Walter Fernando Piazza entre memórias, folclore e patrimônio catarinense
Giane Maria de Souza[1]
PIAZZA, Walter Fernando. Se elas falassem… Contos da minha terra. Florianópolis: Edição do autor, 2025.
O livro Se elas falassem… Contos da minha terra, de Walter Fernando Piazza (1925–2016), foi publicado originalmente em 1949 em edição do autor. Considero a obra, em sua materialidade, um documento importante para o patrimônio imaterial catarinense, composto por lendas, costumes, vocabulários, tradições e causos que demarcam as tensões controversas dos períodos de colonização e imigração. Não por acaso, no ano anterior à publicação, em 1948, ocorreu o I Congresso de História Catarinense, sob os auspícios do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC), e fundou-se a Comissão Catarinense de Folclore (CCF) — duas instituições que contaram com o protagonismo de Walter Piazza em sua composição e atuação. Este livro é a primeira obra publicada do autor. Nela, registrou para a posteridade as 13 histórias transmitidas oralmente por sua avó paterna, Maria Luiza Boiteux Piazza (1868–1945), a dona Bicota. Ela era carinhosamente chamada por ele de um “repositório” de “tradições” da cidade de Nova Trento e arredores, no Vale do Rio Tijucas. A região recebeu um grande fluxo imigratório de trentinos em 1875, integrando a antiga Colônia Itajahy-Príncipe Dom Pedro antes de ser emancipada como município em 8 de agosto de 1892.
Por ocasião do centenário de nascimento do intelectual, em 2025, a obra ganhou uma segunda edição — também do autor —, organizada e comentada por sua filha, Maria de Fátima Fontes Piazza, professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nesta versão, a pesquisadora apresenta a árvore genealógica de Walter Piazza a partir da ascendência familiar franco-suíça como marcadores iniciais dos grupos Boiteux e Piazza, inserindo-os nocircuito geracional das famílias de imigrantes e migrantes italianos no Sul do país. Composto por comerciantes, militares, profissionais liberais, servidores públicos e políticos, esses núcleos familiares foram protagonistas na história política e no campo do patrimônio catarinense, cujo legado é um rico acervo documental e iconográfico custodiado pelo IHGSC.
O patriarca Henrique Carlos Boiteux (1838–1894) foi da Guarda Nacional, título honorífico concedido pelo Império Brasileiro, comerciante e o primeiro superintendente (prefeito) de Nova Trento, tendo papel fundamental em sua emancipação política. Ele escreveu a monografia Nova Trento. Seu bisneto, Walter Fernando Piazza — filho de Romeu Arthur Boiteux Piazza (1887–1970) —, consolidou-se como um intelectual prolífico: publicou 27 livros, organizou inúmeras coletâneas e foi coautor de dezenas de obras e artigos científicos na área de Ciências Humanas, no Brasil e exterior, além de assinar colunas de opinião na imprensa diária. Sua produção intelectual versa fundamentalmente sobre folclore, culturas populares, imigração, colonização e História de Santa Catarina, sua atuação perpassou também pelas áreas de Arqueologia, Arquivologia e Museologia. Participou de numerosas instituições culturais e científicas.
Em Se elas falassem… Contos da minha terra, Walter Piazza percorre os itinerários memorialísticos de sua avó em narrativas orais que remetem ao imaginário do processo colonizatório e de povoamento de Nova Trento e região, período em que os grupos imigratórios disputavam os territórios com os povos originários. Esses espaços de colonização revelam-se, portanto, como palcos de disputa pela memória, pela história e pelo patrimônio.
Forjavam-se nesses locais novas paisagens, arquiteturas, ofícios, saberes e fazeres, mas também conflitos, violências e estruturas sociais constituídas pelo racismo e pelo sexismo — marcas que podem ser percebidas nos contos narrados por dona Bicota. As mulheres praticamente inexistiam enquanto sujeitos da história.
Uma espécie de região imaginária vai sendo vocalizada pelas águas do Ribeirão do Alferes, um afluente do Rio do Braço, que por sua vez deságua no Rio Tijucas Grande. A origem do lugar é explicada logo no primeiro conto, Os bugres e os alferes, no qual o vocábulo “Alferes” denomina o ribeirão que corta o cenário onde ocorreu um massacre de indígenas comandado pelo alferes e ordenado pelo Presidente da Província de Santa Catarina.
Desse território partem as histórias de dona Bicota, articuladas por Walter Piazza como um núcleo irradiador das lembranças dos primórdios da colonização. Com uma certa licença poética, considero que o Ribeirão do Alferes, um pedaço de chão, tenha para Piazza o estatuto similar que Macondo representou para Gabriel García Márquez ou Pasárgada para Manuel Bandeira: espaços literários e imaginários que circunscrevem lugares reais repletos de profundos conflitos humanos e existenciais.
A apresentação do livro, escrita por Maria de Fátima Fontes Piazza, é uma verdadeira aula de História sobre Santa Catarina, um estado cuja trajetória ainda é fortemente marcada por relações de parentesco, compadrio, poder e vizinhança. A historiadora disserta sobre as origens dos Boiteux e dos Piazza, refletindo sobre os itinerários sociais, econômicos e culturais percorridos por esses grupos até culminar nesta troca geracional do autor com sua avó, que lhe forneceu o repertório necessário para salvaguardar a memória oral.
