DOI: 10.36661/2595-4520.2026v9n1.14311
Recebido em: 22/03/2024
Aceito em: 10/03/2026
Explorando a Sexualidade: Diálogos Estudantis na Sequência de Ensino Investigativa
Exploring Sexuality: Student Dialogues in the Investigative Teaching Sequence
Explorando la sexualidad: diálogos estudiantiles en la secuencia de enseñanza investigativa
Isamara Oliveira Lima (isamarabiologia@hotmail.com)
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Campus São Mateus, Brasil
https://orcid.org/0009-0004-9989-7889
Karina Carvalho Mancini (mancinikazinha@gmail.com)
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Campus São Mateus, Brasil
https://orcid.org/0000-0003-3275-0693
Resumo
Trabalhar nas escolas a temática Educação Sexual é desafiador e envolve diversos aspectos sociopsicológicos, nesse contexto, foi realizada uma Sequência de Ensino Investigativa em uma escola pública estadual, com uma turma do 8° ano do Ensino Fundamental, com o objetivo de abordar a temática da sexualidade sob a perspectiva biológica, social, política e ética, proporcionando aos estudantes uma perspectiva de vida saudável e segura, estimulando a se tornarem agentes de mudança na escola e na sociedade. Durante a execução da Sequência de Ensino por Investigação, os estudantes foram conduzidos a procedimentos científicos, para investigar as próprias hipóteses e validá-las. Os procedimentos de coleta de dados envolveram as observações em sala de aula, debate, diários de campo, gravações de áudio e entrevistas. Os resultados dos debates e roda de conversa indicaram que a sequência investigativa proporcionou aos estudantes relacionamentos saudáveis, inclusão, análise crítica social e uma compreensão mais ampla da sexualidade. Os estudantes reconheceram que discutir abertamente a sexualidade não os influencia negativamente, pelo contrário, os capacita para uma vida adulta segura e responsável, sendo essencial para reduzir riscos, tabus e discriminações associadas à sexualidade.
Palavras-chave: Educação Sexual; adolescência; Sequência de Ensino por Investigação.
Abstract
Working on the topic of Sexual Education in schools is challenging and involves several socio-psychological aspects. In this context, an Investigative Teaching Sequence was carried out in a state public school, with a class from the 8th year of Elementary School, with the aim of addressing the topic of sexuality from a biological, social, political and ethical perspective, providing students with a healthy and safe life perspective, encouraging them to become agents of change at school and in society. During the execution of the Research Teaching Sequence, students were led through scientific procedures, to investigate their own hypotheses and validate them. Data collection procedures involved classroom observations, debate, field diaries, audio recordings and interviews. The results of the debates and conversation circles indicated that the investigative sequence provided students with healthy relationships, inclusion, critical social analysis and a broader understanding of sexuality. Students recognized that openly discussing sexuality does not influence them negatively, on the contrary, it enables them to lead a safe and responsible adult life, being essential to reduce risks, taboos and discrimination associated with sexuality.
Keywords: Sex Education; adolescence; Research Teaching Sequence.
Resumen
Trabajar el tema de Educación Sexual en las escuelas es desafiante e involucra varios aspectos socio-psicológicos. En este contexto, se realizó una Secuencia Docente Investigativa en una escuela pública estatal, con una clase de 8º año de Educación Primaria, con el objetivo. de abordar el tema de la sexualidad desde una perspectiva biológica, social, política y ética, brindando a los estudiantes una perspectiva de vida saludable y segura, incentivándolos a convertirse en agentes de cambio en la escuela y en la sociedad. Durante la ejecución de la Secuencia Docente Investigadora, los estudiantes fueron guiados a través de procedimientos científicos, para investigar sus propias hipótesis y validarlas. Los procedimientos de recopilación de datos incluyeron observaciones en el aula, debates, diarios de campo, grabaciones de audio y entrevistas. Los resultados de los debates y círculos de conversación indicaron que la secuencia investigativa proporcionó a los estudiantes relaciones saludables, inclusión, análisis social crítico y una comprensión más amplia de la sexualidad. Los estudiantes reconocieron que discutir abiertamente sobre sexualidad no influye negativamente en ellos, al contrario, les permite llevar una vida adulta segura y responsable, siendo fundamental para reducir riesgos, tabúes y discriminaciones asociadas a la sexualidad.
Palabras-clave: Educación Sexual; adolescencia; Secuencia Docente Investigadora.
INTRODUÇÃO
A adolescência é uma etapa importante no desenvolvimento humano, onde a pessoa se distancia de uma autoimagem infantilizada para chegar à idade adulta, passando por uma série de mudanças biológicas, emocionais e psíquicas, e essas mudanças são influenciadas pelo ambiente social em que o jovem está inserido. A sexualidade é uma característica natural do ser humano, e suas manifestações mais acentuadas na adolescência, são afetados por estímulos externos e internos (Figueredo; Tavares; Silva, 2018).
