CULTURA ESCRITA NO OESTE CATARINENSE: PROBLEMAS DA ESCRITA EPISTOLAR NO ACERVO DE CORRESPONDÊNCIAS DE UM EMPRESÁRIO DA COLONIZAÇÃO

  • Thalia Faller Universidade Federal da Fronteira Sul, Chapecó
  • Ricardo Machado

Resumo

 
1 Introdução/Justificativa
Em 09 de agosto de 1993 foi tombado em Chapecó, por meio da lei municipal n. 3.202, o acervo da família Bertaso, -família do principal empresário da colonização da região do Oeste Catarinense-, doado para o CEOM (Centro de Memória do Oeste Catarinense). Junto com os arquivos da Colonizadora Bertaso, Maia & Cia, encontram-se as correspondências trocadas entre os membros do núcleo familiar Bertaso – mãe, pai, filha e filho-, além de outros sujeitos que constituíam suas redes de parentescos e sociabilidades.
Por meio da metodologia da História Cultural que, desde 1980, vem utilizando novas fontes para compreender elementos do sujeito e sua constituição, sua vida privada e a historicidade da escrita e leitura, o acervo de correspondências em questão possibilita estudar a história das práticas da cultura escrita na região do Oeste Catarinense. Dessa forma, a presente pesquisa atenta-se para as missivas escritas pelo filho Serafim Bertaso para seus pais, durante o período da sua formação escolar que viveu longe da família (1920-1929).
Ao analisar a história das práticas de escrita na região em destaque, existe a possibilidade de conhecer como nossos antepassados se relacionavam com elas. Enriquecendo, assim, o repertório de conhecimentos para se pensar sobre as relações contemporâneas com a escrita, incluindo também a leitura.

2 Objetivos
Pesquisar a história da cultura escrita no Oeste Catarinense, a partir das correspondências de Serafim Bertaso destinada aos seus pais, buscando entender como ele utilizava das práticas de escrita e a escrita de si para se aproximar de seus familiares, construindo sua identidade, real ou inventada, nas narrativas epistolares. Direcionando-se, portanto, para uma compreensão das práticas de escrita na região, além da relação da escrita epistolar com os processos de escolarização das elites locais.

3 Material e Métodos/Metodologia
Para a realização da pesquisa foram utilizados as cartas escritas por Serafim Bertaso para seus pais no período de sua formação escolar nas instituições Gymnasio Anglo Brasileiro, em São Paulo, e Ginásio Catarinense, em Santa Catarina. No acervo disponibilizado pelo CEOM (Centro de Memória do Oeste Catarinense), obtemos as missivas dos anos de 1920, 1921, 1922, 1926, 1927, 1928 e 1929, analisadas por meio da metodologia da História Cultural, buscando compreender, através de autores e autoras como Norberto Dallabrida (2002), Brigitte Diaz (2016) e Geneviève Haroque-Bouzinac (2016), entre outros referenciais teóricos sobre os temas, as práticas da escrita íntima e de si, a construção da identidade por meio da narrativa epistolar, e as relações da cultura epistolar com a escolarização das elites.

