DOI: 10.36661/2595-4520.2026v9n2.15529

Recebido em: 30/11/2025

Aceito em: 19/02/2026

 

Pensamento Crítico sobre a Ciência: representações da Natureza da Ciência em filmes e séries da Netflix Brasil

 

Critical Thinking about Science: Representations of the Nature of Science in Netflix Brazil Films and Serie

 

Pensamiento crítico sobre la ciencia: Representaciones de la naturaleza de la ciencia en películas y series de Netflix Brasil.

 

Amanda Berk (berk.amanda@yahoo.com.br)

Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia; Casa de Oswaldo Cruz; Fundação Oswaldo Cruz, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-3437-7899

 

Amanda Medeiros (amanda.cnth@gmail.com)

Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia; Casa de Oswaldo Cruz; Fundação Oswaldo Cruz, Brasil

https://orcid.org/0000-0003-4491-4245

 

Luisa Massarani (luisa.massarani@fiocruz.br)

Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia; Casa de Oswaldo Cruz; Fundação Oswaldo Cruz, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-5710-7242

 

Resumo

Filmes e séries com temática científica são populares e muitas vezes abordam questões passíveis de instigar reflexões acerca da Natureza da Ciência (NdC). A Netflix é responsável por uma parcela importante do acesso diário de indivíduos a obras audiovisuais, registrando mais de 180 milhões de assinantes no mundo. Desde 2021 a empresa divulga um ranking semanal dos conteúdos mais acessados em cada país. Com o objetivo de investigar como aspectos da NdC estão sendo retratados em filmes e séries da Netflix Brasil, foram feitas buscas a partir dos descritores ficção científica, cientista e ciência, e posteriormente identificadas as dez obras audiovisuais com temática científica que registraram maior incidência no ranking brasileiro da plataforma desde o início da sua divulgação. As produções foram analisadas a partir de uma Análise de Conteúdo (Bardin, 2011), considerando as categorias estipuladas por Justi e Erduran (2015) no âmbito da Sociologia da Ciência: falibilidade e influência sociopolítica. Os resultados incitam debates com potencial de provocar mudanças na visão ingênua e distorcida que os espectadores possuem acerca da NdC, como a neutralidade e a verdade absoluta da ciência. Indicam ainda o quão oportuno pode ser o uso de obras audiovisuais no Ensino de Ciências.

Palavras-chave: Netflix; Natureza da Ciência; Pensamento crítico.

 

 

 

Abstract

Films and series with scientific themes are popular and often address issues that can provoke reflection on the Nature of Science (NOS). Netflix is ​​responsible for a significant portion of individuals' daily access to audiovisual works, registering more than 180 million subscribers worldwide. Since 2021, the company has published a weekly ranking of the most accessed content in each country. With the aim of investigating how aspects of NOS are being portrayed in films and series on Netflix Brazil, searches were conducted using the descriptors science fiction, scientist, and science, and subsequently identified the ten audiovisual works with scientific themes that registered the highest incidence in the Brazilian ranking of the platform since its inception. The productions were analyzed using Content Analysis (Bardin, 2011), considering the categories stipulated by Justi and Erduran (2015) within the scope of the Sociology of Science: fallibility and sociopolitical influence. The results encourage debates with the potential to provoke changes in the naive and distorted view that viewers have about the Nature of Science, such as the neutrality and absolute truth of science. They also indicate how opportune the use of audiovisual works can be in Science Education.

Keywords: Netflix; Nature of Science; Critical thinking.

 

Resumen

Las películas y series de temática científica son populares y suelen abordar temas que pueden provocar la reflexión sobre la Naturaleza de la Ciencia (NdC). Netflix es responsable de una parte significativa del acceso diario de las personas a obras audiovisuales, registrando más de 180 millones de suscriptores en todo el mundo. Desde 2021, la compañía publica un ranking semanal del contenido más consultado en cada país. Con el objetivo de investigar cómo se retratan aspectos de la NOS en las películas y series de Netflix Brasil, se realizaron búsquedas utilizando los descriptores ciencia ficción, científico y ciencia, y posteriormente se identificaron las diez obras audiovisuales de temática científica que registraron la mayor incidencia en el ranking brasileño de la plataforma desde su creación. Las producciones se analizaron mediante una Análisis de Contenido (Bardin, 2011), considerando las categorías estipuladas por Justi y Erduran (2015) en el ámbito de la Sociología de la Ciencia: falibilidad e influencia sociopolítica. Los resultados incitan debates con el potencial de provocar cambios en la visión ingenua y distorsionada que tienen los espectadores sobre la Naturaleza de la Ciencia, como la neutralidad y la verdad absoluta de la ciencia. También indican cómo el uso de obras audiovisuales puede ser oportuno en la educación científica.

Palabras clave: Netflix; Naturaleza de la ciencia; Pensamiento crítico.

 

INTRODUÇÃO

A forma como acessamos obras audiovisuais vem se transformando com o avanço das tecnologias (Frandaloso, 2024). Atualmente, além da ampla disponibilidade de ferramentas que facilitam o acesso a tais obras, há também uma extensa e variada oferta de produções – filmes, séries, documentários etc – que são lançadas constantemente. As plataformas digitais de streaming têm apresentado, em um ritmo acelerado, um catálogo de obras antigas e atuais aos seus clientes, estimulando seu consumo diário. Dentre as plataformas que surgiram nesse contexto, a Netflix ocupa posição de destaque e relevância.