A Educação Sexual por ser um tema complexo, frequentemente é cercada por preconceitos e tabus por parte do corpo docente, dos responsáveis pelos estudantes, dos próprios estudantes e das políticas públicas (Maia; Ribeiro, 2011). No entanto, a temática da Educação Sexual para as crianças e adolescentes carece de uma abordagem mais ampla e informativa, numa perspectiva mais abrangente, que engloba não apenas a esfera biológico-reprodutiva, mas também considera a orientação sexual, as questões de gênero e as vulnerabilidades (Gubert et al., 2009).
Crianças e adolescentes estão iniciando sua vida sexual cada vez mais cedo, sendo um reflexo das mudanças socioculturais que vem ocorrendo nos últimos anos, influenciando diretamente nas mudanças de comportamento social e sexual (Brasil, 2010). Ao incentivar os adolescentes a desenvolverem senso crítico e reflexivo, e a se posicionarem sobre temas relacionados aos direitos humanos e às questões sociais, estes podem realizar um papel importante na sociedade ajudando outras pessoas a promoverem práticas preventivas (Figueiró, 2018).
Segundo Louro (2016), a escola é um espaço pedagógico em que a sexualidade se manifesta, pois está nos gestos dos estudantes, nas rodas de conversa em sala de aula, nos corredores, expressos nas paredes dos banheiros, visto que é um tema de grande interesse para os jovens. É importante enfatizar que a abordagem da Educação Sexual no ambiente escolar não tem como objetivo estimular a promiscuidade ou o início precoce da vida sexual, mas sim promover o conhecimento sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), prevenir a gravidez indesejada, visando educar e esclarecer aos adolescentes sobre a responsabilidade individual quanto à saúde sexual e reprodutiva (Brasil, 2010).
Bastos e Ludke (2017) sugerem que as questões relacionadas à sexualidade devem ser integradas no ambiente escolar por meio de um diálogo aberto, o que possibilita orientar os estudantes para se tornarem cidadãos comprometidos tanto na promoção da saúde individual quanto coletiva. Assim como a sociedade passa por várias transformações influenciando diretamente as formas de manifestação da sexualidade, as escolas também precisam acompanhar essas mudanças e trabalhá-las em seu contexto amplo. A sexualidade abrange as formas pelas quais as pessoas vivem social e historicamente os seus desejos e prazeres, as formas como os sujeitos são incentivados a falar sobre o assunto e de como a sociedade é administrada (Franco; Marinho e Silva, 2020).
Neste contexto, este trabalho tem por objetivo explorar e analisar a eficácia de uma sequência didática investigativa elaborada com enfoque na Educação Sexual, considerando suas implicações no desenvolvimento integral dos estudantes e na promoção da alfabetização científica. A sequência didática proposta neste estudo buscou não apenas abordar questões de saúde e qualidade de vida, mas transcender essas dimensões, incorporando elementos da alfabetização científica.
Assim, a sequência de ensino por investigação desenvolvida abarcou não apenas aspectos biológicos, mas também dimensões sociais, culturais e afetivas da sexualidade, ao priorizar a participação ativa e reflexiva dos estudantes, influenciando positivamente a Educação Sexual e, empoderando os adolescentes na tomada de decisões saudáveis e inclusivas.
EDUCAÇÃO SEXUAL ESCOLAR
A sexualidade atrai, cativa e desperta muitas indagações, especialmente entre jovens, que sentem curiosidade em relação ao corpo e à sexualidade, pois é uma característica fundamental do ser humano compreender e explorar as coisas (Foucault, 1977). No entanto, a sexualidade é muito mais do que a ligação com o ato sexual, sendo somada aos nossos sentimentos, conhecimentos, emoções e relações que criamos ao longo da vida, desde o nascimento (Bonfim, 2012).
A Educação Sexual ao longo da vida é um processo contínuo que pode ser adquirido em diferentes momentos e contextos. Esse processo tem início desde muito cedo e pode ocorrer de forma direta, por meio de informações e orientações específicas, ou de forma indireta, por meio da vivência e experiências pessoais. Por isso a importância de desenvolver uma educação que assuma de forma significativa a construção integral do indivíduo que sofre adaptações de acordo com as distintas fases da vida (Barros et al., 2021).
Para Monteiro e Ribeiro (2020), a Educação Sexual é um conhecimento formativo e humanizador que incentiva o desenvolvimento de habilidades cidadãs em crianças e jovens, permitindo que compreendam seus direitos e enfrentam ideias repressivas e discriminatórias, a fim de promover uma cidadania consciente, que supere concepções repressoras, preconceituosas e discriminatórias arraigadas historicamente.
