articulador”, a análise fundamentou-se nos Temas Contemporâneos Transversais (TCT) da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), uma vez que esses temas contemplam conteúdos integradores presentes em diferentes áreas do conhecimento (Brasil, 2019). No âmbito das Ciências Biológicas, os TCT englobam, por exemplo, questões éticas, culturais e sociais relacionadas à vida, como sustentabilidade, alimentação, sexualidade, educação ambiental, saúde, ciência e tecnologia. Os TCT organizam-se em seis macro temáticas, conforme apresentado na Figura 1, e são articulados pela Coordenação-Geral de Educação Ambiental e Temas Transversais da Educação Básica, no Ministério da Educação, a saber:

Fonte: BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Temas contemporâneos transversais na BNCC: propostas de práticas de implementação. Brasília, DF: MEC, 2019.
Figura 1 - Temas contemporâneos e transversais na BNCC
Como etapa final do percurso metodológico, procedeu-se o tratamento dos resultados obtidos e à sua interpretação. De acordo com Bardin (2016, p.131), é nesse momento que “o analista, tendo à sua disposição resultados significativos e fiéis, pode então propor inferências e adiantar interpretações a propósito dos objetivos previstos - ou que digam respeito a outras descobertas inesperadas”.
A partir dos dados analisados, tornou-se possível discutir se as Ciências Biológicas detêm protagonismo na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, ainda que atravessada por outras áreas do conhecimento, ou se assumem um papel predominantemente transversal no conjunto das temáticas abordadas.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Por tratar-se de uma pesquisa de caráter exploratório, a organização e a interpretação das informações documentais, após a primeira fase da Análise de Conteúdo, partiram da sistematização de excertos e da composição das unidades de análise extraídas dos objetivos presentes nas chamadas públicas da SNCT. Essas etapas foram seguidas por uma interpretação de natureza indutiva, com o intuito de situar a presença da Biologia no contexto do evento. No Quadro 2, apresentam-se os dados devidamente categorizados, a partir das categorias analíticas definidas:
Quadro 2- Classificação das temáticas da SNCT
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Categoria |
Ano |
Tema da SNCT |
Unidades de análise |
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Biologia como tema central - senso estrito (TC)
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2008 |
Evolução e Diversidade |
“[...] “Evolução e Diversidade”, para comemorar os 150 anos do lançamento da teoria da Evolução das Espécies, dos cientistas Charles Darwin e Alfred Wallace. Houve ainda o lançamento do livro “A Origem das Espécies” e os 200 anos de aniversário de Darwin”. |
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2010 |
Ciência para o Desenvolvimento Sustentável |
“[...] as estratégias e maneiras de se utilizar os recursos naturais brasileiros e sua rica biodiversidade com sustentabilidade, conjugada com a melhoria das condições socioeconômicas da população. A SNCT em 2010 integrou-se também ao Ano Internacional da Biodiversidade, declarado pela ONU, com o objetivo de conscientizar a sociedade”. |
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2019 |
Bioeconomia: Diversidade e Riqueza para o Desenvolvimento Sustentável |
“[...] baseou-se, dentre outros motivos, na busca pelo desenvolvimento sustentável baseado na invenção e no uso de produtos e processos biológicos nas áreas da biotecnologia industrial, da saúde humana e da produtividade agrícola e pecuária”. |
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2024 |
Biomas do Brasil: diversidade, saberes e tecnologias sociais |
“[...] destacando a biodiversidade única do país, o conhecimento tradicional e o papel da tecnologia social”. |
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Biologia como tema articulador (TA) |
2005 |
Brasil, Olhe para a Água |
“[...] comemoração ao Programa da Década da Água, das Nações Unidas para o Desenvolvimento das Capacidades (UNW-DPC) (2005-2015)”. |
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2007 |
Terra |
“[...] O tema da SNCT de 2007 foi escolhido em função da importância das questões globais do Planeta, preservação da vida, sobrevivência da espécie humana, estrutura e riquezas da Terra, mudanças climáticas, poluição atmosférica, entre outros”. |
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2011 |
Mudanças Climáticas, Desastres Naturais e Prevenção |
“[...] as evidências científicas sobre o impacto das atividades humanas no clima do Planeta e as medidas preventivas mais adequadas a serem adotadas em escala local e global”. |