A Netflix foi lançada no Brasil em 2011 e, em apenas nove anos, conquistou mais de 15 milhões de assinantes no país e um total de 183 milhões ao redor do mundo (Alecrim, 2020). Criada em 1997 pelos norte-americanos Marc Randolph e Reed Hastings, a plataforma inicialmente operava como um serviço online de aluguel de filmes, permitindo a entrega e devolução por meio do Correio, com solicitações feitas pela internet (Penner; Straubhaar, 2020). Com o avanço da internet e das tecnologias digitais, a empresa revolucionou seu modelo de negócio: agora, por uma taxa mensal, os assinantes têm acesso a um amplo catálogo de títulos, incluindo produções originais da plataforma.

Estando presente em mais de 190 países, conforme Lima, et al. (2015), a Netflix se tornou um verdadeiro fenômeno, transformando a maneira de assistir a filmes e séries, tudo isso sem sair do conforto de casa e ajustando-se às preferências de cada assinante. Desviando-se da programação tradicional da televisão e explorando novas formas de especialização e temporalidade, com diferentes intensidades, surge algo que é denominado como o novo modelo de TV.

Neste estudo, dada a relevância da plataforma, tomamos a Netflix como ponto de partida para analisar aspectos da Natureza da Ciência (NdC) em filmes e séries de seu catálogo, discutindo o potencial dessas obras audiovisuais em promover reflexões acerca da ciência, do trabalho científico e do Ensino de Ciências. Ao tratar de aspectos da NdC, estamos nos referindo a um conjunto de componentes que envolvem a criação, implementação e estruturação do conhecimento científico. Isso pode incluir aspectos internos, como o método científico e a interação entre experimentação e teoria, bem como fatores externos, como a influência de aspectos sociais, culturais, religiosos e políticos na aceitação ou negação de conceitos científicos (Moura, 2014). Entender a NdC é considerado um dos princípios essenciais para formar alunos e professores mais críticos e conectados com o mundo e a realidade ao seu redor.

Contarini, et al. (2022) apontam a necessidade de utilização de estratégias para transpor a linguagem científica para que os indivíduos possam se aproximar da ciência, uma vez que a compreensão dos conhecimentos científicos muitas vezes distancia-se dos sujeitos por sua complexidade. Assim, o consumo de filmes e séries que abordam temas de ciência, na medida em que coloca o espectador em contato com aspectos da NdC e estimula o pensamento crítico, pode ampliar o interesse e, consequentemente, aproximar diferentes públicos do campo científico.

POTENCIALIDADES DA CIÊNCIA EM CENA NO AUDIOVISUAL

Investigações realizadas por estudiosos como Haynes (1994; 2003; 2006; 2014), Flicker (2003) e Kirby (2003a; 2003b; 2011; 2014) têm demonstrado que, ao longo de mais de um século de cinema, há elementos em suas narrativas que remetem à ciência e aos cientistas. Esse dado se torna particularmente importante tendo em vista que filmes e séries possuem grande capacidade de alcançar os espectadores, configurando-se em uma estratégia importante para incitar mudanças na forma como as pessoas enxergam a ciência, além de outras pautas de importância para a sociedade.

Com pensamento semelhante, Peduzzi e Raicik (2020) defendem que as abordagens de temas da ciência presentes em diferentes produções audiovisuais permitem a discussão de aspectos que atravessam o campo e a prática científica, tais como: a) a construção do conhecimento científico, b) as influências sofridas pelos cientistas durante o trabalho científico, e c) o entendimento da ciência como verdade absoluta.  Os autores acreditam que a observação desses aspectos pode promover uma postura crítica e reflexiva sobre as compreensões acerca da ciência, assim como uma postura crítica diante das representações da ciência presentes nas produções audiovisuais. Assim, é fundamental investigar as produções culturais, especialmente os filmes mais populares, para entender as mensagens que capturam a atenção do público e que, quando acionadas nos espaços educativos, têm o potencial de contribuir com um ensino da ciência.

A utilização de filmes como recurso pedagógico no Ensino de Ciências é amplamente reconhecida na literatura por suas potencialidades didáticas e pela capacidade de engajar estudantes em processos reflexivos acerca da ciência e de suas representações. Segundo Piassi e Pietrocola (2009) em revisão clássica sobre cinema e ensino, “a ciência dos filmes de ficção científica é uma ciência ficcional, onde não há rigidez acerca dos postulados científicos”; assim, filmes podem ser utilizados para além da mera identificação de erros conceituais, favorecendo a discussão epistemológica e crítica da ciência como prática social (Oliveira Neto; Farias, 2021).

Em consonância, estudos que analisam filmes comerciais de educação ambiental destacam que as obras audiovisuais são recursos que permitem articular conteúdos científicos com contextos sociais e ambientais, facilitando a compreensão de fenômenos complexos em ambientes de educação formal, como é o caso da sala de aula (Santos; Uhmann, 2024).

Além da abordagem de conteúdos específicos, pesquisas metodológicas também apontam que o uso de filmes no Ensino de Ciências favorece o desenvolvimento de habilidades críticas. Por exemplo, em uma proposta didática com “pausas dialogadas” durante a exibição do filme Viagem Fantástica, Lovato e Sepel (2023) concluíram que “essas pausas propiciam o diálogo crítico entre alunos sobre questões científicas e sociais”, promovendo reflexão e argumentação científica.

