DOI: 10.36661/2595-4520.2026v9n1.14497

Recebido em: 03/07/2024

Aceito em: 28/04/2026

 

Caderno de Atividades de Educação Financeira no Ensino de Matemática para a EJA: Uma Análise Docente

Workbook on Financial Education in Mathematics Teaching for EJA:  A Teaching Analysis

Cuaderno de Actividades de Educación Financiera en la Enseñanza de Matemáticas para EJA: Un Análisis de la Enseñanza

 

Jonis Jecks Nervis (jonisjn@uenp.edu.br)

Universidade Estadual do Norte do Paraná, Campus Jacarezinho, Brasil

https://orcid.org/0000-0003-3651-2975

 

Daiany dos Reis Santana (daianyreis84@gmail.com)

Universidade Estadual do Norte do Paraná, Campus Jacarezinho, Brasil

https://orcid.org/0000-0002-4610-2921

 

George Francisco Santiago Martin (george@uenp.edu.br)

Universidade Estadual do Norte do Paraná, Campus Jacarezinho, Brasil

https://orcid.org/0000-0001-7906-4821

 

 

 

 

Resumo

Este estudo investiga a viabilidade de um Caderno de Atividades focado em Educação Financeira para turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). O objetivo é compreender como esse material pode apoiar o ensino e a aprendizagem, além de contribuir para a permanência escolar dos estudantes da EJA. A pesquisa busca responder como o ensino de Matemática, mediado pelo Caderno de Atividades, pode favorecer a permanência dos alunos. Sete docentes de Matemática da EJA responderam a um questionário via Google Forms, e as respostas foram categorizadas em: "Apoio ao ensino", "Apoio à aprendizagem", "Adaptado ao público da EJA" e "Material de auxílio para compreensão de questões do cotidiano". Os resultados indicam que o Caderno de Atividades é viável e relevante, orientando o trabalho docente e ajudando os educandos a relacionar o conteúdo com situações do cotidiano, promovendo uma aprendizagem significativa. O material pedagógico facilita a prática educativa e os motivam a permanecerem na escola, percebendo a utilidade prática dos conhecimentos adquiridos. As atividades propostas contextualizam a matemática com a prática cotidiana, melhorando o desempenho acadêmico e valorizando as vivências dos mesmos. Os resultados sugerem que outras áreas do conhecimento poderiam desenvolver materiais semelhantes para reduzir a evasão escolar.

Palavras-chave: EJA; Educação Matemática; Práticas Educativas.

 

Abstract

This study investigates the feasibility of a Workbook focused on Financial Education for Youth and Adult Education (EJA) classes. The objective is to understand how this material can support teaching and learning, as well as contribute to the retention of EJA students in school. The research seeks to answer how Mathematics teaching, mediated by the Workbook, can enhance the retention of students. Seven Mathematics teachers from EJA responded to a questionnaire via Google Forms, and the responses were categorized into: "Support for teaching," "Support for learning," "Adapted to the EJA audience," and "Auxiliary material for understanding everyday issues." The results indicate that the Workbook is feasible and relevant, guiding teaching practices and helping students relate content to everyday situations, promoting meaningful learning. The educational material facilitates teaching practices and motivates students to stay in school by showing the practical utility of the knowledge acquired. The proposed activities contextualize mathematics with everyday practice, improving academic performance and valuing students' experiences. The findings suggest that other knowledge areas could develop similar materials to reduce school dropout rates.

Keywords: EJA; Mathematical Education; Educational Practices.

 

Resumen

Este estudio investiga la viabilidad de un Cuaderno de Actividades centrado en la Educación Financiera para grupos de Educación de Jóvenes y Adultos (EJA). El objetivo es comprender cómo este material puede apoyar la enseñanza y el aprendizaje, además de contribuir a la permanencia escolar de los estudiantes de EJA. La investigación busca responder cómo la enseñanza de Matemáticas, mediada por el Cuaderno de Actividades, puede favorecer la permanencia de los estudiantes. Siete docentes de Matemáticas de EJA respondieron a un cuestionario a través de Google Forms, y las respuestas se categorizaron en: "Apoyo a la enseñanza", "Apoyo al aprendizaje", "Adaptado al público de EJA" y "Material auxiliar para comprender cuestiones cotidianas". Los resultados indican que el Cuaderno de Actividades es viable y relevante, orientando el trabajo docente y ayudando a los estudiantes a relacionar el contenido con situaciones cotidianas, promoviendo un aprendizaje significativo. El material educativo facilita la práctica educativa y motiva a los estudiantes a permanecer en la escuela, mostrando la utilidad práctica de los conocimientos adquiridos. Las actividades propuestas contextualizan las matemáticas con la práctica cotidiana, mejorando el rendimiento académico y valorando las experiencias de los estudiantes. Los hallazgos sugieren que otras áreas del conocimiento podrían desarrollar materiales similares para reducir la deserción escolar.

Palabras-clave: EJA; Educación Matemática; Prácticas Educativas.

INTRODUÇÃO

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) desempenha um papel crucial na democratização do acesso à educação e na promoção da igualdade social ao oferecer oportunidades de aprendizagem a pessoas que, por diferentes motivos, não concluíram sua formação na idade regular. No contexto da EJA, a abordagem pedagógica enfrenta desafios específicos, exigindo estratégias adaptadas que considerem as características e necessidades desse público diversificado.

Nesse cenário, o uso de materiais pedagógicos adequados torna-se essencial para potencializar o processo de ensino e aprendizagem na EJA. Este estudo tem como objetivo investigar a viabilidade do uso de um Caderno de Atividades focado em Educação Financeira como recurso didático para turmas da EJA, especificamente na disciplina de Matemática. A Educação Financeira, inserida no contexto da Matemática, apresenta-se como uma ferramenta relevante para capacitar os educandos a compreenderem e lidarem de forma crítica e autônoma com questões financeiras do seu cotidiano.