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2012 |
Economia Verde, Sustentabilidade e Erradicação da Pobreza |
“[...] estratégias e mudanças necessárias para uma economia verde, que, em conexão com o desenvolvimento sustentável, podem contribuir para a erradicação da pobreza e diminuição das desigualdades sociais no país”. |
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2013 |
Ciência, Saúde e Esporte |
“[...] atividades que estimularam a interação entre esporte, ciência e saúde, mostrando ao público como a ciência e a tecnologia são hoje elementos essenciais neste domínio, particularmente nos esportes de alto desempenho”. |
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2014 |
Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social |
“[...] procurou mostrar como o conhecimento científico pode solucionar problemas em áreas como a saúde, transporte, educação, energia, meio ambiente e habitação, a fim de promover a inclusão social”. |
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2016 |
Ciência alimentando o Brasil |
“[...] baseou-se na decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas, que proclamou o ano de 2016 como o Ano Internacional das Leguminosas. A escolha do tema visou estimular as instituições a abordarem a importância da alimentação mundial, com temas a respeito da nutrição, segurança alimentar, fome, obesidade e distúrbios alimentares”. |
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2021 |
A transversalidade da ciência, tecnologia e inovações para o planeta |
“[...] pandemia de COVID-19, a superação dos grandes desafios globais, nacionais e regionais, depende de ações que considerem os avanços científicos e tecnológicos em diferentes áreas do conhecimento, e que sejam capazes de integrá-los e otimizá-los, em benefício da humanidade e do planeta”. |
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2023 |
Ciências Básicas para o Desenvolvimento Sustentável |
“[...] os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estipulados pela Organização das Nações Unidas (ONU) numa agenda a ser realizada até 2030”. |
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Biologia como tema periférico (TP)
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2004 |
Olhar para o Céu |
“[...] ocorrência do eclipse lunar em 27 de outubro, a SNCT usou o mote “Olhar para o Céu”, para informar a população sobre a ocorrência dessa grande efeméride e despertar o encantamento pela Astronomia. |
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2006 |
Criatividade e Inovação |
“[...] centrado nas comemorações do centenário do voo do 14-Bis, que é de fundamental importância para a história brasileira, da ciência e da tecnologia”. |
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2009 |
Ciência no Brasil
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“[...] a evolução da ciência no país e seus principais atores, bem como para incentivar o povo brasileiro a conhecer e a valorizar a C&T produzida no país”. |
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2017 |
A Matemática está em Tudo |
“[...] baseou-se em dois grandes eventos que ocorreram, pela primeira vez, no Brasil: a Olimpíada Internacional de Matemática (2017) e o Congresso Internacional dos Matemáticos (2018)”. |
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2015 |
Luz, Ciência e Vida |
“[...] se baseou na decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas, que proclamou 2015 como o Ano Internacional da Luz, com o objetivo de celebrar a luz como matéria da ciência e do desenvolvimento tecnológico”. |
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2018 |
Ciência para a Redução das Desigualdades |
“[...] baseou-se na Agenda 2030, estabelecida pela Organização das Nações Unidas– ONU, e seus 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável– ODS, em particular o ODS 10– Redução das Desigualdades. |
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2020 |
Inteligência Artificial: a nova fronteira da ciência brasileira |
“[...] correlação entre a evolução/construção da Ciência e o desenvolvimento tecnológico, especialmente quanto à capacidade de armazenamento e processamento de dados”. |
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2022 |
Bicentenário da Independência: 200 anos de ciência, tecnologia e inovação no Brasil |
“[...] a importância da ciência e da tecnologia na vida de todos e para o desenvolvimento do país”. |
Fonte: BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Breve histórico da SNCT. Brasília, DF: MCTI, 2024. Elaborado pelos autores (2025).