A sociedade está envolvida em um cenário de muitas informações, algumas fragmentadas e baseadas em conceitos populares, o que, infelizmente, favorece o surgimento de preconceitos. Diante dessa realidade, é crucial que as escolas assumam o seu papel social, estimulando diálogos sobre temas como sexo, sexualidade, identidade de gênero e orientação sexual, e permitam aos adolescentes, a oportunidade de expressar suas dúvidas e encontrar respostas em relação à sexualidade (Moizés; Bueno, 2010).
ENSINO POR INVESTIGAÇÃO E ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA
A implementação das metodologias ativas tem se destacado de forma positiva, uma vez que se baseia no princípio do protagonismo e autonomia do estudante (Almeida et al., 2006). O ensino por investigação é caracterizado por atividades baseadas em situações relacionadas ao cotidiano dos estudantes. Inicialmente, propõem-se e na sequência, incentiva-se a formulação de hipóteses relacionadas ao problema proposto, seguida pela busca por informações e análise dos dados para encontrar uma solução. A discussão dos resultados ocorre tanto entre os estudantes com a mediação ativa do professor no processo de ensino-aprendizagem (Carvalho, 2013).
Sasseron (2015, p. 59) afirma que: “[...] uma sequência de ensino investigativa é o encadeamento de atividades e aulas em que um tema é colocado em investigação e as relações entre esse tema, conceitos, práticas e relações com outras esferas sociais e de conhecimento possam ser trabalhados”. Ao levar em consideração os conhecimentos prévios dos estudantes, o professor cria uma base sólida para a construção de novos conhecimentos, que por meio de adaptação de estruturas mentais existentes, para serem formadas novas estruturas cognitivas.
A abordagem de Alfabetização Científica visa um ensino de ciências que não apenas transmite noções e conceitos científicos, mas também incentiva os estudantes a participarem ativamente da prática científica, e isso envolve confrontá-los com problemas reais. Para que as atividades investigativas e a argumentação sejam eficazes na promoção da Alfabetização Científica, a interação entre professor, estudante, materiais e informações é de extrema importância, visto que o envolvimento dos estudantes é crucial para gerar aprendizado (Sasseron, 2015).
A aplicação de uma sequência didática investigativa no contexto da Educação Sexual, combinada com abordagens de aprendizagem ativa, desempenha um papel importante na mitigação de comportamentos de exclusão, preparando os jovens não apenas para adquirir conhecimento, mas também para se tornarem agentes conscientes na tomada de decisões relacionadas à sua sexualidade (Cabral; Brandão, 2020).
PERCURSO METODOLÓGICO
A proposta metodológica deste trabalho baseia-se numa abordagem qualitativa que é empregada para situações de pequenos grupos populacionais, nos quais se pretende aprofundar conhecimentos, interpretar significados, narrar situações e descrever processos culturais e/ou institucionais (Eiterer; Medeiros, 2010). A pesquisa é do tipo pesquisa-ação, que é um tipo de pesquisa na qual pesquisadores e sujeitos da pesquisa se relacionam de forma colaborativa, e cujo objetivo, é realizar alguma ação ou tentar resolver problemas e fornecer os direcionamentos necessários para atingir o objetivo proposto (Thiollent, 1995).
As estratégias de coleta de dados utilizada foram as observações das aulas, rodas de conversas, diário de campo, gravação de áudios por meio de um gravador de voz, questionário, fotodocumentação preservando a identidade dos participantes e transcrição de entrevistas, respeitando as principais falas. Os dados foram analisados qualitativamente, com base na análise do discurso de Foucault (1986), considerando que a fala do indivíduo reflete sua posição na realidade vívida. Isso exige do pesquisador uma investigação no contexto estudado, permitindo compreender e interpretar as falas de forma contextualizada.
Participaram da pesquisa 13 estudantes com idade entre 12 e 15 anos, do 8° ano do Ensino Fundamental de uma escola da rede estadual de educação localizada no município de Boa Esperança – Espírito Santo, inserida em zona urbana. A turma participante foi escolhida por se encontrar numa fase de desenvolvimento particularmente importante, na qual os adolescentes começam a vivenciar mudanças importantes relacionadas com a puberdade e o desenvolvimento intelectual como destaca os autores Brilhante e Catrib (2011). Além disso, a maioria dos estudantes pertencem a diferentes contextos familiares e sociais em que temas sensíveis e complexos relacionados à sexualidade, como a violência, a prostituição e a falta de Educação Sexual são problemas comuns e não são discutidos com a devida atenção. A Sequência de Ensino por Investigação foi organizada em 4 etapas, que serão descritas a seguir:
Na etapa 1 – “Ação norteadora sobre a Educação Sexual”: a professora conduziu os estudantes a uma sala de jogos presente na escola, e os orientou a se sentarem em círculo. No centro, a professora colocou uma caixa de perguntas e sugestões com a seguinte indagação: “O que você tem mais curiosidade ou gostaria que fosse discutido sobre sexualidade?”. Na sequência a professora explicou aos estudantes, que seria utilizada a caixa de perguntas anônimas ao final daquela etapa.