Assim, a questão norteadora desta pesquisa é: de que forma o processo de ensino de Matemática, mediado pelo Caderno de Atividades de Educação Financeira, Produto Educacional[1] desenvolvido a partir da Dissertação de Mestrado intitulada: “Análise da Evasão Escolar na EJA e uma Proposição ao Ensino de Matemática visando a Permanência dos Estudantes”, pode contribuir para a permanência dos estudantes na EJA? A resposta a essa questão não apenas visa avaliar a eficácia do material didático em si, mas também compreender como ele pode influenciar a motivação dos alunos para permanecerem na escola e engajarem-se em seu processo de aprendizagem.

Ao longo do texto da dissertação mencionada, foram apresentadas discussões a respeito das causas do abandono ou evasão escolar que levam à exclusão de jovens e adultos de seu processo de escolarização. Os problemas financeiros dos educandos e as práticas docentes descontextualizadas da realidade dos mesmos, estão entre as causas apontadas. Associado a tal constatação, esse material propõe práticas educativas que sejam capazes de integrar a realidade dos estudantes, as questões financeiras e as práticas educativas voltadas ao ensino da Matemática para a EJA (Santana, 2022).

Portanto, o material é destinado, especialmente, aos professores de Matemática, que atuam nos Anos Finais do Ensino Fundamental ou Ensino Médio, atendendo aos jovens e adultos, devendo servir como um instrumento de apoio pedagógico. Propõe ações educativas que articulam a Educação Matemática em uma perspectiva Etnomatemática, ao estudo de temas relacionados à Educação Financeira. Sugere atividades a serem desenvolvidas com jovens e adultos, como forma de valorizar seus saberes e suas realidades, ao mesmo tempo em que insere os conhecimentos escolares.

O grupo de professores que participou da análise do Caderno de Atividades foi selecionado de forma aleatória, garantindo que a única constante fosse a experiência prévia com a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Os resultados dessa ação, discutidos ao longo do texto, contribuem significativamente para reflexões sobre o uso desse recurso pedagógico.

Além disso, é importante ressaltar que a pesquisa envolvendo seres humanos foi conduzida em conformidade com os padrões éticos estabelecidos pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), como parte integrante de um projeto de investigação realizado na instituição, sob a orientação do professor responsável pela pesquisa.

Ao pensar na finalização do material produzido, julgou-se ser fundamental sua divulgação. Assim, foi disponibilizada uma cópia impressa para cada escola que oferta a EJA nos Anos Finais dos Ensino Fundamental e Ensino Médio do Núcleo Regional de Educação de Jacarezinho-Pr, para que conste na biblioteca do professor. Além disso, o instrumento elaborado também se faz disponível nos meios digitais, sendo disseminado através de endereços de e-mails e grupos de aplicativos de mensagens oficiais das escolas que atendem a EJA no referido Núcleo, além de constar na página do Programa de Mestrado PPEd/UENP.  

Com isso, espera-se que ao conduzir o processo de ensino, levando em consideração os conhecimentos trazidos pelos discentes, eles se sintam mais acolhidos em suas necessidades de aprendizagem e sejam provocados a permanecer e concluir seus estudos com êxito, minimizando, desta forma, os riscos de abandono ou evasão escolar.

ETNOMATEMÁTICA E EDUCAÇÃO FINANCEIRA

D’Ambrosio (1986) compreende que a ação que envolve ensinar Matemática deve considerar o contexto sociocultural do educando, de modo a levar em conta o ambiente que ele é parte, instrumentalizando-o a ser sujeito atuante, de modo que a experiência escolar o prepare para ser ativo, sendo capaz de analisar globalmente a realidade na qual está inserido.

Ao ter esse entendimento, apreende-se que os direcionamentos propostos pela Etnomatemática atendem aos encaminhamentos que se pretendem neste material, pois, conforme D’Ambrosio (2020) define, esta tendência é a Matemática que os diversos grupos culturais praticam, manifestando-se nos conhecimentos próprios que cada cultura utiliza em seu cotidiano. 

Knijnik (1997) argumenta que a perspectiva Etnomatemática considera a matemática como um artefato cultural, em que as práticas matemáticas dos grupos sociais são consideradas como ponto de partida, de modo que o grupo possa identificar os saberes que já possui e se apropriar dos conhecimentos que a matemática acadêmica oferece, sendo capaz de fazer comparações e analisar as relações de poder que envolvem a utilização desse conjunto de informações.

Um exemplo dessa perspectiva, é o trabalho apresentado por Costa, Vitorino e Rebouças (2026), que traz em sua pesquisa a Etnomatemática ligada ao ofício de azulejista, em que os autores justificam que a escolha do grupo sociocultural dos azulejistas se dá por demonstrarem conhecimentos matemáticos em sua prática que, nem sempre são adquiridos no meio escolar, no entanto, expressam saberes que se contextualizam aos conteúdos matemáticos curriculares. 

Referindo-se aos estudantes jovens e adultos, Fonseca (2012) elucida que, ao serem reconhecidos como grupo sociocultural, as práticas matemáticas que se produzem na EJA devem estabelecer conexão entre os saberes sistematizados com o mundo prático desses alunos. A mesma autora enfatiza que há a necessidade do trabalho educativo desenvolvido pelos educadores de jovens e adultos considerar a especificidade e a identidade cultural dos educandos.

Deste modo, ao refletir sobre as experiências que se produzem no cotidiano e que carregam conhecimentos que podem servir de enriquecimento ao ensino da Matemática, o desenvolvimento de atividades voltadas à Educação Financeira tende a ser grande aliado do processo educativo, visto que as situações relacionadas ao uso do dinheiro estão muito presentes no dia a dia do público da EJA.