A análise das temáticas evidencia que, embora a programação da SNCT seja marcada por ampla diversidade temática e por uma abordagem multidisciplinar, as áreas das Ciências Naturais têm se mostrado historicamente recorrentes ao longo das edições do evento, figurando como elementos centrais em diferentes momentos. Das 21 edições realizadas até 2024, quatro apresentaram temas diretamente vinculados à Biologia (2008; 2010; 2019 e 2024), enquanto nove abordaram essa área de forma articulada componentes outros campos do conhecimento, como Economia, Geologia, Ciências Sociais e áreas afins (2005; 2007; 2011; 2012; 2013; 2014; 2016; 2021; 2023).
Evidencia-se, ainda, que houve oito edições (2004; 2006; 2009; 2017; 2015; 2018; 2020 e 2022) cujas temáticas estiveram vinculadas predominantemente a outras áreas do conhecimento, como as Ciências Humanas, Sociais e Aplicadas, sem vínculos diretos com a Biologia. Exemplificam esse movimento as edições de 2018 e 2020,que abordaram,respectivamente, a redução das desigualdades e o desenvolvimento tecnológico sob a perspectiva da capacidade de armazenamento e processamento de dados associados à Inteligência Artificial.
Ainda que apenas as edições de 2008, 2010, 2019 e 2024 possam ser interpretadas como tendo a Biologia como foco central, é válido destacar o caráter estruturante dessa área no contexto dos Temas Contemporâneos Transversais. A presença das Ciências Biológicas em temáticas relacionadas a fenômenos naturais, diversidade biológica e cultural, sustentabilidade, alimentação e saúde confere à área umpapel de destaque no âmbito da SNCT.
Com base nos objetivos de cada edição apresentados no quadro anterior, infere-se que, ao se considerar o conjunto das temáticas propostas, as Ciências Biológicas assumem certo protagonismo. Ainda que, em diversos momentos, se articulem a outras áreas do conhecimento, essas temáticas inserem a Biologia de maneira central nos debates promovidos, entrelaçando a trajetória da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia no Brasil à história da relação entre Biologia e sociedade.
Os dados da “Pesquisa de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil (2023)”, corroboram essa análise, ao indicar que temas como sustentabilidade e biodiversidade são amplamente reconhecidos como relevantes pela população. Mais de 46% dos participantes afirmaram compreender o desenvolvimento de tecnologias voltadas ao uso sustentável da biodiversidade como algo que gera “muito impacto positivo” para a sociedade. Além disso, o levantamento aponta que temas relacionados àsaúde e ao meio ambiente figuram entre os que despertam maior interesse público, aspectos que se refletem nas temáticas recorrentes da SNCT.
Em contrapartida, a mesma pesquisa evidencia que os hábitos culturais da população pouco reconhecem a SNCT como um espaço privilegiado para a busca de conhecimento em Ciência e Tecnologia. Para esse fim, são citados com maior frequência espaços como zoológicos, parques ambientais e jardins botânicos, o que reforça a necessidade de maiores investimentos em divulgação científica, especialmente em um evento de grande alcance nacional como a SNCT.
Embora a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia cumpra com o papel de popularizar o conhecimento científico e tecnológico - ao viabilizar“[...] o movimento necessário para que esses eventos atinjam uma parcela substancialmente significativa da população” (Sousa et al., 2019, p.11) -, e figure, conforme pontuam Jesus, Valério e Turra (2025), entre as primeiras ações federais direcionadas à popularização da ciência e da tecnologia no país, observa-se que o evento permanece fortemente vinculado ao contexto escolar e acadêmico. Conforme diretrizes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq):
Os principais públicos prioritários dos eventos e atividades promovidos pela SNCT são alunos e professores da educação básica, educação de jovens e adultos e educação profissional e tecnológica da rede pública e particular de ensino, buscando valorizar escolas e instituições localizadas, preferencialmente, em municípios com menor IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), de acordo com dados do Censo Demográfico 2010 (IBGE) e disponibilizados no Atlas de Desenvolvimento Humano do Brasil (Brasil, 2021, p. 1).
