A CONTÍSTICA DE ONDJAKI

  • Sabrina Ferraz Fraccari Universidade Federal da Fronteira Sul - Cerro Largo
  • Demétrio Alves Paz

Resumo

1 Introdução/Justificativa
            Ondjaki, pseudônimo literário de Ndalu de Almeida, nasceu em Luanda, Angola, no ano de 1977. Romancista, contista, poeta, teatrólogo e também roteirista e diretor do documentário Oxalá cresçam pitangas – Histórias de Luanda (2006), o autor possui uma produção consolidada e premiada internacionalmente, recebendo, entre outros prêmios, o prêmio Jabuti na categoria literatura juvenil, com o livro AvóDezanove e o segredo do soviético, em 2010, e o prêmio José Saramago, de Portugal, em 2013, pelo romance Os transparentes. Ele é reconhecido como um dos principais nomes da atual geração de escritores angolanos.
Segundo Boaventura Cardoso, importante escritor angolano, a literatura de seu país encontra-se “na fase de ‘arrumar a casa’” (2008, p. 17) e, igualmente, afirma que é necessário aos escritores angolanos retomarem o projeto da Geração de 50: “redescobrir Angola” com o objetivo de resgatar a angolanidade literária (p. 18). Dentre os elementos que constituem essa angolanidade, Cardoso aponta a filosofia banto do vitalismo, que postula a existência de um ser sobrenatural que seria superior aos seres humanos e à natureza, transmite uma força vital entre eles. Além disso, um dos preceitos dessa visão de mundo pressupõe que cada um é parte do outro, ou seja, o “eu” só é compreensível junto ao “outro”, seja este homem ou natureza.
Desta forma, a literatura angolana carrega consigo a importância do outro para a constituição de si, valorizando tanto personagens quanto elementos da natureza. Para representar esses elementos na tessitura literária, Cardoso aponta “a envolvência da linguagem banto do maravilhoso e fantástico” (2008, p. 18) que estariam presentes no discurso ficcional dos escritores, constituindo, assim, elementos chaves da escrita que ele denomina “angolanizada”.
2 Objetivos
            Estudar a produção contística de Ndalu de Almeida (Ondjaki) analisando a oralidade utilizada pelo autor e a representação da sociedade angolana no período pós-independência. A partir dos elementos apontados por Cardoso como constituintes da literatura angolana que busca resgatar sua identidade literária, nosso principal objetivo neste trabalho consiste em reconhecer elementos e características do fantástico na obra contística de Ondjaki.
3 Material e Métodos/Metodologia
            Para o desenvolvimento do presente trabalho, utilizamos o método da pesquisa bibliográfica. Ao realizar a leitura da obra contística de Ondjaki, composta pelos livros Momentos de aqui (2001), E se amanhã o medo (2005), Os da minha rua (2007) e O céu não sabe dançar sozinho (2014), identificamos a presença de elementos característicos da literatura fantástica.  Tais elementos, elencados por Todorov (1981), Furtado (1980) e Ceserani (2006), serviram como base para nossa análise. Após a identificação do fantástico, buscamos relacioná-lo com outras características da obra de Ondjaki, assim como da literatura angolana, a partir das afirmações de Cardoso (2008) e outras produções acadêmicas sobre a temática.
4 Resultados e Discussão
            A busca por resgatar a identidade angolana é uma questão fundamental para a nova geração de escritores, tal como dito anteriormente. Angola sofreu com cinco séculos de dominação e exploração portuguesa, período no qual a visão que se tinha do país era a visão do colonizador, não do povo angolano. Para se tornar um país independente, foram necessários treze anos de guerra (1961 – 1974). Após a independência, o país sofreu por quase três décadas uma guerra civil (1975 – 2002) que buscou definir questões políticas do país. A nação se declarou socialista, mas sofreu com a oposição de grupos apoiados pelos Estados Unidos e África do Sul, em um contexto de Guerra Fria.