Martins (2004) argumenta que a omissão da escola em não tratar de situações que se relacionam a conhecimentos financeiros, traz consequências que são sentidas na vida adulta, pois as pessoas acabam não desenvolvendo habilidades em lidar com o dinheiro, e isso se agrava quando se leva em conta que ninguém está livre de enfrentar problemas financeiros.

Por isso, Martins (2004, p. 91-95) apresenta o que chama de cinco regras de ouro que, segundo ele, podem conduzir ao sucesso nas questões financeiras, sendo elas: 1) Interessar-se pelo assunto “dinheiro”; 2) Estudar para expandir a sua inteligência financeira; 3) Organizar a sua vida financeira; 4) Planejar as suas metas financeiras; 5) Disciplinar-se para executar os seus planos com êxito.

Do mesmo modo, El Khatib (2010) entende que a Educação Financeira é fundamental na vida das pessoas, desde às crianças aos adultos, pois é capaz de desenvolver capacidades de gerir, poupar, viver de forma independente ou realizar planejamentos para alcançar conquistas. Além disso, pode auxiliar indivíduos e famílias a tomarem decisões de investimentos e consumo, adequando necessidades e expectativas, sendo conscientes dos riscos financeiros. “A carência de Educação Financeira expõe os agentes a riscos, o que acarreta danos não apenas às suas vidas, mas também à sociedade como um todo” (El Khatib, 2010, p. 35).

  Neste sentido, Leite e De Paula (2025) elucidam que a Educação Financeira passou a ter um espaço maior de discussão, tanto nas ações do governo quanto nos meios de comunicação. Para esses autores, a publicação, no ano de 2010, da Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF) e a publicação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em 2018, respaldaram a disseminação do tema na Educação Básica, que também acontece por meio de iniciativas empresariais e de plataformas e influenciadores digitais, que propagam conteúdo desta natureza.

Expressando a necessidade de abordar a Educação Financeira na Educação Básica, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trata do assunto, propondo que no Ensino Fundamental Anos Finais, sejam desenvolvidos conceitos básicos ligados à Educação Financeira, inclusive considerando uma abordagem interdisciplinar e questões como economia, consumo, trabalho, dinheiro entre outros. Quanto ao Ensino Médio, a Base instrui que na área de Matemática e suas Tecnologias, os educandos ampliem os conhecimentos que desenvolveram na etapa anterior e agreguem novos saberes, aliando diversos contextos e favorecendo que aconteça uma formação geral (Brasil, 2018).

As ações que são propostas no Caderno de Atividades aqui abordado consideram as particularidades desta modalidade de ensino, trazendo sugestões que tem o interesse de favorecer a prática docente e o engajamento dos educandos pela Matemática e pelas questões financeiras da realidade que vivenciam, relacionando teoria e prática.

CADERNO DE ATIVIDADES COMO PRODUTO EDUCACIONAL

A partir da compreensão das causas relacionadas ao abandono e à evasão na Educação de Jovens e Adultos levantadas no trabalho de pesquisa realizado na elaboração da dissertação de mestrado citada anteriormente, evidenciou-se que são vários os fatores que podem colaborar para que os educandos não consigam dar continuidade à sua vida escolar.

Dentre as causas de evasão na EJA externas à escola, a pesquisa apontou que os problemas financeiros estão entre os principais motivos de evasão escolar (Santana, 2022). Esse dado se correlaciona com as características dos sujeitos atendidos pela EJA: jovens a partir de quinze anos de idade, sendo muitos trabalhadores, pais e mães de família que, geralmente, possuem responsabilidade de sustento pessoal ou familiar. Assim, as questões financeiras podem ser determinantes para que o educando consiga ou não permanecer em seu processo de escolarização. 

Também ficou claro que entre as causas de evasão na EJA internas à escola, as práticas pedagógicas que não consideram a realidade e os saberes dos educandos da EJA podem servir de desmotivação à sua permanência (Santana, 2022). Sendo, portanto, necessário que as experiências escolares sejam ressignificadas, valorizando os saberes prévios dos estudantes e aliando-os aos conhecimentos teóricos, favorecendo, assim, o processo de ensino e de aprendizagem.

Neste sentido, no que se refere ao processo de ensino da Matemática, compreende-se ser possível que tanto as práticas pedagógicas contextualizadas à realidade do aluno quanto o estudo da Educação Financeira podem estabelecer uma ligação, de forma que produza oportunidades educativas que favoreçam a permanência escolar. Deduz-se que, ao perceber que os conhecimentos produzidos durante as aulas de Matemática podem auxiliar a refletir e solucionar situações financeiras do cotidiano, os educandos possam se sentir mais envolvidos com a aprendizagem e motivados pela continuidade dos estudos.

Desta maneira, o produto educacional que se apresenta é um Caderno de Atividades de Educação Financeira, levando em conta as práticas educativas de Matemática, como forma de oferecer uma estratégia visando instigar à permanência dos discentes na EJA. Assim, este material é destinado a servir de apoio didático aos professores de Matemática dessa modalidade de ensino, nos Anos Finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio.

O recurso pedagógico propõe situações-problema, sugestões de atividades, questões para reflexões, endereços eletrônicos de vídeos e páginas para se aprofundar nos temas, assim como encaminhamentos metodológicos que podem ser adotados visando desenvolver os assuntos relacionados à Educação Financeira, em uma perspectiva que contempla os conhecimentos teóricos e a realidade sociocultural dos estudantes da EJA.

Ao considerar os saberes socioculturais do público da EJA, o material adota a tendência Etnomatemática, compreendida por D’Ambrosio (2020) como sendo a Matemática praticada por diferentes grupos culturais, identificando-se como fazer matemático que contextualiza situações-problema as quais se manifestam no cotidiano das pessoas.