Para além do setor educacional, Massarani e Moreira (2009, p.112) apontam desafios importantes enfrentados pela SNCT, como “[...] atingir mais cidades e os setores mais pobres da população [...]”. Tal ampliação poderia, em alguma medida, contribuir para a transformação do panorama identificado nas pesquisas de percepção pública da ciência. Nesse sentido, Razuck e Santos (2017, p. 1538) ressaltam que “o evento, ao promover as mais variadas ações, divulga a importância da pesquisa científica e, principalmente, o impacto social da C&T, destacando a sua relevância para o desenvolvimento do país”.
Por fim, é importante ressaltar que, embora este trabalho investigue a presença de uma área específica nas temáticas da SNCT, esses eventos apresentam propósitos e potencialidades mais holísticos em termos de conteúdo. É desejável que os temas escolhidos dialoguem com diferentes saberes, não apenas para ampliar a diversidade de setores participantes, mas também para intensificar a contextualização dos conhecimentos científicos divulgados a um público, em geral, não especializado.
Segundo Almeida et al. (2022), a própria natureza crítica da educação não formal justifica sua capacidade e necessidade de interdisciplinaridade, pois somente assim se possibilita o desenvolvimento de um olhar multidimensional sobre determinado tema. A interdisciplinaridade, que “consiste num trabalho em comum tendo em vista a interação das disciplinas científicas, de seus conceitos e diretrizes, de suas metodologias, de seus procedimentos, de seus dados e da organização de seu ensino” (Fazenda, 2011, p.35),revela-se fundamental em eventos do porte da SNCT. Justamente por esse motivo, este estudo não tem como objetivo disciplinarizar as temáticas do evento ao longo dos últimos vinte anos, mas compreender o potencial articulador da Biologia nesse contexto.
CONSIDERAÇÕES EM PROCESSO
A análise desenvolvida neste estudo não permite afirmar, de forma peremptória, que a Biologia se configure como uma área central nas temáticas da SNCT. Contudo, a série histórica das edições do evento indica que, ao longo das duas décadas analisadas, apenas em oito edições não se identificam, de maneira clara, temas, assuntos ou termos vinculado às Ciências Biológicas.
É possível observar momentos pontuais em que a Biologia assume maior centralidade, como ocorreu em 2022, quando a História Natural foi adotada como mote para refletir a ciência brasileira. Ainda assim, a SNCT não se caracteriza pela adoção de temas estritos ou excessivamente específicos. Ao contrário, privilegia, de modo recorrente, temáticas de natureza multidisciplinar ou interdisciplinar, que integram diferentes áreas ou campos do conhecimento.
Essa característica faz com que, mesmo quando uma edição esteja ancorada em uma área específica – seja em função da celebração de determinado momento histórico, personagem, evento ou fenômeno -, ocorram, de forma intencional ou induzida, articulações entre distintos campos do conhecimento. O ano de 2004 exemplifica esse movimento, ao contemplar projetos voltados à Astrobiologia e à Bioastronáutica.
Nesse sentido, entende-se que eventos como a SNCT cumprem papel estratégico no conjunto das ações e práticas contemporâneas de divulgação e popularização da ciência. Conforme argumenta Thiesen (2008), ao discutir a interdisciplinaridade, trata-se de colocar “em xeque a dimensão disciplinar do conhecimento em suas etapas de investigação, produção e socialização” e de propor uma “intensificação do diálogo, das trocas, da integração conceitual e metodológica nos diferentes campos do saber”. Para o público, isso se traduz em uma experiência de imersão cultural; para os cientistas, em processo de devolutiva social e de inspiração epistemológica.
Dessa forma, o estudo em tela permite situar a Biologia como um potente tema articulador ou transversal no âmbito da SNCT, cujas implicações e aplicações se mostram relevantes para o debate público sobre temas atuais e candentes.
Por fim, os resultados e as experiências decorrentes deste estudo suscitam novas questões e encaminhamentos, especialmente no que se refere à necessidade de aprofundar e cotejar as análises a partir da consideração dos projetos aprovados ao longo da história da SNCT, o que poderá contribuir para compreensões ainda mais abrangentes sobre o papel das Ciências Biológicas nesse evento.
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[1]Disponível em: https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/avaliacao/instrumentos/documentos-de-apoio/tabela-de-areas-de-conhecimento-avaliacao