Em seguida foi entregue a cada estudante um recorte impresso da reportagem “Educação sexual ainda é tabu no Brasil e adolescentes sofrem com a falta de informação” (Molica, 2019). Foi realizada uma leitura colaborativa, na qual os estudantes foram incentivados pela professora a apontar dúvidas, curiosidades e inquietações em seu contexto escolar e social sobre a temática.
Ao final do debate coletivo, foi solicitado aos estudantes que escrevessem em um recorte de papel, sem identificação, perguntas e sugestões a respeito da indagação inicial apresentada na caixa. Logo após, os estudantes foram orientados para que devolvessem os papéis dobrados à caixa, mantendo o anonimato. Ao término da aula a professora abriu a caixa e realizou a leitura e análise das perguntas e sugestões colocados pelos estudantes, categorizando-as por temas semelhantes.
As perguntas sugestões dos estudantes foram organizadas em quatro roteiros investigativos distintos, com os seguintes temas: educação sexual; violência sexual e valorização da mulher; sistema reprodutor e ISTs; orientação sexual. Cada um desses roteiros investigativos continha orientações para os estudantes proporem soluções aos problemas identificados, e um espaço em branco para que pudessem descrever suas hipóteses, análises e reflexões.
Na Etapa 2 – “Problematização e levantamento de hipóteses”: em um primeiro momento, a pesquisadora dividiu os estudantes em quatro grupos que se reuniram e receberam um roteiro investigativo distinto, para realizarem questionamentos e levantamento de hipóteses, buscando soluções para os problemas trazidos por eles, mediante seus conhecimentos prévios, sendo registradas por escrito no próprio roteiro. Em um segundo momento todos os grupos foram direcionados para o jardim da escola e se organizaram em roda de conversa para ler e discutir as hipóteses e sugestões levantadas por seus membros referentes às problemáticas apresentadas, além de receber contribuições e ideias dos demais colegas presentes.
Na Etapa 3 – “Investigação”: a professora forneceu a cada grupo uma lista de links, com o objetivo de evitar o acesso a informações imprecisas ou fontes duvidosas, devido à sensibilidade dos temas abordados. Além da investigação por meio de recursos digitais, os estudantes haviam sugerido, na caixa de perguntas sugestões a realização de entrevista com especialistas na área da saúde. Assim foram convidadas duas especialistas, uma enfermeira e uma psicóloga. Os estudantes elaboraram perguntas para a entrevista, seguindo suas principais dúvidas e curiosidades, bem como as formações específicas das profissionais.
Na Etapa 4 – “Conclusão da sequência investigativa”: em sala de aula, foi organizada uma roda de conversa, na qual os estudantes tiveram a oportunidade de discutir detalhes do processo investigativo. Após a socialização, cada estudante recebeu um questionário, cujo objetivo foi avaliar de forma abrangente a sequência didática desenvolvida, possibilitando uma avaliação individual mais detalhada.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Etapa1- Ação norteadora sobre a Educação Sexual
A leitura e discussão da reportagem como recurso inicial foi uma estratégia importante, pois encorajou os estudantes a explorarem suas próprias perspectivas promovendo uma discussão significativa, na qual os mesmos participaram ativamente, expressaram as suas opiniões, exploraram diferentes perspectivas e levantaram novos questionamentos. A integração da escola com a comunidade é essencial nos dias de hoje, isso se deve ao fato de que tal integração evita a alienação dos alunos de seu contexto cultural imediato conforme apontado por Krasilchik (2016).
A coleta de dúvidas e sugestões de forma anônima por meio da caixa de perguntas e sugestões, proporcionou um ambiente que favoreceu a participação ativa, na qual eles demonstraram engajamento e concentração na formulação de perguntas (Figura 1). Hossotani et al. (2014) destacam um desafio comum na abordagem de temas sexuais, que é o receio dos estudantes em questionar dúvidas pessoais, pelo constrangimento ou muitas vezes devido ao medo de julgamentos.
Figura 01: Caixa de perguntas e sugestões, e estudantes durante a leitura e discussão colaborativa.

Fonte: Imagem do acervo da autora, 2024.