O Caderno de Atividades traz esclarecimentos a respeito da Educação Financeira, considerando a perspectiva interdisciplinar do tema, proposta na BNCC, e os conhecimentos matemáticos envolvidos sendo abordados de maneira didática, visando favorecer o ensino e a aprendizagem da Matemática. As propostas das atividades intencionam fornecer aos professores orientações que promovam a educação matemática na EJA, ao mesmo tempo em que apoia a permanência escolar, com práticas educativas contextualizadas que possibilitem minimizar as dificuldades que cercam o ensino de Matemática, utilizando propostas de aulas mais dinâmicas e instrumentos avaliativos diversificados.

UMA ANÁLISE DOCENTE DO CADERNO DE ATIVIDADES

O grupo de participantes foi selecionado de forma randomizada e avaliado com base em critérios específicos, incluindo a experiência anterior ou atual no ensino da EJA em escolas públicas estaduais do Paraná, bem como sua formação e competências relacionadas à disciplina de Matemática. Cada participante foi escolhido aleatoriamente para garantir uma representação diversificada e abrangente do corpo docente que atua nessa modalidade de ensino. Além disso, a análise dos currículos dos professores participantes foi realizada para verificar sua adequação ao contexto da pesquisa. Apenas sete (7) candidatos foram considerados aptos para a pesquisa.

Os participantes selecionados receberam individualmente o link para acessar o material pedagógico e o formulário de avaliação, os quais foram disponibilizados por meio do aplicativo Google Forms. Cada participante teve um período de dez (10) dias para examinar o Caderno de Atividades e responder ao questionário. Além disso, foi realizada uma análise dos currículos dos respondentes, para avaliar sua experiência e formação relacionadas ao contexto da EJA e da disciplina de Matemática.

Os docentes responderam o instrumento de pesquisa de forma anônima, de modo a valorizar a independência para expressar livremente suas opiniões sobre o material. As respostas foram identificadas na ordem em que aparecem armazenadas no drive, sendo aqui nomeadas como Professor (a) 1, Professor (a) 2, ... Professor (a) 7, adotando os códigos de identificação como P1, P2, P3, P4, P5, P6 e P7.

Para averiguar os dados obtidos pela análise intersubjetiva realizada pelos professores, apoiou-se nos pressupostos da Análise de Conteúdo de Bardin (2016), recorrendo-se as categorias emergentes. Desta forma, a partir das reflexões dos docentes aos questionamentos propostos, vieram à tona um sistema contendo seis categorias, referindo-se às percepções sobre o material disponibilizado.

A questão 1 tratou de conhecer a formação acadêmica dos participantes, perguntando: “Qual é a sua formação acadêmica? ”.  O Quadro 1 traz as respostas dadas pelos sete docentes. Na primeira coluna consta o código do (a) professor (a) e na segunda coluna suas respectivas respostas. Ao verificar o quadro, observa-se que os sete docentes possuem mais de uma graduação, sendo pelo menos uma das formações voltada à Matemática. Em nenhuma das respostas se vê algum dos professores citarem formação acadêmica específica para atuar na EJA.

Quadro 1 – Formação acadêmica dos docentes

Docente

Respostas

P1

Física/Matemática.

P2

Ciências Biológicas com habilitações em Matemática e Biologia e Especialização em Educação Matemática e Educação Ambiental. Pedagogia com Especialização em Psicopedagogia e Educação Especial.

P3

Ciências Físicas e Biológicas com habilitação em Matemática, Biologia e Física.

P4

Administração e Matemática.

P5

Ciências: Habilitação em matemática - Pós-graduação em Educação matemática; Pedagogia – Pós-graduação em psicopedagogia.

P6

Licenciatura em Matemática e Pedagogia. Especialização em Psicopedagogia, Educação Especial, Neuroaprendizagem e Instrumentalização para o Ensino de Matemática.

P7

Ciências com Habilitação em Matemática e pós-graduação em Educação Matemática.

Fonte: Elaborado pelos autores.

No questionamento 2, foi perguntado sobre a atuação do docente na EJA: “Você já lecionou ou está atuando na EJA? Há quanto tempo?

O Quadro 2 registra as respostas que foram dadas por cada um, sendo que na primeira coluna consta o código do (a) professor (a) e na segunda suas respostas sobre o tempo de atuação na EJA, revelando que todos os participantes possuem experiência na referida modalidade de ensino, variando entre dois e quinze anos de prática docente.

Quadro 2 – Atuação dos docentes na EJA

Docente

Respostas

P1

Sim. Há aproximadamente 10 anos.

P2

Sim. 5 anos.

P3

Sim. Estou atuando na EJA por aproximadamente 10 anos.

P4

Sim. Atuo na EJA há dois anos.

P5

Sim. Aproximadamente 15 anos.

P6

Sim, já lecionei por 3 anos na EJA e isso já faz quase 10 anos.

P7

Já lecionei por aproximadamente 9 anos.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Em relação aos professores já terem trabalhado com o tema Educação Financeira, foi perguntado: “Você já trabalhou com o tema Educação Financeira em turmas de EJA ou mesmo no ensino regular? Se sim, comente como foi essa experiência”.

Um dos docentes (P3) afirmou não ter trabalhado o tema por não constar no Plano de Trabalho Docente. Nas demais respostas, os professores esclarecem que já trabalharam Educação Financeira em sala de aula, sendo que dois deles desenvolveram o assunto somente no ensino regular (P4 e P6) e os outros quatro relatam terem tido a oportunidade de abordar o conteúdo em turmas da EJA, propiciando relacionar os conteúdos teóricos com os conhecimentos do cotidiano, conforme pode ser visto nos excertos:

Sim, já trabalhei em turmas da EJA com alguns conteúdos relacionados à Educação financeira: Atividades com juros simples em relação à compra de aparelhos domésticos e orçamento familiar foram os assuntos que mais se destacaram. Em relação à compra de aparelhos domésticos, por possuírem longos prazos a serem pagos, as pessoas sentem-se atraídas pelo valor da parcela, mas esquecem de calcular qual será o valor final do produto, e com essa atividade desenvolvida, foi possível mostrar aos educandos a quantidade de juros que se paga às financiadoras e o quanto é importante pouparmos para comprar o produto à vista. A atividade sobre orçamento familiar ajudou muito aos educandos da EJA a se planejarem financeiramente. Fizemos também algumas planilhas simples com os principais gastos da casa e dessa forma puderam perceber com precisão o que seria possível comprar a mais para o próximo mês ou o que seria possível economizar para não cair em empréstimos ou mesmo poupar em algumas situações de alguns educandos (P1).