Na educação em Biologia, relatos de experiência indicam que os alunos demonstraram aumento de interesse e aprendizagem quando os filmes foram utilizados como recurso didático, especialmente em questões de biologia celular e corpo humano (Eckert; Baumgratz; Hermel, 2022). Uma revisão sistemática sobre filmes de ficção científica evidencia que não se trata de algo recente: desde a década de 1980, filmes de ficção científica têm sido utilizados como recurso metodológico no Ensino de Ciências, mas ainda são escassos os estudos que conectam Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) de modo coerente, sinalizando uma lacuna teórica e prática que pode ser preenchida por abordagens problematizadoras que discutam a Natureza da Ciência (NdC) (Rocha; Silva; Heerdt, 2021).

A partir dessa perspectiva, Piassi e Pietrocola (2009, p. 525) defendem que “a ficção científica constitui por si só uma modalidade de discurso sobre a ciência (…) e expressa interesses e preocupações que influem diretamente no âmbito sociocultural”, o que implica que filmes podem funcionar como suporte para discussões epistemológicas sobre a ciência e suas características sociais, históricas e políticas — seja em ambientes formais ou informais de educação.

No plano internacional, trabalhos indicam que professores reconhecem o valor das obras audiovisuais ao explorarem questões sociocientíficas em sala de aula, pois “a utilização de filmes que abordam temas sociocientíficos permite que os professores explorem aspectos complexos da ciência que vão além da simples transmissão de conteúdo”, fortalecendo a formação de pensamento crítico nos estudantes (GENC; UÇAK, 2025).

Adicionalmente, a revisão narrativa de Mello e Filho (2024) sobre filmes de ficção científica no Ensino de Ciências mapeia múltiplas funções pedagógicas atribuídas aos filmes — desde a introdução de conteúdos científicos até a capacidade motivadora e interdisciplinar das obras — destacando a necessidade de análises que incorporem perspectivas culturais e socioambientais para uma educação científica mais crítica e contextualizada.

Trabalhos latino-americanos como a dissertação de Fernandes (2019) mostram que, na educação básica, obras audiovisuais se apresentam como possibilidade didática que articula ciência e cultura, reforçando que o cinema pode ser uma ferramenta para promover a compreensão das práticas científicas e sua natureza enquanto atividade humana historicamente situada. Estudos qualitativos conduzem à conclusão de que, ao realizar um paralelo entre o conteúdo científico estudado e as narrativas fílmicas, o estudante desenvolve senso crítico, julgando o que está sendo apresentado como realidade ou como ficção. Tal constatação sugere que a reflexão epistemológica pode ser potencializada por meio da análise crítica dos filmes (Silva, 2024).

Nesse contexto, a literatura latino-americana sobre Ensino de Ciências também se insere em tendências mais amplas da pesquisa educacional na região, que reconhece a necessidade de práticas educativas que promovam o pensamento crítico e a compreensão reflexiva da ciência em relação a contextos sociais, culturais e históricos diversos (El-Hani; Mortimer; Pietrocola, 2020).

METODOLOGIA

Com o objetivo de investigar como representações da Natureza da Ciência (NdC) estão sendo retratadas em filmes e séries da Netflix, atentando para o potencial dessas obras audiovisuais em promover reflexões acerca da ciência, do trabalho científico e do Ensino de Ciências, utilizamos a própria ferramenta de busca da plataforma de streaming para identificar conteúdos com temática científica. A coleta foi realizada mês a mês entre janeiro e abril de 2024, a partir dos descritores ficção científica, cientista e ciência. O recorte temporal de coleta de dados ocorreu no início da pesquisa e sua demarcação se justifica pela volatilidade presente na plataforma, uma vez que a mesma disponibiliza seus títulos de modo provisório.

Com as buscas feitas ao longo dos quatro meses citados, chegamos ao total de 387 títulos, entre filmes e séries[[1]], com conteúdos pertinentes ao estudo, ou seja, que apresentassem em sua temática central aspectos relativos à ciência, articulando em suas cenas conteúdos que retratam situações da prática científica. Para garantir a exequibilidade da investigação qualitativa — que demandava uma análise obra a obra —, optamos por reduzir a amostra por meio do cruzamento dos títulos coletados com o ranking semanal disponibilizado pela Netflix[[2]]. Assim, levantamos todas as informações do ranking desde o ano de sua criação — 2021 — e observamos a recorrência da aparição das 387 obras entre os mais assistidos da plataforma. Tal estratégia nos permitiu chegar às dez produções audiovisuais analisadas nesta pesquisa: seis séries (sendo uma minissérie) e quatro filmes.

Desde esta primeira etapa, recorremos à Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2011) para realizar a pré-análise dos dados coletados na plataforma e identificar, a partir de critérios específicos, os filmes e séries que passariam a compor o corpus da pesquisa. Desse modo, além da incidência no ranking da Netflix, os critérios utilizados foram, objetivamente: a) abordar a temática científica em seu enredo central; b) apresentar aspectos da NdC em seu roteiro e nas cenas exibidas nas obras; c) serem reconhecidos tanto pelo público quanto pela crítica, levando em conta sua receita de bilheteira e prêmios internacionais; d) tratar-se de produções contemporâneas do século XXI.

Segundo Bardin (2011), a fase de pré-análise inclui uma leitura preliminar dos dados, permitindo uma compreensão mais detalhada do material reunido. É nesse estágio que se definem os objetivos e as hipóteses do trabalho, os quais orientam as etapas seguintes da pesquisa.