Dentre as perguntas e sugestões colocadas pelos estudantes, destacaram-se as preocupações sociais, como a necessidade de discutir abertamente temáticas relacionadas ao abuso sexual e orientar a população sobre a forma de abordar esse tema com crianças de diferentes faixas etárias. Além disso, a promoção de uma cultura de respeito e igualdade de gênero, e o interesse de conhecer os conceitos relacionados à diversidade sexual e aspectos biológicos do corpo humano.
Maia e Ribeiro (2011), destacam que a Educação Sexual escolar deve não apenas orientar, ensinar e informar, mas também promover a discussão, reflexão e questionamento de valores e concepções, possibilitando que cada indivíduo desenvolva um entendimento das representações culturais, históricos e éticos que embasam sua visão de sexualidade e sua prática sexual.
Segunda etapa- Problematização e levantamento de hipóteses
No primeiro momento da segunda etapa, novas conexões puderam ser observadas, pois os estudantes tiveram a oportunidade de se relacionar com outros colegas, muitos dos quais não teriam interação em situações tradicionais (Figura 2). Conforme destacado por Sasseron (2013), no trabalho em grupo, os estudantes têm a oportunidade de desenvolver potencialmente conhecimentos e habilidades com a orientação de seus colegas, por estarem dentro da mesma zona de desenvolvimento, o que muitas vezes facilita o entendimento dos assuntos em estudo, mais do que compreender o professor.
Figura 02: Primeiro momento com discussão e levantamento de hipóteses entre os grupos

Fonte: Imagem do acervo da autora, 2024.
No segundo momento desta etapa, os estudantes tiveram oportunidade de obter informações sobre os temas explorados. Na discussão do primeiro roteiro investigativo sobre a temática “Educação sexual”, os estudantes propuseram o desenvolvimento de palestras de sensibilização para pais, alunos e comunidade, pois algumas famílias ainda não discutem abertamente sexualidade com os filhos ou não possuem conhecimento sobre o tema. Como destaca Lopes (2019) as crianças muitas vezes, por não receberem respostas às suas perguntas, acabam estando sujeitas a conflitos ou acidentes inesperados por possuírem informações incorretas baseadas em diversas fontes inadequadas.
No segundo roteiro investigativo com a temática “Violência sexual e valorização da mulher”, os estudantes propuseram a criação de projetos escolares para sensibilizar e informar sobre o tema, a criação de leis mais severas para punir os autores destes crimes, oferecer redes de psicólogos e projetos que promovam o acolhimento de pessoas que sofreram alguma forma de abuso ou violência. Os estudantes apresentaram também a importância de a família ensinar aos filhos que mulheres e homens têm direitos iguais e que o respeito mútuo é essencial. Esta reflexão destaca a compreensão dos alunos sobre a necessidade de criar relações baseadas na igualdade de gênero e quebrar estereótipos.
No terceiro momento do roteiro investigativo sobre a temática “Sistema reprodutor e ISTs”, percebeu-se que muitas concepções dos estudantes eram errôneas mesmo com a gama de informações disponíveis na atualidade, como por exemplo a de que tomando pílula anticoncepcional se previne as ISTs. Com relação ao tema infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), a fala dos estudantes evidenciou muitas dúvidas sobre métodos contraceptivos e um conhecimento limitado referente aos principais sintomas das ISTs e seus modos de transmissão.
Com essa lacuna de conhecimento recomenda-se a necessidade de uma abordagem mais detalhada e esclarecedora sobre esses temas visando corrigir concepções equivocadas e fornecer informações seguras. Para solucionar as problemáticas apresentadas, os estudantes propuseram a realização de palestras nas escolas com a participação de profissionais de saúde.
Na discussão do último roteiro investigativo sobre a temática “Orientação sexual” ficou evidente o quanto a temática despertou interesse e gerou dúvidas entre os estudantes, uma vez que a compreensão do conceito “orientação sexual” é limitada. Isso pode ser percebido pelo fato de os estudantes relacionarem esse termo com a ideia de ensinar os diferentes gêneros existentes. Outro ponto destacado pelos estudantes foi a realidade dessas pessoas na sociedade que muitas vezes sofrem com preconceito, julgamentos, violência, falas ofensivas, e fragilidade no acolhimento e na aceitação dos diferentes tipos de gênero sexuais pelas próprias pessoas da família.
O contexto indica à necessidade de avanços nas discussões sobre gênero e sexualidade na formação inicial e continuada de professores, embora progressos tenham sido alcançados, ainda é preciso preparar os docentes a lidar com assuntos relacionados a preconceitos e discriminações no ambiente escolar. Como afirma Araujo (2015, p. 7), “[...] calar-se está longe de uma postura de neutralidade e significa cumplicidade com o preconceito, consequente da ignorância sobre o assunto”.