Sim. Muito positiva porque podemos perceber nos educandos principalmente da EJA a importância das finanças de suas famílias (P2).

Sim. Tenho turmas de Educação Financeira no Ensino Médio. E sempre trabalho com o tema nas turmas de EJA e no fundamental I, relacionando os temas estudados com a matemática do cotidiano: juros, porcentagem, função, etc (P5).

Sim. Na época utilizamos a pergunta de um educando sobre a compra de uma moto. A partir dessa problemática, desenvolvemos vários conteúdos de forma contextualizada. Percebi que os educandos da EJA em sua maioria, tinham interesse pela Matemática Financeira pois vários encontravam dificuldades em lidar com a própria finança (P7).

Partindo das indicações que os comentários trazem, entende-se que desenvolver atividades de Educação Financeira na EJA pode gerar experiências positivas de ensino e de aprendizagem, já que tanto professores quanto alunos são instigados a desenvolver a teoria e relacioná-la com a prática, utilizando as vivências financeiras dos educandos para guiar a problemática da aula. Ou seja, são práticas educativas que valorizam o contexto dos estudantes ao mesmo tempo em que promovem o conhecimento sistematizado.

A começar da questão 4, as perguntas tratam especificamente do produto educacional que foi elaborado e enviado para que os educadores pudessem registrar suas opiniões. Pelas interpretações das respostas, emergiram seis categorias de análise. No Quadro 3, na primeira coluna constam os questionamentos feitos aos professores, e na segunda coluna são apresentadas as categorias que emergiram com base nas respostas dadas sobre o material.

Quadro 3 – Categorias levantadas na análise docente do Produto Educacional

Questões

Categorias identificadas para a validação do material

Questão 4:

A partir da leitura e de sua compreensão sobre o Caderno de Atividades disponibilizado no arquivo, você acha viável o uso deste material em turmas de EJA? Justifique.

Apoio ao ensino

Apoio à aprendizagem

Questão 5:

Você considera que este material poderia servir de apoio ao ensino de Matemática na EJA? Por quê?

Material adaptado ao público da EJA

Auxílio para compreensão de questões do cotidiano

Questão 6:

Atividades como estas que são apresentadas no material pedagógico disponibilizado podem incentivar a permanência e o êxito escolar dos educandos da EJA? Comente.

 

Facilitador da prática educativa

Questão 7:

Com base em suas análises a partir da leitura do Caderno de Atividades, registre aqui sua opinião sobre esse material, bem como sua possível utilidade ou não nas aulas da EJA.

 

Recurso que contextualiza teoria e prática

Fonte: Elaborado pelos autores

Ao considerar a questão 4, “A partir da leitura e de sua compreensão sobre o Caderno de Atividades disponibilizado no arquivo, você acha viável o uso deste material em turmas de EJA? Justifique”, conforme mostra o Quadro 3, foram identificadas duas categorias de análise, justificando a viabilidade da utilização do material pedagógico em turmas da EJA: Apoio ao ensino e Apoio à aprendizagem.

A categoria Apoio ao ensino diz respeito às justificativas que manifestaram que o material pedagógico pode orientar o trabalho docente, de modo a representar um recurso de auxílio para que se considere a realidade do educando no desenvolvimento das aulas e na disseminação do conhecimento. Pode-se produzir tais compreensões pelas seguintes contribuições[2]:

Com certeza esse material será de grande ajuda para o ensino de Educação Financeira na EJA, visto que o mesmo fará com que o educando possa construir um saber matemático baseado na sua própria realidade (P1).

Com certeza esse material é viável nas turmas de EJA, porque está relacionado a questões do dia a dia de todos nós (P5).

O material é muito viável e de suma importância para o ensino na EJA. Essa modalidade de ensino necessita de materiais que complementem o ensino de forma prática e real para os educandos. O Caderno de atividades traz exemplos práticos que nos fazem repensar nas possibilidades para introduzir um conteúdo. A modalidade da EJA merece uma atenção e valorização dentro da Educação. Os educandos da EJA trazem muito mais que histórias e renúncias ou sonhos que foram estacionados em prol de necessidades mais imediatas, eles buscam superação, conhecimento e sobretudo reconhecimento em seus estudos para vida, seja para elevação de nível profissional, seja para conquista pessoal. E de todas as formas, quando se parte da realidade dos educandos e se consegue apresentar uma matemática contextualizada e ligada diretamente às suas vidas, esses educandos conseguem compreender melhor o conteúdo proposto e se sentem instigados aos estudos (P6).

Com certeza. Os educandos da EJA necessitam de um olhar diferenciado, uma metodologia que permita a eles a possibilidade de uma aprendizagem significativa. Esse caderno de atividades proporciona ao educando um aprendizado além do currículo formal. Um aprendizado significativo e capaz de oferecer aos discentes um melhor desempenho na vida social (P7).

Já a categoria Apoio à aprendizagem se refere às manifestações dos professores que demonstram em suas respostas que a apropriação do conhecimento dos educandos pode acontecer de maneira mais relevante, considerando situações que expressam vivências de seu cotidiano. Os fragmentos abaixo apresentados comprovam tais considerações:

Sim. Porque possibilita aos educandos uma melhor compreensão de como controlar seus gastos e assim ter uma finança equilibrada em suas casas (P2).

