No marco do aniversário de 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial, o Grupo de Trabalho História do Tempo Presente, da ANPUH-SC, traz ao público o dossiê Conflitos Contemporâneos e Tempo Presente, organizado pelos professores Wilson de Oliveira Neto (Univille) e Reinaldo Lindolfo Lohn (UDESC). Guerras e conflitos armados acompanham a humanidade há muito tempo, sendo antigos e recorrentes recortes temáticos dos estudos históricos.
Seria a guerra a extensão da política por outros meios, conforme definiu o general prussiano Carl von Clausewitz? Ou seus sentidos e significados variam no tempo, como é possível constatar na tese de Florestan Fernandes sobre o sentido da guerra entre os tupinambás? Como em outros temas de História, as guerras e os conflitos armados refletem a complexidade e a diversidade humanas, podendo ser interpretados e narrados de diversas formas, como será possível constar nas publicações que compõem este dossiê.
Por outro lado, a industrialização das guerras, ao ampliar massivamente o poder destrutivo de novos armamentos, alterou não apenas as táticas e estratégias militares, mas impactou profundamente as relações sociais e os mecanismos de controle dos Estados nacionais sobre suas populações. De confrontos entre forças armadas, as guerras passaram a ser vistas como conflitos entre sociedades, do que se desdobraria o fenômeno da guerra total. Não mais distinguindo militares e populações civis, os bombardeios aéreos e os ataques de poderosas armas de destruição em massa lançadas a distância, incluindo obviamente a tecnologia nuclear, geraram experiências fatais e aterradoras para milhões de vítimas, bem como passaram a provocar o temor da destruição completa em escala global, algo que povoou os imaginários sociais de nossa época.
A guerra assumiu a forma da catástrofe para diferentes coletividades humanas, um demarcador histórico fundamental, podendo figurar entre os processos que Henry Rousso considera capazes de manter viva uma relação conflituosa entre memória, história e justiça. Abertas e irresolvidas, diferentes questões sociais em escala internacional seguem sendo tratadas por meio da violência da guerra, como a que se abate neste momento sobre diferentes populações indefesas diante do poderio descomunal da tecnologia militar. Assim, as guerras seguem a afetar não apenas suas vítimas, mas toda uma época. É perceptível, portanto, a relação entre guerras totais e tempo presente, sendo este constituído de experiências culturais diversas afetadas por violações a populações inteiras.
Em Ensinar aos surdos-mudos tão bem como aos que ouvem e falam”: o Instituto Imperial de Surdos-Mudos em questão, Eloiza Bastos, Roberta Barros Meira e MariluciNeis Carelli avaliaram o funcionamento do Instituto Imperial de Surdos-Mudos, em funcionamento durante o Segundo Reinado (1940-1889). Para as autoras, a instituição surgiu de forma pioneira no Brasil por meio da circulação de ideias entre a Europa e o Brasil, que adaptou as técnicas estrangeiras para atender à realidade brasileira da época, sendo uma instituição relevante para a educação de surdos-mudos no país.
Fernanda Jaqueline Dornelles Welter e Antonio Marcos Myskiw problematizaram a invisibilidade de historiadoras nas publicações que abordam os perfis biográficos dos grandes expoentes da escrita da história. No artigo As historiadoras e a luta por visibilidade acadêmica, empreenderam uma pesquisa que evidenciou a significativa contribuição feminina nos estudos históricos no Brasil, muitas das quais pioneiras em diversos domínios e recortes temáticos.
Ensino de História e Transtorno do Espectro Autista: reflexões de/em experiências, de Igor Lemos Moreira, analisou os potenciais do ensino de História para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com ênfase na centralidade da mediação e da inclusão de estudantes neuro-divergentes por meio da História.