A próxima etapa, conforme descrita por Bardin (2011), consiste na codificação dos dados mediante a exploração do conteúdo que representa o corpus da pesquisa. Essa codificação pode abranger a definição de categorias pré-existentes a serem observadas no material em questão e/ou a elaboração de novas categorias. Optamos por um modelo fechado, explorando categorias relevantes criadas previamente por Justi e Erduran, (2015) — autoras no campo da análise de recursos audiovisuais e Ensino de Ciências — a partir da perspectiva da Sociologia da Ciência. Assim, foram duas as categorias temáticas exploradas neste estudo mediante a observação das incidências de elementos relacionados à NdC em diálogos das produções audiovisuais:

Falibilidade: discute, em uma perspectiva social, como os cientistas identificam e lidam com erros durante o processo de produção do conhecimento científico, ou seja, como eles se articulam na comunidade acadêmica ou com a sociedade diante dos erros, sejam seus ou de outro(s) cientista(s);

Influência sociopolítica: discute as influências que a sociedade na qual os cientistas estão inseridos e a política (local ou global) podem sofrer e/ou exercer durante o processo de produção do conhecimento científico. Por exemplo, a Sociologia da Ciência pode discutir como questões sociais e políticas, iluminadas por diferentes posturas, influenciam no desenvolvimento de pesquisas sobre um determinado tema e/ou como as pesquisas realizadas interferem no meio social e político.

A partir das duas categorias apresentadas, observamos a presença/ausência dessas abordagens nos dez filmes e séries que compõem o corpus. Tal estratégia metodológica possibilitou a organização dos elementos significativos contidos na mensagem transmitida, viabilizando a observação do potencial das dez obras audiovisuais em promover reflexões acerca da ciência, do trabalho científico e do Ensino de Ciências. Os enredos de cada obra, como pode ser observado no Quadro 1, oferecem um panorama da diversificação das abordagens sobre a ciência nos conteúdos com maior incidência no ranking semanal da Netflix desde o ano de 2021.

Quadro 1 – Sinopses das dez produções audiovisuais analisadas

 SINOPSES

Filmes

 

Não olhe para cima: Dois astrônomos desconhecidos descobrem que em poucos meses um meteorito destruirá o planeta Terra. A partir desse momento, eles devem alertar a humanidade por meio da imprensa sobre o perigo que se aproxima.

Projeto Adam: Um viajante do tempo volta ao ano de 2022 por acidente e acaba se encontrando com seu eu mais novo. Juntos, e sendo caçados por forças do futuro, os dois embarcam em uma missão para consertar a linha temporal e salvar seus entes queridos.

Paraíso: O filme acompanha a história de Max e Elena, que vivem em um mundo no qual as pessoas podem vender anos de vida em troca de dinheiro. No processo, os doadores envelhecem, e os receptadores rejuvenescem.

Projeto Gemini: Henry Brogan é um assassino de elite que se torna o alvo de um agente misterioso que aparentemente pode prever todos os seus movimentos. Ele logo descobre que o homem que está tentando matá-lo é uma versão mais jovem, rápida e clonada de si mesmo.

Séries

 

Stranger things: Um grupo de amigos se envolve em uma série de eventos sobrenaturais na pacata cidade de Hawkins. Eles enfrentam criaturas monstruosas, agências secretas do governo e se aventuram em dimensões paralelas.

A Queda da Casa de Usher: Minissérie de terror da Netflix baseada no conto homônimo de Edgar Allan Poe. A história é sobre os irmãos Roderick e Madeline Usher, que construíram um império a partir da Farmacêutica Fortunato, mas que começa a ruir quando os herdeiros começam a morrer misteriosamente.

DNA do crime: Em DNA do Crime, policiais federais da delegacia de Foz do Iguaçu iniciam uma investigação internacional complexa após uma facção secreta do Brasil realizar um mega assalto na instalação de uma seguradora de valores no Paraguai. Seguindo o rastro das amostras de DNA coletadas nas cenas do crime, eles desenterram uma conexão que liga o roubo no país vizinho a outros crimes recentes, revelando um plano ainda mais amplo envolvendo criminosos de ambas as nações. Na trama, Benício, um dos policiais envolvidos no caso, possui um desejo pessoal em resolver o crime o quanto antes, e para isso, ele é capaz de qualquer coisa.

Sweet Tooth: Nessa aventura épica em um mundo pós-apocalíptico, um adorável menino-cervo procura uma família e um lar na companhia de um amigo rabugento. Este é um conto de fadas distópico e aclamado pela crítica.

Grey’s Anatomy: Série médica que foca em um grupo de jovens médicos do Hospital Grace Mercy West, de Seattle, que começaram a carreira na própria instituição como residentes. Uma das jovens médicas que dá nome ao show, Meredith Grey, é filha de uma famosa cirurgiã.

Jovem Sheldon: A série mostra Sheldon Cooper com 9 anos de idade, que tem uma mente única em uma geração capaz de avançar matemática e ciência, enquanto frequenta o ensino médio no Texas, lidando com o mundo ao seu redor, enquanto sua família muito normal deve encontrar uma maneira de lidar com ele.

Fonte: Autores

RESULTADOS

            O acervo da Netflix apresenta um quantitativo significativo de obras com teor científico distribuídas em diferentes gêneros e perfis. As análises das dez obras audiovisuais selecionadas permitiram identificar exemplos de aspectos da Natureza da Ciência (NdC) alinhados às categorias propostas por Justi e Erduran (2015), as quais serviram, também, à estruturação da apresentação dos resultados deste estudo, que se dará a partir de dois eixos: Falibilidade e Influência sociopolítica.