Como destaca os autores Walczak e dos Santos (2020) a escola, como espaço social e plural, muitas vezes reproduz as contradições da sociedade, manifestadas por preconceitos e discriminações presentes entre estudantes, pais, professores, diretores e funcionários. Essas concepções, aprendidas em sociedade, acabam sendo reafirmadas no ambiente escolar por meio do currículo, perpetuando discursos de heteronormatividade, desigualdades de gênero, sexismo, machismo e outros problemas sociais.
Dentro dessa abordagem os estudantes propuseram projetos de conscientização em toda a comunidade, palestras para informar sobre a importância do respeito e do combate à homofobia e à violência. Essas propostas refletem a compreensão dos estudantes sobre a necessidade de um esforço conjunto para promover a conscientização e a mudança da sociedade, por meio do respeito da igualdade (Figura 3).
Figura 03:Segundo momento com roda de conversa com discussão e levantamento de hipóteses.
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Terceira etapa: Investigação
Os links fornecidos na terceira etapa da sequência investigativa, apresentaram uma ampla e complexa abordagem das questões relacionadas com a sexualidade na sociedade atual, no entanto, além da investigação utilizando os links, os estudantes decidiram incluir entrevistas com profissionais da saúde. A entrevista sugerida pelos estudantes, é um aspecto fundamental que fortalece a qualidade e relevância da pesquisa, demonstrando uma abordagem madura e consciente diante de temas sensíveis.
A abordagem investigativa empregada durante as aulas facilitou a aprendizagem dos estudantes, por permitir e proporcionar condições para os alunos buscar soluções para os problemas apresentados, e criar meios que viabilizem a resolução dos problemas (Carvalho, 2013; Sasseron, 2015).
Na entrevista realizada com a enfermeira, a profissional destacou casos específicos de abuso sexual em ambientes de trabalho, ressaltando a importância de notificar e encaminhar essas situações para testes de avaliação e acompanhamento psicológico em postos de saúde. Ao abordar sobre a fisiologia menstrual e a Tensão Pré-Menstrual (TPM), a entrevista com a enfermeira proporcionou informações essenciais sobre as mudanças hormonais nas mulheres. Isso contribuiu para a conscientização dos estudantes sobre a fisiologia feminina e seus aspectos emocionais.
No que se refere ao início da atividade sexual, a profissional enfatizou a importância de considerar a maturidade física e emocional antes de se envolver nessa prática. Além disso, essa orientação abordou questões relacionadas à gravidez precoce e infecções sexualmente transmissíveis, incentivando uma abordagem responsável. Na discussão sobre a ISTs a enfermeira ressaltou a importância do diagnóstico e tratamento precoce no controle dessas infecções, enfatizando a importância do preservativo como medida preventiva. Além disso, destacou a sífilis como a IST mais comum atendida pela unidade de saúde da comunidade.
Na entrevista com a psicóloga, abordou-se sobre os efeitos do abuso sexual na saúde mental das pessoas afetadas, enfatizando a extensão das consequências, destacando que as cicatrizes deixadas vão além dos danos físicos, afetando também o emocional das vítimas. A psicóloga mencionou o quanto é importante reconhecer o seu corpo como um espaço de domínio pessoal, ressaltando a necessidade das pessoas que sofram abuso de processar a dor e redefinir significados para ajudar a superar o trauma. Segundo Martins (2011) apesar dos efeitos negativos do abuso, as mulheres vitimadas que contaram com o apoio de pessoas encontraram caminhos para superar ou amenizar o sofrimento da violência sofrida por meio do apoio familiar, de amigos e de serviços especializados no atendimento às vítimas de violência.
Com relação a desvalorização da mulher na sociedade, a psicóloga defendeu um equilíbrio saudável entre homens e mulheres, criticando atitudes extremas em ambas as partes. Além disso, destacou os padrões de beleza que são impostos na sociedade, e o sofrimento de muitos indivíduos para atender essa expectativa social. A prostituição como recurso financeiro e perspectiva de apoio social, foi outro tema discutido, evidenciando o quanto este problema está presente na realidade dos estudantes.
Durante as entrevistas, os estudantes participaram ativamente, manifestando sua curiosidade e interesse sobre o tema e fazendo outras perguntas que não estavam programadas no roteiro (Figura 4).
Figura 04: Entrevista presencial realizada com a enfermeira, e entrevista remota realizada com a psicóloga.

Fonte: Imagem do acervo da autora, 2024.