Em Vozes e silêncios sobre as infâncias e mulheres: discursos sobre HIV/aids na imprensa catarinense (1990-2000), Lincon Gomes Borges e Ismael Gonçalves Alves analisaram as formas com que crianças e mulheres com HIV/AIDS foram representadas na imprensa catarinense. Segundo os autores, a imprensa periódica de Santa Catarina desempenhou um papel importante na reprodução de estereótipos e estigmas sociais sobre os sujeitos soropositivos, além de responsabilizá-los pela sua própria condição.
Em O que há de novo na história do Brasil na Segunda Guerra Mundial?, Wilson de Oliveira Neto entrevistou o historiador Giovanni Latfalla, especializado na história do Brasil na Segunda Guerra Mundial, com ênfase na aliança militar entre o Brasil e os Estados Unidos, os observadores brasileiros no norte da África e a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Na entrevista, Latfalla explica as novidades sobre o Brasil no conflito, em particular na difícil composição de uma aliança militar com os Estados Unidos e na defesa dos interesses nacionais no começo da Segunda Guerra Mundial pelas lideranças políticas e militares brasileiras.
Já na entrevista Considerações sobre a Guerra da Ucrânia, foi entrevistado o historiador Sandro Teixeira Moita, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). O entrevistado contextualizou as origens do conflito e esclareceu suas continuidades e, principalmente, suas rupturas com as guerras anteriores, especialmente, no que se refere aos empregos de novos armamentos, como por exemplo, os projéteis errantes.
O dossiê é encerrado com a resenha do livro Os monstros de Hitler, do historiador estadunidense Eric Kurlander. As relações entre o movimento/regime nacional-socialista são conhecidas há muito tempo e recorrentes na indústria cultural. Será possível narrar uma história do sobrenatural no Terceiro Reich sem cair no charlatanismo ou na caricatura? Para Kurlander, a resposta é sim, uma vez em que o sobrenatural foi um componente importante da mentalidade da sociedade alemã da época de Hitler.
Carlos Eduardo Cardoso, no artigo É lei no Brasil nascer livre: liberdade nos registros eclesiásticos, Palmas/Paraná, analisou os impactos da Lei do Ventre Livre, de 1871, na região de Campos de Palmas, no Paraná. Segundo seu autor, embora a referida lei tenha sido um passo na luta pela abolição da escravidão no Brasil, ela não garantiu a efetiva liberdade dos nascidos, perpetuando relações de dominação e controle sobre os corpos dos escravizados pelos seus senhores.
Taís GiacominiTomazi e Beatriz Teixeira Weber abordaram a dinâmica sociocultural e econômica na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, entre 1851 e 1881, no artigo Animais do espaço fronteiriço: outros sujeitos possíveis para pensar o tema do cotidiano em um contexto de fronteira (Fronteira Oeste/RS, segunda metade do século XIX). Foi constatada a existência de diversos sujeitos com experiências sociais em torno de um cotidiano rural.
A experiência da guerra marca o tempo presente de modo indelével. A relação da historiografia mudou profundamente, na medida em que a responsabilidade ética com as vítimas passou a pressionar o trabalho de historiadores e historiadoras, que não mais podem se esquivar de questões que marcam o debate público e as demandas por justiça. Punições coletivas, deslocamento de populações e novas formas de colonialismo e imperialismo seguem a afetar e a ceifar vidas em diferentes regiões do mundo, não apenas em casos notórios, como o que neste momento afeta a população de Gaza, mas em situações pouco conhecidas. As imagens mais recorrentes e chocantes não são capazes de dar conta de uma experiência definitiva para milhões de pessoas. Trata-se de um problema historiográfico fundamental, portanto: como abordar conflitos que, embora tenham razões remotas, seguem em andamento, afetando vidas e coletividades inteiras, sem perder o senso de justiça.
Prof. Dr. Wilson de Oliveira Neto (Univille)
Prof. Dr. Reinaldo Lindolfo Lohn(UDESC)
Organizadores do DossiêConflitos Contemporâneos e Tempo Presente