FALIBILIDADE

No âmbito da categoria Falibilidade, os resultados dialogam com um dos entendimentos mais arraigados no senso comum acerca da ciência: a concepção de que ela seria detentora de verdades absolutas e infalíveis (Scheid, et al., 2005). As obras analisadas apresentam situações em que erros metodológicos, limitações técnicas, imprevisibilidades e falhas humanas emergem de maneira explícita, como observado em produções como Grey’s Anatomy, Stranger Things e Não Olhe para Cima. Esses achados estão alinhados ao pensamento de Costa e Valle (2023), que defendem a compreensão do conhecimento científico como provisório e sujeito à refutação, e reforçam o argumento de que tais narrativas audiovisuais podem ser exploradas pedagogicamente para desconstruir visões dogmáticas da ciência.

Do ponto de vista do Ensino de Ciências, essa abordagem se mostra particularmente relevante quando articulada a estratégias didáticas problematizadoras. À luz dos resultados deste estudo, observa-se que os diálogos presentes nas produções analisadas oferecem múltiplos pontos de tensão narrativa — erros científicos, dilemas éticos e conflitos profissionais — que podem ser mobilizados em sala de aula para discutir a ciência como uma atividade humana, histórica e socialmente situada. Séries como Grey’s Anatomy e Stranger Things apresentam, de forma recorrente, situações em que decisões científicas e técnicas resultam em erros, consequências inesperadas ou necessidade de revisão de procedimentos.

Em Grey’s Anatomy, por exemplo, erros de diagnóstico, limitações tecnológicas e falhas humanas são frequentemente retratados, evidenciando que a prática científica e médica está sujeita a incertezas e revisões constantes. Esses elementos corroboram o que Scheid, Ferrari e Delizoicov (2005) apontam como fundamentais para desconstruir a visão de ciência infalível, ainda predominante no senso comum e no imaginário escolar. No Ensino de Ciências, tais cenas podem ser exploradas como situações-problema para discutir a provisoriedade do conhecimento científico, conforme defendem Costa e Valle (2023).

Essas narrativas permitem discutir com os estudantes a natureza experimental da ciência, os limites do controle metodológico e a importância da reflexão ética, aspectos centrais da NdC segundo El-Hani, Mortimer e Pietrocola (2020). A análise dessas cenas em sala de aula, mediada por questionamentos orientadores, pode favorecer o desenvolvimento do pensamento crítico ao problematizar concepções idealizadas da prática científica.

Essas narrativas permitem discutir com os estudantes a natureza experimental da ciência não apenas como um conjunto de procedimentos técnicos, mas como uma prática situada, marcada por incerteza, negociação interpretativa e condicionantes históricos e culturais. Nessa direção, El-Hani, Mortimer e Pietrocola (2020) enfatizam que o ensino da NdC deve superar abordagens normativas e descontextualizadas, incorporando explicitamente discussões sobre como teorias são construídas, validadas e eventualmente revistas em comunidades científicas. Sob essa perspectiva, os limites do controle metodológico — frequentemente invisibilizados no ensino tradicional — tornam-se objeto de problematização pedagógica: erros, vieses, escolhas instrumentais e decisões interpretativas deixam de ser “falhas” periféricas e passam a ser compreendidos como componentes constitutivos da dinâmica científica.

Além disso, a dimensão ética não deve ser tratada como apêndice, mas como eixo estruturante da prática científica, uma vez que decisões de pesquisa, financiamento e aplicação tecnológica envolvem valores, interesses e impactos sociais diferenciados. Assim, a análise orientada de cenas audiovisuais, mediada por questionamentos epistemológicos e sociocientíficos, pode deslocar concepções idealizadas de ciência neutra e linear, favorecendo práticas argumentativas, comparação de interpretações e explicitação de pressupostos — movimentos didáticos coerentes com a literatura latino-americana recente que defende uma educação científica crítica, contextualizada e culturalmente situada.

Também sobre erros e falhas científicas, encontramos exemplos em Projeto Adam, Jovem Sheldon e Sweet Tooth de situações que envolvem procedimentos científicos que foram seguidos de acordo com os métodos estabelecidos e, ainda assim, não obtiveram o resultado esperado. Esse fato remete especificamente ao parâmetro da falibilidade inerente aos métodos científicos em si, que mesmo executando as etapas investigativas da maneira como previsto nos protocolos determinados, é possível, diante da sensibilidade ou abstração das amostras, ou até mesmo de elementos alheios que podem interferir no processo, que os resultados não correspondam ao esperado inicialmente.

INFLUÊNCIA SOCIOPOLÍTICA

No que diz respeito à categoria Influência Sociopolítica, os resultados reforçam a crítica à visão de neutralidade da ciência, amplamente discutida por Praia, Gil-Pérez e Vilches (2007). As narrativas audiovisuais analisadas evidenciam de forma recorrente o atravessamento de interesses políticos, econômicos e institucionais no desenvolvimento das pesquisas científicas, como observado em Não Olhe para Cima, A Queda da Casa de Usher, Projeto Gemini e DNA do Crime. Tais representações dialogam com estudos que destacam o cinema como recurso privilegiado para discutir questões sociocientíficas, uma vez que dramatizam conflitos reais entre ciência, poder e sociedade (Genc; Uçak, 2025).