Os resultados desta etapa de entrevista demonstram desenvolvimento de habilidades investigativas, interventivas e avaliativas nos estudantes, e fomentaram a busca de fontes de informações confiáveis e relevantes. Sobre a metodologia abordada, Carvalho (2011, p. 253) afirma que:
Ao ensinarmos Ciências por investigação estamos proporcionando aos alunos oportunidades para olharem os problemas do mundo elaborando estratégias e planos de ação. Desta forma o ensino de Ciências se propõe a preparar o aluno desenvolvendo, na sala de aula, habilidades que lhes permitam atuar consciente e racionalmente fora do contexto escolar.
Quarta etapa: Conclusão da sequência investigativa
Durante a socialização, o grupo responsável pelo tema “Educação sexual” enfatizou que o detalhamento deste tema não se enquadra apenas ao ato sexual, mas incluem orientações abrangentes como o autocuidado, consciência corporal, prevenção de ISTs e reconhecimento de situações de abuso sexual.
Os estudantes também relembraram algumas falas importantes da psicóloga, o que demonstra o quanto a profissional contribuiu significativamente para a compreensão dos alunos sobre a educação sexual. Nas pesquisas realizadas pelos estudantes, foram destacadas também dados alarmantes referentes a crimes contra crianças e adolescentes, e observou-se uma parcela considerável de casos envolvendo meninas.
O grupo responsável pelo tema “Violência Sexual e Valorização da Mulher” relatou que a violência e abuso sexual pode se expressa de várias formas como a violência mental e virtual, além da violência física. Destacam o fato de algumas crianças não reconhecerem que estão sendo abusadas, mesmo que considerem estranho o comportamento de alguém tocando nas suas partes íntimas, o que torna a discussão do tema importante para a conscientização e proteção dessas crianças.
Segundo Figueiró (2018), a educação sexual oferece uma abordagem diversa sobre o tema do abuso sexual infantil, que inclui, os cuidados com o corpo e o reconhecimento do toque abusivos, mas o autor enfatiza que para as crianças aprenderem a distinguir o afeto do abuso, é necessário a utilização de uma linguagem simples, objetiva e abrangente, na qual as crianças são informadas sobre as partes do corpo que não devem ser tocadas e a forma como agir com pessoas estranhas. O grupo também destacou a importância da valorização de todas as pessoas, independentemente do gênero, a fim de promover a igualdade e o respeito mútuo para prevenção e combate à violência sexual.
O grupo responsável pelo tema "Sistema Reprodutor e IST's", enfatizou a importância da reprodução, na qual descreveram o processo de produção de gametas. Os alunos também destacaram vários exemplos de infecções sexualmente transmissíveis e os seus principais sintomas, incentivando o uso de preservativo para prevenção, e a importância de consultas e acompanhamentos periódicos com um profissional de saúde, independentemente de serem sexualmente ativos ou não.
O último grupo, responsável pela temática “Orientação Sexual” destacou a divisão do tema em dois termos: orientação sexual e identidade de gênero, tendo em vista que são conceitos separados, mas relacionados. Além disso, enfatizaram a importância de respeitar e aceitar a diversidade sexual, destacando a necessidade de construir uma sociedade justa e inclusiva, onde todos possam viver sua sexualidade com liberdade e autonomia, livre de discriminação ou preconceito
Além da discussão de cada grupo, os estudantes compartilharam experiências cotidianas de situações de abuso, homofobia, violência contra a mulher e gravidez na adolescência, tanto em contextos próximos quanto nos noticiários (Figura 5). Como enfatiza Furlani (2020), o conhecimento biológico por si só não é eficaz na mudança de comportamento dos jovens, pois a educação sexual vai além de apenas tratar de reprodução, doenças e métodos contraceptivos. A educação sexual inclui todas as informações que ajudam a sociedade a reduzir preconceitos, discriminação e intolerância, contribuindo para o progresso multidimensional de crianças e adolescentes.
Figura 05: Sistematização do processo investigativo.

Fonte: Imagem do acervo da autora, 2024.
O compartilhamento de experiências pelos estudantes proporcionou uma consciência coletiva sobre questões relacionadas à sexualidade e fortalece a luta por uma sociedade mais inclusiva e livre de violências. Envolver os alunos em conversas e discussões, não apenas fornece exemplos práticos, mas também orienta os mesmos a pensarem e a construírem novos conceitos, a partir do que está sendo discutido (Krasilchik, 2016)
Após a conclusão da sistematização do conhecimento coletivo, foi aplicado aos estudantes um questionário referente à prática que foi desenvolvida. Na análise das questões, com relação ao comprometido durante as aulas, a maioria dos estudantes avaliou seu comprometimento como "ótimo" ou “bom”. Esse resultado indica o quanto os estudantes se sentiram motivados para fazer as tarefas e satisfeitos com a prática desenvolvida.