Sim. O Material Pedagógico elaborado pela professora é excelente, com atividades que envolvem temas do cotidiano dos educandos, facilitando muito a compreensão na resolução das mesmas e na construção do conhecimento do educando (P3).

Sim, porque os educandos dessa modalidade de ensino têm essa carência, devido a já estarem no mercado de trabalho (P4).

Referindo-se à Questão 5: “Você considera que este material poderia servir de apoio ao ensino de Matemática na EJA? Por quê?”, as respostas que foram dadas levaram a duas categorias de análise, sendo elas: Adaptado do público da EJA e Material de auxílio para compreensão de questões do cotidiano.

Quando se analisa como Material adaptado ao público da EJA, as descrições dos professores esclarecem que o recurso produzido se adequa a linguagem exigida para desenvolver um trabalho na EJA que esteja comprometido em considerar as especificidades que o público dessa modalidade carrega. Assim, nos seguintes extratos podemos comprovar isso:

Sim. Pois trata-se de um material organizado de forma sintetizada e linguagem adequada ao público da EJA (P1).

Sim. Em minhas aulas de matemática da EJA utilizarei algumas para explorar o material (P4).

Sim, este material será um apoio imenso ao professor da EJA, pois o caderno reúne exemplificações pertinentes, com sugestões de atividades que partem da prática e realidade dos educandos, possibilitando relacionar o cotidiano dos educandos com o conteúdo curricular (P6).

Sim. Como já disse anteriormente, esse material vem de encontro com a necessidade de uma metodologia diferenciada para os educandos da EJA, proporcionando um ensino de Matemática significativo (P7).

Como material de Auxílio para compreensão de questões do cotidiano, pelos trechos abaixo citados vê-se que o Caderno de Atividades foi considerado pelos docentes um instrumento que servirá para ajudar os estudantes a entenderem que os conhecimentos matemáticos estão presentes em seu cotidiano, neste caso, sendo tratado nas questões financeiras. Assim, apresentam-se as respostas:

Sim. Porque demonstra de maneira clara e objetiva como fazer e ter situação financeira equilibrada em suas vidas e com isso não contrair dívidas desnecessárias (P2).

Sim. O material é de alta qualidade, com atividades que irão permitir aos educandos uma melhor compreensão de como se organizar financeiramente, através de atividades propostas que os ajudarão a entender de como se calcular um orçamento na renda familiar (P3).

Sim. Porque faz uma excelente interação entre a matemática, contextualizando-a com a matemática do dia a dia (P5).

Sobre a Questão 6, assim se coloca: “Atividades como estas que são apresentadas no material pedagógico disponibilizado, podem incentivar a permanência e o êxito escolar dos educandos da EJA? Comente”. As respostas a esse questionamento resultaram em uma categoria de análise que leva a pensar o material como Facilitador da prática educativa, uma vez que são percebidos nos relatos dos educadores apontamentos que direcionam ao papel de despertar o interesse, de utilizar os conhecimentos para melhorar a atuação na vida prática, da linguagem adotada que facilita a aprendizagem da Matemática e do instrumento de incentivo à permanência escolar.

Intenciona-se que os pontos positivos indicados sejam capazes de serem alcançados pelo uso do material aqui mencionado e por tantos outros materiais pedagógicos que se propõem a contextualizar os conhecimentos sistematizados com a realidade dos estudantes da EJA, demonstrando aos mesmos as dimensões que o processo educativo pode alcançar em sua prática social. Deste modo, seguem as afirmações dos participantes:

Sim, pois a linguagem sendo mais acessível, o educando sente-se mais motivado a estudar. Com esse material pedagógico, proporcionando maior desenvoltura do educando, com certeza ele irá se sentir mais valorizado e motivado a permanecer na escola (P1).

Com certeza, pois as atividades poderão ajudar muitos educandos na prática através dos exercícios, de observar como é possível com suas rendas familiares ter uma situação financeira sem dívidas e ainda como poupar para a realização de alguns sonhos (P2).

Lógico que sim. Os educandos da EJA necessitam de atividades como as que estão no material pedagógico; elas despertam o interesse deles na realização, pois envolvem temas que estão relacionados com o seu dia a dia e irão aprender a realizar cálculos que antes eles não teriam nem noção de como resolver (P3).

Com certeza será uma das formas de motivá-los a permanecer (P4).

Sim, porque os educandos vão aprender a utilizar a matemática para desenvolver as atividades financeiras que estão presentes no nosso cotidiano, incentivando-os a estarem sempre presentes na sala de aula (P5).

As atividades apresentadas no Caderno podem auxiliar na permanência escolar dos educandos na EJA, uma vez que esta fase de ensino conta com educandos que estão retornando aos estudos, que estiveram "fora" da escola por algum motivo, e seu retorno enfrenta vários obstáculos e sua permanência vai depender de diversos fatores. Um desses fatores certamente é a motivação e possibilidade de inserção de sua realidade e melhoria de vida. O educando precisa ver utilidade e aplicabilidade naquilo que estuda e as atividades propostas partem do cotidiano deles, sendo um ponto importante que pode auxiliar na permanência escolar. A Educação Financeira é algo que desperta o interesse nos educandos e da forma que foi abordada, intensifica a curiosidade e interesse dos educandos (P6).

A última pergunta do questionário, Questão 7, assim indaga: “Com base em suas análises a partir da leitura do Caderno de Atividades, registre aqui sua opinião sobre esse material, bem como sua possível utilidade ou não nas aulas da EJA”. Nesta contestação, a partir dos comentários, foi identificado a categoria Recurso que contextualiza teoria e prática. Os excertos esclarecem que as propostas de atividades abordadas no material pedagógico viabilizam aliar teoria e prática, de modo que os conhecimentos matemáticos vistos na escola possam ser referência para que se busque solucionar situações-problema do cotidiano.