Produções como Não Olhe para Cima ilustram de maneira contundente como decisões políticas e interesses eleitorais podem se sobrepor a evidências científicas, comprometendo ações de interesse coletivo. Esses achados convergem com o pensamento de Santos e Uhmann (2024), ao evidenciarem que filmes comerciais possibilitam articular conteúdos científicos a contextos sociais amplos, favorecendo a compreensão crítica de fenômenos complexos. Ao explicitar essas influências, as obras analisadas tornam-se recursos potentes para discutir a NdC sob uma perspectiva sociológica, conforme proposto por Justi e Erduran (2015).

No contexto latino-americano, marcado por desigualdades educacionais e pela forte presença de produtos midiáticos globais no cotidiano dos estudantes, a utilização crítica de filmes no Ensino de Ciências assume relevância ainda maior. Fernandes (2019) e Silva (2024) destacam que o cinema pode funcionar como ponte entre ciência e cultura, aproximando os conteúdos científicos das vivências dos alunos. Os resultados deste estudo reforçam essa perspectiva ao indicar que as produções mais assistidas na Netflix Brasil mobilizam representações da ciência que, se não problematizadas, tendem a consolidar imaginários científicos distorcidos; contudo, quando mediadas criticamente, podem contribuir para processos mais amplos de alfabetização científica.

A realização das pesquisas científicas pode sofrer influências externas ao meio científico, tais como influências sociais e/ou políticas. No que diz respeito às influências políticas, em Stranger Things é evidenciado o envolvimento das autoridades políticas nas pesquisas científicas de caráter duvidoso que são realizadas no Laboratório de Hawkings. O mesmo ocorreu no Projeto Gemini, quando as decisões referentes ao desenvolvimento das pesquisas científicas que culminaram na produção de clones com finalidades militares tiveram participação do governo que autorizou o programa.

No filme Não olhe para cima, os cientistas procuram as autoridades governamentais a fim de buscar uma solução para uma catástrofe mundial com a colisão de um cometa contra o planeta Terra. Contudo, a presidente dos Estados Unidos adota uma postura egocêntrica ao tratar do assunto, desmerecendo a gravidade da situação e priorizando apenas os seus interesses pessoais diante da proximidade das eleições.

Outra influência que pode ser determinante para o desenvolvimento de pesquisas científicas é a proveniente da opinião pública. A pressão social muitas vezes é fundamental para que sejam realizadas pesquisas sobre temas de interesse coletivo. No caso de Sweet Tooth, há uma calamidade pública mundial após a disseminação de um vírus que contaminou a população humana. Há uma associação entre os híbridos e a cura para a contaminação causada pelo vírus, gerando, portanto, uma pressão popular para a realização de investigações científicas que compreendam melhor sobre o vírus assim como sobre os híbridos.

Em A queda da Casa de Usher, a Farmacêutica Fortunato adquiriu fama, fortuna e sucesso com a comercialização de seus medicamentos. Contudo, há um discurso de um promotor de justiça argumentando sobre os efeitos nocivos dos medicamentos produzidos pela farmacêutica Fortunato, assim como as mortes ocasionadas por eles. Com seu discurso, o advogado busca influenciar a opinião pública sobre as pesquisas científicas realizadas na empresa, almejando não só prejudicar a imagem da farmacêutica, mas também puni-la judicialmente e encerrar suas atividades de pesquisa científica e comercialização.

Já na série brasileira DNA do Crime, episódios que abordam o uso de tecnologias forenses e análises genéticas em investigações criminais apontam tanto para o potencial quanto para os limites das evidências científicas no processo decisório. As cenas que mostram disputas entre interpretações técnicas e pressões institucionais permitem discutir a ciência como prática interpretativa, sujeita a erros e influências externas. Esses elementos corroboram Fernandes (2019) e Silva (2024), ao indicarem que produções audiovisuais nacionais também constituem importantes recursos para aproximar o Ensino de Ciências das realidades socioculturais latino-americanas.

Do ponto de vista pedagógico, a análise desses episódios e cenas como recurso didático exige mediação intencional. Lovato e Sepel (2023) destacam que estratégias como pausas reflexivas, debates orientados e produção de argumentos favorecem a construção do pensamento crítico a partir do audiovisual. À luz dos resultados deste estudo, observa-se que os episódios e cenas analisados oferecem múltiplos momentos narrativos que permitem discutir explicitamente aspectos da NdC, como a falibilidade, e a influência sociopolítica, além de aspectos como ética científica e tomada de decisões sob incerteza.

Dessa forma, ao articular episódios e cenas concretas do corpus com pressupostos teóricos que atravessam, também, a educação em ciências, evidencia-se que os filmes e séries analisados não devem ser compreendidos apenas como recursos ilustrativos, mas como dispositivos pedagógicos capazes de promover reflexões epistemológicas e sociocientíficas. A utilização crítica dessas produções contribui para a formação de sujeitos capazes de interpretar discursos científicos veiculados pela mídia, questionar seus pressupostos e participar de debates científicos de maneira crítica, reflexiva e socialmente responsável, atendendo às demandas contemporâneas do Ensino de Ciências na América Latina. Servem ainda para romper com estereótipos amplamente arraigados acerca da representação da ciência e do trabalho científico.

O Quadro 2 apresenta uma sistematização analítica do corpus audiovisual selecionado, organizando obras, cenas e episódios em articulação com aspectos da NdC, possibilidades didáticas e questões problematizadoras voltadas ao desenvolvimento do pensamento crítico no Ensino de Ciências.