            Diante de todos esses acontecimentos devastadores para o país, a literatura de Ondjaki se apresenta como uma literatura otimista, uma vez que o tema da guerra, por exemplo, é muito pouco explorado. Segundo o próprio autor em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em agosto de 2006, a guerra não fez parte de sua vida, pois o conflito deflagrado após a independência não ocorreu em Luanda, cidade na qual nasceu e cresceu. Por isso, a infância que o autor retoma em livros como Momentos de aqui ou Os da minha rua, são os dias com a tia Rosa e o tio Chico, as idas à casa do sr. Tuarles assistir às novelas brasileiras na televisão, e as brincadeiras nas ruas poeirentas de Luanda.
            Essa perspectiva que chamamos, junto com Franco (2010) de otimista, é ressaltada pelo próprio Ondjaki, na entrevista antes mencionada, ao afirmar que
Não tenho outro remédio que não ser otimista, não vejo outro caminho, e nem sempre direi a verdade sobre aquilo que estou a sentir sobre o decurso da humanidade ou do país, nem sempre. Porque acho que há coisas que é preciso fazermos independentemente das nossas desilusões ou dos nossos medos, mas não tenho outro caminho que não ser otimista, trabalhador, empreendedor (ONDJAKI, 2006).
Esse otimismo aparece no conto “O pássaro no cais”, de E se amanhã o medo. Nele, um velho observa pessoas em um cais, no entanto, para sua surpresa, todas elas estão curvadas, como se procurassem por algo.
            Diante do que vê, o velho começa a buscar hipóteses que possam explicar aquela postura. A hesitação do velho em aceitar ou não a presença do sobrenatural, aqui exposto na mudança de comportamento das pessoas, é uma das características que Todorov (1981) aponta para o fantástico, que pressupõe, para o autor, essa dúvida entre aquilo que se vê e entre o que se acredita ser o real. Essa hesitação é mantida até o fim da narrativa, pois o velho sempre busca por explicações.
            A primeira hipótese levantada é o fato de as pessoas andarem curvadas devido ao peso da vida: “as pessoas que se moviam estavam curvadas. A vida é pesada” (ONDJAKI, 2010, p. 55). Por meio da busca por respostas do velho, o leitor, que acompanha os pensamentos do narrador, acabando por querer entender o que acontece, e não aceita passivamente o fato de as pessoas andarem curvadas como sendo parte da realidade do universo apresentado no conto. Dessa forma, o velho, que é um narrador-personagem, atua como uma testemunha dos fatos sobrenaturais apresentados, condição que lhe permite conferir credibilidade ao que narra (FURTADO, 1980) e, por isso, dirige as atenções do leitor para aquilo que desejar.
            Para solucionar o mistério, o velho tenta recorrer aos pássaros que voavam sobre o cais, retomando a filosofia banto, que postula a igualdade entre ser humano e natureza. Mesmo que os pássaros não possam ouvi-lo, nem buscar as respostas que ele procura, o velho crê neles, pois só eles seriam capazes de romper “com a curvatura daquela gente que, cega e desorientada, com o olhar no chão procura vestígios de uma nova esperança” (ONDJAKI, 2010, p. 58). Ou seja, para o narrador, a postura curvada das pessoas representa uma busca que pode ser alcançada olhando para o alto, percebendo a igualdade entre ser humano e natureza.
5 Conclusão
            Diante do exposto, a presença do fantástico na literatura de Ondjaki surge como um recurso alegórico para expressar tanto a busca pela identidade angolana, por meio da esperança que procuravam as pessoas no conto analisado, como a manifestação dos elementos da filosofia banto, representada pela figura do pássaro a quem o velho tenta recorrer. Assim sendo, a literatura otimista de Ondjaki utiliza recursos da narrativa fantástica para resgatar a esperança do povo angolano, tão explorado durante séculos e tão sobrecarregado pelo peso da guerra, que busca, enquanto nação, se reerguer, afirmar sua identidade, resgatar sua história e construir um novo futuro.
Publicado
13-09-2018
Como Citar
FRACCARI, Sabrina Ferraz; PAZ, Demétrio Alves. A CONTÍSTICA DE ONDJAKI. JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA, [S.l.], v. 1, n. 8, set. 2018. ISSN 2526-205X. Disponível em: <https://periodicos.uffs.edu.br/index.php/JORNADA/article/view/8748>. Acesso em: 16 jan. 2019.