O material aqui apresentado é de grande qualidade, está muito bem organizado de forma clara e objetiva e diferencia-se por possuir uma linguagem mais simples direcionada especialmente aos educandos da EJA. Com certeza eu utilizaria em minhas aulas de Educação Financeira, pois esse material será de grande ajuda para enobrecer o trabalho do professor, especialmente junto ao público da EJA (P1).

O Caderno de Atividades desenvolvido é excelente, pois as atividades planejadas estimulam principalmente nos educandos da EJA através de maneiras práticas e concretas, ou seja, com situações problemas de seu dia a dia como sua renda familiar planejar com cálculos simples, tendo equilíbrio da situação financeira de suas famílias e ajudando a evitar o endividamento de suas famílias com gastos muitas vezes desnecessários (P2).

O material é excelente e de alta qualidade, proporcionando aos educandos uma melhor compreensão sobre o tema Educação Financeira. As atividades são de fácil entendimento para eles, contribuindo assim para que ocorra uma aprendizagem muito mais significativa da relação da matemática com temas do cotidiano. O material deverá ser utilizado na EJA com o objetivo de contribuir no processo de ensino e aprendizagem dos educandos em relação ao tema (P3).

Excelente o conteúdo para trabalhar com o dia a dia dos educandos[...](P4).

São temas atuais do nosso cotidiano, que trazem importantes reflexões de consumo, empréstimos, investimentos, planejamento financeiro etc. Como professora que já vivenciou diversas formas de estudos e já tive contato com vários materiais, acredito que este caderno será muito útil para o ensino na EJA (P5).

Quando atuei na EJA gostaria muito que tivessem disponibilizado um material desse porte, que fundamenta os conteúdos por meio da experiência e exemplos práticos, disponibilizando ideias e possibilidades de trabalho reais ao professor. A leitura do Caderno flui de maneira satisfatória e enriquece o professor, contribuindo com o processo dinâmico da educação. E para o ensino matemático o processo de aprendizagem deve instigar os educandos em um movimento constante e instigante na busca das soluções das situações-problemas, por meio de aplicações reais e nos diferentes contextos. O Caderno de Atividades é um ótimo material de auxílio aos docentes, que terão mais segurança para planejar suas aulas, uma vez que contextualiza a prática social dos educandos com os conceitos matemáticos. Gostaria de agradecer a oportunidade de ler este caderno, e aproveito para parabenizar a autora e orientador pela pesquisa, que tende a contribuir com o ensino e aprendizagem na EJA, melhorando a qualidade da educação (P6).

Eu com certeza utilizaria esse material, afinal o professor da EJA deve ter uma metodologia diferenciada visando não só o aprendizado matemático, mas também como esse aprendizado pode contribuir para as situações vividas no dia a dia, preparando assim o indivíduo para viver em sociedade de forma participativa e consciente (P7).

As respostas e argumentações esclarecem que o Caderno de Atividades atendeu as expectativas, a partir do olhar dos professores de Matemática que possuem experiência na EJA. Seu uso como um possível recurso pedagógico nas aulas ministradas nessa modalidade visa trabalhar com situações de Educação Financeira, ao mesmo tempo em que pretende contribuir para o processo de ensinar Matemática, mostrando que as práticas de educação matemática aliam o conhecimento teórico aos saberes produzidos em outros contextos. Reforça-se que é possível transformar informações em dados que sejam capazes de despertar nas pessoas o pensamento crítico sobre suas realidades e as possibilidades de traçar percursos que lutam por mudanças e levam à superação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por ter-se a convicção de que não é possível realizar tudo, mas é concebível, após compreender as situações que estão relacionadas à ocorrência da evasão escolar na EJA, deixar registrado encaminhamentos que possam cooperar com as práticas educativas direcionadas a essa modalidade, especialmente referindo-se à área de Matemática, a qual é alvo de dificuldade de muitos alunos, este estudo traz um produto educacional sobre Educação Financeira. Os problemas financeiros podem colaborar com a saída do educando da escola. Deste modo, o que se sugere aqui é uma proposta de atividades que podem ser desenvolvidas com os estudantes da EJA, pretendendo favorecer sua permanência na escola.

A análise docente dessa proposta foi realizada com sete professores que têm formação em Matemática e que possuem experiência na EJA, através da análise que os mesmos fizeram do material pedagógico produzido. As contribuições realizadas pelos professores sobre o recurso disponibilizado foram registradas por meio de um questionário por eles respondido, utilizando a ferramenta Google Forms, o qual colaborou para dar resposta à parte da problemática que envolveu o exercício de investigação descrita na dissertação de mestrado “Análise da Evasão Escolar na EJA e uma Proposição ao Ensino de Matemática visando a Permanência dos Estudantes”, em que também se interroga: de que forma o processo de ensino de Matemática pode favorecer a permanência dos educandos da EJA?

Ao se considerar que as práticas educativas da EJA precisam dispor de metodologias capazes de auxiliar os estudantes a superar as dificuldades, levando em conta os saberes que trazem consigo e as vivências de sua realidade, entende-se ser preciso agir no sentido de ressignificar as experiências escolares. Depreende-se que o processo de ensino deve olhar com atenção as especificidades que são marcas deste público, compreendendo que os conhecimentos sistematizados devem ser levados a interagir com suas realidades.

A contextualização leva a apropriação de saberes, capazes de desenvolver senso crítico sobre a sua realidade, ampliando a capacidade de análise em relação ao mundo e ao seu papel frente às transformações necessárias para a conquista de uma vida mais justa. É nesta direção que Freire (2011) defende que a educação, numa perspectiva popular, deve se basear em uma prática educativa que se interessa em promover o ensino dos conteúdos e a conscientização das pessoas, permitindo-lhes uma leitura crítica do mundo e uma análise da realidade concreta.

