Animais do espaço fronteiriço: outros sujeitos possíveis para pensar o tema do cotidiano em um contexto de fronteira (Fronteira Oeste/RS, segunda metade do século XIX)
Animals of the borderland: other possible subjects to think the daily life in a border context (Fronteira Oeste/RS, second half of the 19th century)
Taís GiacominiTomazi[1]
Beatriz Teixeira Weber[2]
Resumo
Esta pesquisa examina a dinâmica sociocultural e econômica do cotidiano rural na fronteira oeste do Rio Grande do Sul entre 1851 e 1881, com foco nas cidades de Alegrete, São Borja e Uruguaiana, com especial atenção à importância dos animais domésticos no cotidiano e suas correlações com elementos da cultura material. Situada no contexto da consolidação das fronteiras do Império brasileiro, a região caracterizou-se por uma economia baseada na pecuária, mas também por atividades comerciais emergentes, pela produção de alimentos e de serviços, configurando um espaço de interseção entre o rural e a fronteira. A pesquisa combina uma abordagem quantitativa – por meio da análise de 150 inventários post-mortem– com uma investigação qualitativa de inspiração micro-histórica. Os resultados mostram a presença de diferentes sujeitos e experiências cotidianas que também incluem a existência e a participação dos animais na formulação do cotidiano rural e fronteiriço – na transformação do espaço e das relações sociais, atuando como mediadores entre os sujeitos e o ambiente, e o potencial desse tipo de tema de pesquisa no campo da História.
Palavras-chave: Cotidiano; Animais; Fronteira.
Abstract
This research explores the socio-cultural and economic dynamics of rural daily life on the western border of Rio Grande do Sul between 1851 and 1881, focusing on the towns of Alegrete, São Borja and Uruguaiana, with special attention to how domestic animals were important to daily life and its correlations to material culture elements. Located in the context of the consolidation of the frontiers of the Brazilian Empire, the region was characterized by an economy based on livestock, but also by emerging commercial activities, food production and services, configuring a space of intersection between the rural and the frontier. The research combines a quantitative approach – through the analysis of 150 inventories – with a micro-historical qualitative investigation. The results show the presence of different subjects and daily experiences that also included the existence and participation of animals in the shaping of rural and borderland daily life – in the transformation of space and social relations, acting as mediators between subjects and the environment, and the potential of this type of research topic in the field of History.
Keywords: Everydaylife; Animals; Borderland.
Introdução
Por elloelanálisis histórico decimonónicodebe incorporar a lafrontera a través delestudiodeldoblamiento, elusufructo y propiedad de latierra, laconstitucióndel Estado y lasinstituciones, lasdinámicas de losintercambios y el mercado, laalteridad y losabordajesmulticulturales para pensar lacohabitación y coexistencia de actores y comportamientos dentro de lasdinámicassociales (Schmit, 2008, p. 8-9).
O espaço fronteiriço da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul transita entre peculiaridades regionais e semelhanças globais. Apresenta semelhanças quando pensado em relação à composição dos cenários domésticos oitocentistas, por exemplo, e as peculiaridades de um cenário geográfico e ambiental que possibilitou a formação de uma caracterização econômica na pecuária (Farinatti, 2010b;Minuzzi, 2024). As semelhanças materiais se verificam quando analisado o tipo de mobiliário compositor das residências inventariadas e a identificação de itens comuns, como baús, catres, cadeiras e bancos e a gradual inserção de sofás, armários, guarda-roupas e camas como objetos de uso familiar e doméstico (Tomazi, 2025). Ao longo do período, era recorrente a presença de escravizados, identificados nas avaliações e descrições dos “Bens Semoventes” nos inventários. Percebe-se a importância dos animais domésticos e comerciais nas listagens dos documentos enquanto um enlace entre o cotidiano e o econômico. Estes últimos eram parte tanto da vida cotidiana, quanto da alimentação e nas atividades socioeconômicas da região e acrescentam informações acerca da inserção em um território ostensivamente ocupado ao longo dos séculos. É especialmente sobre o potencial de análise dos animais na vida cotidiana que este texto se fundamenta, explorando outros sujeitos diversos no contexto histórico analisado[3]. Trataremos, então, do ponto de vista documental, especialmente de animais arrolados em inventários coletados em pesquisa sobre a vida cotidiana nas vilas de Alegrete, São Borja e Uruguaiana na segunda metade do século XIX. Foram coletados para serem pensados em um formato serial/quantitativo seguidos de análises qualitativas resultantes dos processos metodológicos. O período de coleta foi para os anos de 1851, 1861, 1871 e 1881[4], recorte pensado para ser possível a elaboração de uma análise mais longa no período e na Figura 1 indicamos a localização geográfica das vilas investigadas, o que ajuda a compreender a proximidade fronteiriça dos espaços de pesquisa em questão.