A família, enquanto instituição, deve ser compreendida como uma categoria histórica determinante para a formação do capital cultural e social de determinados indivíduos. Os estudos prosopográficos (biografias coletivas) nos ensinam a importância do eixo familiar para delinear o perfil político e intelectual das gerações que viveram as grandes transformações do século XX. Portanto, a reflexão histórica sobre esses legados ultrapassa os espaços de consagração da história oficial — sobretudo os mitos fundadores europeizados do estado de Santa Catarina, muitas vezes difundidos pelo IHGSC, que historicamente enalteceram o imigrante branco de origem europeia (especialmente o açoriano-madeirense e o germânico) em detrimento da presença indispensável do negro escravizado e do autóctone indígena na construção da sociedade catarinense.
Na edição de 2025, a professora Maria de Fátima articula conceitos da História Oral e da Literatura para situar o livro em seu tempo e espaço, lidando com os antagonismos da oralidade e as idiossincrasias dessa forma de comunicação, especialmente na velhice, a transmissão de histórias da avó para seu neto. Existem riscos e fascínios de se trabalhar com a memória dos idosos, sobretudo, dos indivíduos que já não exercem sua antiga função social e resgatam suas lembranças em narrativas memorialísticas a partir de uma releitura pessoal e ideológica dos fatos. Os contos de dona Bicota são histórias ouvidas e reproduzidas por ela que remetem à própria fundação de Nova Trento, e assim, repassadas para outras gerações até o momento do registro impresso no livro de Piazza.
A obra é composta por 13 contos que trazem um vocabulário controverso e carregado de preconceitos da época — termos como bugres, bugreiros, gentio, mulato, sinhá, sinhô, silvícolas, mestiçagem e pacificação. Ao serem tensionados, esses conceitos explicitam os dilemas “civilizatórios” dos séculos XIX e XX. Na nova edição, eles são cuidadosamente esclarecidos por Maria de Fátima Fontes Piazza nas notas de rodapé à luz das categorias críticas do século XXI. Isso transforma o livro em um documento/monumento para o patrimônio material e imaterial catarinense, com múltiplas camadas de leitura e subtextos, tornando-o uma fonte histórica viva e um produto de seu tempo, um recurso didático para uma oportuna revisão historiográfica e literária.
A problematização dessas narrativas que povoam o imaginário das pequenas cidades catarinenses auxilia na análise crítica de como o estado ainda se projeta nacionalmente: como fruto de hegemonia estritamente europeia, negligenciando as contribuições dos povos originários e de matriz africana.
No primeiro conto, Os bugres e os alferes, a violência é explícita ao narrar o massacre indígena: “Mataram e mataram barbaramente, selvaticamente, homens, mulheres e crianças, que não tiveram nem o direito de defesa física” (Piazza, 2025, p. 24). O texto evoca conceitos como propriedade privada, pacificação e extermínio, fomentando o debate sobre o apagamento cultural dos povos originários e sua desterritorialização. Já o último conto, E as águas falaram…, reforça que se as margens do Ribeirão do Alferes pudessem falar, seriam testemunhas de inúmeros traumas silenciados. Em contrapartida, a ideia de que os povos originários eram os verdadeiros donos da terra é reiterada na obra: “[...] bugres, os legítimos donos da terra úbere e bela” (Piazza, 2025, p. 63). O colono, por sua vez, surge como um desbravador amedrontado e empobrecido, mas obstinado pelo trabalho. O negro escravizado, embora retratado sob a violência dos donos da terra, aparece nas narrativas resistindo por meio de estratégias de sobrevivência. Destaca-se o conto A queimada dos escravos, que narra a história do Conselheiro Jerônimo, cuja fortuna sustentava-se no regime escravista: “Era o sangue da raça negra que consolidava aquela economia ruralista” (Piazza, 2025, p. 54). No final desta história, o negro escravizado, para vingar-se dos castigos corporais que recebia, incendeia a propriedade rural.
A história da emancipação de Nova Trento é narrada no livro por meio do conto O presidente e a senhorinha. A criação da freguesia e do Distrito de Paz de Nova Trento foi sancionada pelo presidente da Província de Santa Catarina, o doutor Francisco Luís da Gama Rosa (1851-1918), em 4 de abril de 1884. O baile para recepcionar o presidente no Paço Municipal e a mobilização das “moças casadoiras” e das famílias de elite são destacados em meio às confusões geográficas nas províncias e nas colônias de acordo com o olhar feminino.
Em suma, a segunda edição do primeiro livro de Walter Piazza, graças ao trabalho minucioso de Maria de Fátima Fontes Piazza, insere essas questões controversas em seus devidos contextos. O aparato crítico ajuda o leitor contemporâneo a situar a visão de mundo dos grupos imigratórios sem mascarar o preconceito e a violência, expondo a escrita da história e do patrimônio como um campo de disputas e processos antagônicos. Observa-se, por meio dos contos, como as referências culturais são construídas em detrimento da destruição de outras. Em documentos históricos, como é o caso do livro reeditado, a terminologia em desuso é um instrumento didático-pedagógico para a apreensão de novas expressões e conceitos históricos.
No rol da historiografia catarinense, a produção da geração de Walter Piazza merece ser redescoberta pelas novas gerações de historiadores — hoje hiperconectados em apps e smartphones — para que compreendam como as bases das nossas metodologias, conceitos e identidades foram originalmente construídas.
Recebido em 18/05/2026.
Aceito em 16/07/2026.
[1]Doutora em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e mestre em Educação pela Unicamp. Especialista Cultural no Arquivo Histórico de Joinville. Brasil. E-mail: gianehist@gmail.com| https://orcid.org/0000-0002-7067-6597