Sendo assim, o Caderno de Atividades que se elaborou como produto educacional que compõe a dissertação, se pauta na perspectiva Etnomatemática, que de acordo com D’Ambrósio (2020) é a matemática que se executa em diferentes grupos culturais. O material sugere aos professores atividades de matemática que visam explorar o tema Educação Financeira, valorizando as informações que os educandos trazem para dentro da sala de aula, como forma de enriquecer a prática educativa na EJA. Reforça-se a ideia da necessária contextualização da matemática para todos, defendida pelo autor que também enfatiza que “não se pode definir critérios de superioridade entre manifestações culturais. Devidamente contextualizada, nenhuma forma cultural pode-se dizer superior a outra” (D’Ambrósio, 2020, p. 81).

Com vista a incentivar ações que visam favorecer a permanência, percebe-se que esse estudo traz uma pequena possibilidade entre tantas práticas educativas que podem ser pensadas e realizadas no âmbito da EJA, de modo que os estudantes se sintam mais acolhidos em suas especificidades e não percebam na evasão escolar a solução para as dificuldades que encontram no contexto da escola. Assim, entende-se que os assuntos que foram discutidos neste estudo não estão esgotados, pois o conhecimento científico sempre dá possibilidades de novos aprofundamentos.

Desta maneira, destaca-se como questões a serem refletidas e que poderiam servir de base para trabalhos futuros: Que outras propostas são possíveis de serem desenvolvidas nas demais áreas de conhecimento para colaborar com a redução dos índices evasão escolar? Como ressignificar as experiências do público da EJA, de modo a reconhecerem na educação um mecanismo de transformação de sua realidade? Quais outras ações no processo de ensino e de aprendizagem da Matemática precisam ser consideradas para que o aluno da EJA relacione a teoria ao contexto de sua realidade? Que mudanças são necessárias nos currículos que orientam a EJA para que as experiências escolares dos educandos desta modalidade se efetivem em transformação social? Que características precisam ter as políticas públicas pensadas para superar o problema da evasão escolar na EJA?

Essas e tantas outras questões que ainda podem ser refletidas são desafios que se colocam para futuras investigações, pois a educação é um campo vasto de pesquisa e, especificamente a EJA carece de grande atenção para que muitas dificuldades que ainda cercam esta modalidade tornem-se conhecidas, sejam investigadas e encaminhem-se para serem superadas.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Educação é a Base. Brasília, MEC, CONSED, UNDIME, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/
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. Acesso em: 20 dez. 2020.

BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Tradução de Luís Antero Reto, Augusto Pinheiro. São Paulo: Edições 70, 2016.

COSTA, Quezia Regina de Carvalho; VITORINO, Fabricio de Sousa; REBOUÇAS, Ana Priscila Sampaio. Etnomatemática como prática pedagógica para ensinar e aprender conceitos matemáticos a partir do ofício do azulejista. Revista Insignare Scientia - RIS, Brasil, v. 9, n. 1, p. e14771, 2026. DOI: 10.36661/2595-4520.2026v9n1.14771. Disponível em: https://periodicos.uffs.edu.br/index.php/RIS/article/view/14771. Acesso em: 20 abr. 2026.

D’AMBROSIO, Ubiratan. Da Realidade à Ação: reflexões sobre educação e matemática. 2.ed. São Paulo: Summus, 1986.

D’AMBROSIO, Ubiratan. Etnomatemática – elo entre as tradições e a modernidade. 6. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.

EL KHATIB, Ahmed Sameer. Educação Financeira: aprenda a cuidar melhor do seu dinheiro. São Paulo: All Print, 2010.

FONSECA, Maria da Conceição Ferreira Reis. Educação matemática de jovens e adultos: especificidades, desafios e contribuições. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

FREIRE, Paulo. Educação de adultos: algumas reflexões. In: GADOTTI, M; ROMÃO, J. E. (Orgs). Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta. 12.ed. São Paulo: Cortez, 2011, p. 21-24.

KNIJNIK, Gelsa. As novas modalidades de exclusão social: trabalho, conhecimento e educação. Revista Brasileira de Educação, v. 4, p. 35-42, jan./abr. 1997. Disponível em: http://anped.tempsite.ws/novo_portal/rbe/rbedigital/RBDE04/RBDE04_05_GELSA_KNIJNIK.pdf. Acesso em: 23 set. 2021.

LEITE, Joilson Mélo; DE PAULA, Enio Freire. Uma proposta didática para discutir a Educação Financeira: caminhos trilhados na construção de um Produto Educacional: path takens in a Educational Product construction. Revista Insignare Scientia - RIS, Brasil, v. 8, n. 1, p. e14480, 2025. DOI: 10.36661/2595-4520.2025v8n1.14480. Disponível em: https://periodicos.uffs.edu.br/index.php/RIS/article/view/14480. Acesso em: 20 abr. 2026.

MARTINS, José Pio. Educação Financeira ao alcance de todos. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004.

SANTANA, Daiany dos Reis. Análise da Evasão Escolar na EJA e uma Proposição ao Ensino de Matemática visando a Permanência dos Estudantes. 2022. 186f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Estadual do Norte do Paraná, Jacarezinho, 2022. Disponível em: https://uenp.edu.br/mestrado-educacao-documentos/pped-trabalhos-conclusao/trabalhos-de-conclusao-2022-2/21126-daiany-dos-reis-santana/file.html. Acesso em: 29 abr. 2026.

 

 

 

 

 



[1] O termo "produto educacional" é a designação atribuída ao artefato cultural desenvolvido no âmbito do mestrado profissional na instituição onde a pesquisa foi conduzida e elaborada. Assim, optamos por utilizar essa terminologia, reconhecendo que, embora possa haver contestações na literatura quanto à sua adequação, ele reflete a concepção adotada neste contexto específico.

[2] Na categoria mencionada e nas subsequentes, todos os professores compartilharam uma perspectiva unânime. Portanto, para ilustrar, foram selecionados apenas alguns excertos representativos.