Quanto ao relacionamento entre a professora e colegas, a maioria dos estudantes avaliou como “bom”, evidenciando o quanto eles se sentiram confortáveis, acolhidos ao relatar suas opiniões pessoais e, em desenvolver relações saudáveis em sala de aula. Um grupo minoritário de alunos tiveram uma experiência “regular” que não foi excepcionalmente positiva ou negativa, mas algo intermediário, na qual os estudantes reconhecem sua individualidade e suas diferenças com os seus pares.
Com relação às habilidades que consideram ter desenvolvido durante a sequência didática, grande parte dos estudantes registraram no questionário o desenvolvimento do pensamento crítico, habilidades analíticas de padrões presentes na sociedade, o que mostra o quanto a sequência didática estimulou a discussão sobre questões sociais e culturais, fomentando uma reflexão das influências sociais na formação de atitudes e valores em relação à sexualidade, provocando reflexão mais íntima sobre as atitudes individuais em relação à essa temática.
Na questão sobre o que mais gostaram de aprender durante a sequência didática, os estudantes descreveram terem desenvolvido uma compreensão abrangente e positiva em relação a sexualidade, dentre eles citaram o processo de reprodução humana, orientação sexual, prevenção contra ISTs e o verdadeiro significado do que é o sexo. Os estudantes citaram também aspectos marcantes da sequência didática, como a dinâmica da "caixa de perguntas e sugestões", que proporcionou uma oportunidade de expressar suas dúvidas sobre questões sensíveis ou constrangedoras relacionadas à sexualidade. O anonimato nesta atividade, incentivou a participação ativa, eliminando preocupações sobre a associação de perguntas a seus autores.
Além disso, os estudantes destacaram os momentos em que se reuniram em outros espaços da escola, como relevantes, por permitir uma interação dinâmica fora do contexto de sala de aula que eles vivem rotineiramente. Outro destaque foram as entrevistas, que os estudantes consideraram momentos de esclarecimento de muitas dúvidas. Esta abordagem alinha-se à visão de Figueiró (2007, p. 28) que destaca "[...] a educação sexual é muito mais do que aulas sobre a Biologia e a Fisiologia da Sexualidade; refere-se a proporcionar oportunidades para discussões, reflexões, debates em grupo, com os colegas, coordenados por um educador". Durante esse processo, é importante criar um espaço para abordar sentimentos, emoções, atitudes, preocupações e valores que são trazidos à tona e que os alunos não trariam para a sala de aula em contextos tradicionais de sala de aula.
Os estudantes descreveram que uma discussão aberta sobre temas relacionados à sexualidade não afeta negativamente os adolescentes, pelo contrário, traz benefícios importantes que ajudam os jovens a obter as informações seguras e precisas. Portanto, as discussões sobre temas relacionados à sexualidade proporcionaram aos estudantes conhecimento, autocompreensão, conscientização, propiciando mudanças na sociedade de paz e combate à violência.
A sequência didática evidenciou a importância da educação sexual na escola ao promover o diálogo aberto, reflexão crítica e combate à desinformação. Atividades como a caixa de perguntas e entrevistas com profissionais proporcionaram um ambiente seguro para expressar dúvidas e debater temas como violência sexual, igualdade de gênero e ISTs. A mediação do professor também foi fundamental para cultivar questionamentos e desconstruir preconceitos, mostrando que a educação sexual vai além do ensino biológico, contribuindo para a formação de indivíduos mais reflexivos e conscientes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa explorou de maneira abrangente e aprofundada a implementação de uma sequência de ensino investigativo sobre sexualidade no contexto escolar, com foco na promoção da educação sexual, respeito à diversidade, desconstrução de tabus e com o propósito de desenvolver uma abordagem simples da sexualidade no ambiente escolar, buscando combater preconceitos e incentivar mudanças nas práticas, comportamentos e na aprendizagem.
A implementação da educação sexual nas escolas é uma tarefa difícil, mas o assunto deve ser abordado de forma direta e consciente, incentivando a introdução de métodos preventivos e possibilitando a reflexão, para que a instituição de ensino impacte diretamente na sociedade em que atua. Os relatos dos estudantes ressaltaram a importância de discussões abertas sobre educação sexual, contribuindo para a construção de um ambiente mais inclusivo.
Contudo, reconhece-se que o trabalho realizado não é suficiente para eliminar completamente os tabus e mitos relacionados à sexualidade entre os estudantes. No entanto, o reconhecimento da necessidade de abordagens contínuas e repetidas para a abordagem da sexualidade destaca a complexidade do tema e a importância desse processo formativo ao longo do tempo. Espera-se que os resultados apresentados neste trabalho, incentive outras escolas e possa orientar outros professores e enriquecer o processo educativo escolar, tornando as práticas pedagógicas relacionadas à sexualidade mais inclusivas, informativas, acolhedoras e seguras para todos os estudantes.
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