Quadro 2 – Filmes e séries do corpus como recursos didáticos para a discussão da NdC no Ensino de Ciências

Obra

Episódio / Cena analisada

Aspectos da Natureza da Ciência (NdC)

Possibilidades didáticas no Ensino de Ciências

Questões problematizadoras para o pensamento crítico

Não Olhe para Cima

Reuniões com autoridades políticas e entrevistas midiáticas

Influência sociopolítica (comunicação científica; negacionismo)

Discussão sobre ciência, mídia e políticas públicas

Evidências científicas são suficientes para orientar decisões sociais? Por quê?

Não Olhe para Cima

Cena do projeto tecnológico para exploração do cometa

Influência sociopolítica (Interesses econômicos; ética científica)

Análise crítica da relação entre ciência, mercado e responsabilidade social

Quem define as prioridades da ciência: cientistas, governos ou empresas?

Projeto Gemini

Cenas da corrida tecnológica sob pressão institucional

Influência sociopolítica (Ciência e poder; financiamento da pesquisa)

Debate sobre competitividade científica e interesses estratégicos

A competição favorece ou compromete o desenvolvimento científico?

Stranger Things

The Gate (T2, Ep.9) – consequências dos experimentos no laboratório de Hawkins

Falibilidade (ética científica; riscos da experimentação)

Análise de limites éticos da pesquisa científica e imprevisibilidade dos resultados experimentais

Quais responsabilidades éticas os cientistas possuem sobre os impactos de suas pesquisas?

Stranger Things

Cenas recorrentes no Laboratório Nacional de Hawkins

Influência sociopolítica (Não neutralidade; ciência como prática social)

Debate sobre ciência institucionalizada e relações de poder

A ciência pode ser considerada neutra quando financiada por interesses militares ou políticos?

DNA do Crime

Uso de tecnologias forenses e análises genéticas

Falibilidade (Limites das evidências científicas; interpretação dos dados)

Discussão sobre ciência como prática interpretativa, não absoluta

A ciência forense é sempre conclusiva? Quais são seus limites?

DNA do Crime

Conflitos entre laudos técnicos e decisões institucionais

Influência sociopolítica (Influência institucional; ciência e tomada de decisão)

Análise de como pressões externas interferem no uso da ciência

Como interesses institucionais podem influenciar o uso dos resultados científicos?

Grey’s Anatomy

Into You Like a Train (T2, Ep.6) – atendimento emergencial sem protocolos prévios

Falibilidade (incerteza; limites do conhecimento científico)

Discussão sobre erro científico, tomada de decisão sob pressão e ausência de verdades absolutas na ciência

A ciência sempre oferece respostas prontas? Como decisões científicas são tomadas diante da incerteza?

Fonte: Autores

            O Quadro 2 exposto acima evidencia que os filmes e séries do corpus oferecem situações narrativas concretas que possibilitam a discussão explícita de aspectos centrais da NdC, como falibilidade e influência sociopolítica. Quando utilizados como recursos didáticos problematizadores, esses episódios e cenas favorecem o desenvolvimento do pensamento crítico ao incentivar estudantes a questionar discursos científicos naturalizados e destacados de um contexto social, instigando os sujeitos a compreender a ciência como atividade humana e a analisar suas implicações sociais.

DISCUSSÃO

A sistematização apresentada no Quadro 2 evidencia que filmes e séries constituem recursos didáticos potentes para explicitar dimensões basilares da Natureza da Ciência (NdC), especialmente aquelas pouco contempladas em abordagens centradas exclusivamente no livro didático e em exercícios conceituais. Eckert, Baumgratz e Hermel (2022, p. 170) demonstram que a análise orientada de narrativas fílmicas promove deslocamentos nas concepções dos estudantes sobre ciência e saúde. Na mesma direção, Lovato e Sepel (2023, p. 8) defendem que as “pausas dialogadas” transformam o filme em objeto de investigação didática, ao estruturar interrupções e questionamentos que favorecem a reconstrução conceitual e aproximam o uso do cinema de metodologias investigativas do Ensino de Ciências.

O enfoque problematizador adotado dialoga com abordagens que superam o uso reducionista do cinema como mera ilustração. Piassi e Pietrocola (2009, p. 533) criticam o modelo baseado apenas na identificação de erros conceituais e defendem a ficção científica como espaço para discutir modelos, hipóteses e implicações sociais da ciência. Revisões recentes confirmam esse deslocamento teórico-metodológico: Rocha, Silva e Heerdt (2021, p. 134) indicam que o enfoque CTS amplia debates sobre valores e decisões sociocientíficas, enquanto Santos e Uhmann (2024, p. 6) mostram que produções comerciais podem sustentar discussões ambientais críticas quando acompanhadas de mediação docente estruturada. Em panorama internacional, Genc e Uçak (2025, p. 3) registram que filmes sobre temas sociocientíficos favorecem engajamento argumentativo e reflexão ética, em convergência com análises da pesquisa latino-americana que destacam o papel de múltiplas linguagens e contextos culturais na construção do conhecimento escolar (El-Hani; Mortimer; Pietrocola, 2020).

As obras analisadas mobilizam representações diversas da ciência e da figura do cientista, que podem reforçar ou tensionar concepções ingênuas, a depender da mediação pedagógica. O cinema, especialmente o de ficção científica, configura-se como forma de discurso cultural sobre a ciência, expressando valores e preocupações socioculturais que moldam o imaginário científico (Piassi; Pietrocola, 2009). Seu potencial educativo, portanto, não se limita à exemplificação de conceitos, mas inclui a discussão sobre como o conhecimento científico é produzido, validado e comunicado socialmente.