4 Resultados e Discussão
Os colégios internos nos quais Serafim Bertaso escreveu suas cartas, no período entre os anos de 1920 e 1930 (Gymnasio Anglo Brasileiro- São Paulo e Ginásio Catarinense- Santa Catarina), proporcionavam um lugar para a escrita. De acordo com Dallabrida (2002), o Ginásio Catarinense foi dirigido por padres jesuítas alemães da Companhia de Jesus e do período de 1906 até a década de 30 foi o único instituto de ensino secundário em Santa Catarina, lugar para a educação das elites letradas e formação de sujeitos disciplinados. Consequentemente, o tempo e o espaço eram severamente controlados, visando o máximo de produtividade de seus alunos. Sendo separados de acordo com a idade, compartilhavam dormitórios e ambientes de estudo.
Portanto, Serafim, membro de uma família influente do Oeste Catarinense, frequentou ambientes que o construíram como homem capaz de atuar nos espaços de poder. As cartas que constituíram a sua experiência fora de casa, desenvolveram novas relações com a escrita e demonstram como ele utilizava dessa prática para representar e organizar seu próprio universo.
Para as autoras Brigitte Diaz (2016) e Geneviève Haroque-Bouzinac (2016), a carta cria um espaço de expressividade que muitas vezes não se encontra fora dela. É o que denominaremos escrever o que não se fala. No meio de tantas formalidades que a carta requeria como saudação, narração, se importar com o leitor, não escrever a todo momento sobre si e despedidas, Serafim encontrava espaço para fixar suas opiniões e demonstrar suas possíveis irritações sobre o pacto epistolar, uma vez que “a carta é, ao mesmo tempo, o emblema e o substituto de um agir sobre o mundo, gesto que não se pode realizar de outra forma”(DIAZ, 2016, p. 69). Além disso, a carta possibilitava Serafim transgredir, por mínimo que possa parecer, seu papel de filho: opinava na maneira de viver de sua família, na forma como escreviam as cartas para ele, dava pequenos sermões, demonstrava seus aborrecimentos, melhorava a imagem de si. Pequenas sutilezas que quando transmitidas pessoalmente podem ser bruscamente refutadas ou ditas de uma maneira diferente do imaginado, gerando mal-entendidos e outros desconfortos.
Ademais, para Serafim, enviar e receber cartas era importante, mas não suficiente. Sendo assim, se fez preciso o desenvolvimento de assuntos para que a correspondência continuasse com a finalidade de não se constituir em um monólogo dele para os seus pais. Contudo, irremediavelmente, foi necessário escrever sobre si, representando a maneira como gostaria de ser entendido pela família: um filho obediente, amoroso, estudioso, com boa saúde e talentos. Construindo, assim, a imagem de uma identidade que poderia não ser a sua realidade, mas traria aprovações e tranquilidades para seus familiares.

5 Conclusão
Permitiu-se concluir que a escrita de cartas, para Serafim, não constituíram somente uma maneira de preservar laços afetivos. As escolas em que esteve nas cidades de São Paulo e Florianópolis, possibilitaram, por meio das correspondências que enviou aos seus pais que estavam no Oeste Catarinense e/ou Rio Grande do Sul, que ele desenvolvesse sua escrita, além de que, através das epístolas, os pais continuaram a exercer controle sobre Serafim, consequentemente, influência em suas ações e decisões.
Por meio das cartas, pode-se notar como ele utilizava da escrita para dizer sobre si, representar, expressar, inventar e construir sua identidade ideal para as aprovações familiares. Ademais, a carta possivelmente estava para Serafim como uma possibilidade de se conectar com sua família e, talvez sem perceber, ele se locomovia para além do seu papel de filho, podendo com sua escrita encontrar mais espaço, e meios de alcançar objetivos, do que com sua própria voz, já que era possível escrever o que não se falava.

Referências

DALLABRIDA, Norberto. Disciplina e Devoção: o Ginásio Catarinense na Primeira República. In: II Congresso Brasileiro de História da Educação, 2002, Natal. Anais do II Congresso Brasileiro de História da Educação - História e memória da educação brasileira. Natal- RN: Editora Núcleo de Arte e Cultura da UFRN, 2002. p. 1-10.

DIAZ, Brigitte. O Gênero epistolar ou o pensamento nômade. São Paulo: Edusp, 2016.

HAROCHE-BOUZINAC, Geneviève. Escritas Epistolares. São Paulo: Edusp, 2016.

Palavras-chave: Oeste Catarinense; História; Escrita Epistolar; Família Bertaso; Cultura escrita.

Financiamento
Universidade Federal da Fronteira Sul
 

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Thalia Faller, Universidade Federal da Fronteira Sul, Chapecó
Publicado
14-09-2018
Como Citar
FALLER, Thalia; MACHADO, Ricardo. CULTURA ESCRITA NO OESTE CATARINENSE: PROBLEMAS DA ESCRITA EPISTOLAR NO ACERVO DE CORRESPONDÊNCIAS DE UM EMPRESÁRIO DA COLONIZAÇÃO. JORNADA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA, [S.l.], v. 1, n. 8, set. 2018. ISSN 2526-205X. Disponível em: <https://periodicos.uffs.edu.br/index.php/JORNADA/article/view/8536>. Acesso em: 16 jan. 2019.