Na categoria Falibilidade, os resultados confrontam a noção de ciência como sistema de verdades absolutas (Scheid, et al., 2005), ao evidenciarem erros metodológicos, limitações técnicas e imprevisibilidades nas narrativas analisadas. Tais elementos reforçam a compreensão do conhecimento científico como provisório e refutável (Costa; Valle, 2023) e oferecem oportunidades didáticas para questionar visões dogmáticas. Estratégias de mediação, como as pausas dialogadas propostas por Lovato e Sepel (2023), potencializam esse processo ao explorar tensões narrativas como gatilhos para argumentação e reflexão.

Quanto à Influência sociopolítica, os achados reiteram críticas à neutralidade da ciência (Praia; Gil-Pérez; Vilches, 2007). As produções analisadas evidenciam o atravessamento de interesses políticos e econômicos na pesquisa científica e tornam visíveis conflitos entre ciência, poder e sociedade, aspecto também destacado por Genc e Uçak (2025). Esses elementos ampliam as possibilidades de abordagem sociológica da NdC em sala de aula, conforme o modelo proposto por Justi e Erduran (2015), e favorecem a articulação entre conteúdos científicos e contextos sociais amplos (Santos; Uhmann, 2024).

No contexto latino-americano o uso crítico do cinema assume relevância adicional. Fernandes (2019) e Silva (2024) apontam que essas linguagens funcionam como ponte entre ciência e cultura, aproximando conteúdos científicos das experiências dos alunos. Os resultados do estudo indicam que produções amplamente consumidas mobilizam imagens de ciência que, quando problematizadas pedagogicamente, podem contribuir para processos de educação científica e formação cidadã. Em consonância com Praia, Gil-Pérez e Vilches (2007), essa abordagem privilegia a compreensão das relações entre ciência e sociedade como eixo para o desenvolvimento do pensamento crítico, alinhando-se às demandas contemporâneas da educação científica na América Latina (El-Hani; Mortimer; Pietrocola, 2020).

Dessa forma, os filmes devem ser compreendidos não apenas como recursos ilustrativos, mas como dispositivos pedagógicos para a problematização epistemológica da NdC, favorecendo a leitura crítica de discursos científicos midiáticos e a participação qualificada em debates sociocientíficos.

CONCLUSÃO

O amplo alcance de plataformas de streaming como a Netflix e a recorrente presença de temas científicos em filmes e séries de grande audiência indicam que essas produções exercem influência relevante na construção do imaginário social sobre a ciência. As obras analisadas evidenciam representações consistentes de aspectos da Natureza da Ciência (NdC), especialmente no que se refere à falibilidade do conhecimento, à não neutralidade e às influências sociopolíticas sobre a prática científica. Tais elementos, quando explorados pedagogicamente, revelam forte potencial para o Ensino de Ciências, pois permitem deslocar a visão da ciência como corpo de verdades prontas para compreendê-la como atividade humana, contextual/histórica e controversa. Nesse sentido, o uso de filmes em sala de aula mostra-se particularmente fecundo como recurso problematizador, capaz de mobilizar questionamentos, tensionar certezas e promover discussões conceituais e epistemológicas.

Como contribuição específica para a área, este estudo avança em relação à literatura anterior ao mapear sistematicamente as produções audiovisuais de temática científica com maior incidência no ranking brasileiro da Netflix, demonstrando como tais narrativas mobilizam representações centrais da NdC a partir de categorias analíticas da Sociologia da Ciência. Assim, os resultados obtidos têm o potencial de subsidiar a construção de propostas para um modelo de articulação didática que transforma filmes e séries de alto consumo cultural em dispositivos pedagógicos problematizadores.

Diferentemente de trabalhos que tratam o cinema apenas como recurso ilustrativo, a abordagem adotada demonstra, com base em Análise de Conteúdo, como o uso crítico e mediado dessas obras fortalece os discursos pedagógicos ao integrar cultura midiática, reflexão epistemológica e argumentação sociocientífica. No contexto latino-americano, a proposta amplia o repertório metodológico do Ensino de Ciências e oferece referenciais para práticas formativas comprometidas com o desenvolvimento do pensamento crítico e com uma compreensão contextualizada da ciência.

Uma vez que se trata de um tema amplo e passível de diferentes abordagens analíticas, não desejamos com este estudo encerrar a discussão, mas, sim, usá-la como ponto de partida para novas abordagens analíticas. Assim, enxergamos outros caminhos de investigação que podem ser traçados com o intuito de contribuir para pensar acionamentos da NdC em produtos audiovisuais com temática científica. O primeiro deles é a análise de outros títulos do catálogo da Netflix sob a perspectiva de investigação das representações de NdC, a fim de ampliar os estudos comparativos na área. Outro desdobramento possível seria a análise dos mesmos filmes a partir de outras vertentes da NdC, como a Filosofia e História da Ciência propostos pelos autores Justi e Erduran (2015).

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[1] Devido à linguagem cinematográfica e à presença de roteiro e diálogo como objeto de análise, os documentários foram desconsiderados na coleta dos dados sendo contabilizadas apenas as produções ficcionais.

[2] A partir de 2021 a Netflix disponibilizou um ranking semanal dos títulos mais assistidos através do site: https://www.netflix.com/tudum/top10/brazil/tv. Os resultados baseiam-se no quantitativo de exibições dos usuários para indicar a popularidade dos títulos da plataforma.