Figura 1: Localização de Alegrete, São Borja e Uruguaiana

Fonte: Elaboração de SILVA, Greice Perske da, 2023 para uso de TOMAZI, Taís Giacomini.
As palavras de Roberto Schmitt (2008), expressas no trecho de abertura, refletem como a fronteira foi e é incorporada enquanto um agente não intencional e parte da composição da dinâmica cotidiana, sendo importante compreendê-la para mobilizar os sujeitos no espaço e, por isso, também nos preocupa inserir a pesquisa em seu contexto geográfico, espacial e ambiental. Nos interessa especialmente explorar agências e sujeitos que complementam o tema do cotidiano em um espaço fronteiriço no Pampa, como os animais domesticados que eram comuns ao contexto pecuário e na vida familiar oitocentista, a exemplo das reses, os cavalos, as éguas, os bois e as mulas. Comuns, porém despercebidos.
Os animais enquanto dados de investigação, são extraídos nesta pesquisa através dos exercícios metodológicos no conjunto próprio do processo de investigação da tese[5]. Busca-se identificar outros caminhos e possibilidades para pensar o cotidiano, tornando os indícios sobre a experiência diária mais próximos de reflexões como o saber fazer da vida rural, cujos elementos formadores estabeleceram-se no processo de construção do cotidiano em uma zona fronteiriça e afastada (Certeau, 1994;Ardener, 2012) e, consequentemente, instigar resultados que ainda não foram explorados até as recentes pesquisas, lançando novas percepções sobre a região, sujeitos e a documentação investigada [os inventários].
O século XIX foi um período de grandes transformações para o Brasil[6]. No início do século, a vinda da família real modificou as experiências em muitas frentes e abriu o território brasileiro para a possibilidade de outras experiências socioculturais, como a produção e publicação de periódicos e a vinda de estrangeiros na condição de viajantes, colocando o espaço geográfico enquanto um território a ser explorado e “pensado”. A perspectiva de melhor definir as fronteiras ao sul do império e a ocupação de territórios “livres”[7] também tomou destaque como um meio para demarcar geograficamente e culturalmente as fronteiras[8].
Enquanto na Europa, o processo de industrialização, especialmente a Inglaterra, alterou a vida cotidiana das populações de forma mais acelerada (quando comparado a outros cenários no mesmo período), a situação no território brasileiro e outras regiões da América tinha contornos próprios, que seriam introduzidos ao capitalismo mundial do século XIX, nas lógicas da produtividade e rentabilidade e no consumo como prática cotidiana. Na Fronteira Oeste, os campos do Pampa seriam utilizados e tornados produtivos pelo trabalho humano, que é civilizatório das regiões “naturalmente” incivilizadas pela natureza vazia e pela presença indígena e, por fim, inseridos nos resultados econômicos eficientes do sucesso.
A progressiva inserção de uma urbanidade almejada e a potência social (além de econômica) da posse de terras e animais, identifica um intenso comércio fronteiriço que inseriu a região em um cenário mais amplo, que foi fundamental para pensarmos as vilas investigadas no tema da vida cotidiana[9]. Os indícios deste processo podem ser identificados em análises documentais, na posse de propriedades rurais e urbanas por um mesmo indivíduo, por exemplo, demonstrando a transição entre espaços. Tomamos como elemento de análise o Pampa com ênfase na região fronteiriça entre Alegrete, São Borja e Uruguaiana: em complemento ao contexto econômico e social europeu, correntes teóricas vigentes, como o neo-iluminismo e o romantismo, ordenaram a forma de percepção do mundo, especialmente em relação ao mundo natural e às formas de dominar os territórios. O historiador João Minuzzi (2024, p. 21) argumenta que “o surgimento e crescimento do romantismo no final do século XVIII na Europa modifica a forma de pensar a natureza que entra em choque com uma linha de pensamento neo-iluminista”, que era, até então, mais presente no imaginário e voltada para uma ocupação territorial e econômica que fosse racional e produtiva em relação à natureza. Segundo o autor, tanto o romantismo, quanto o contraste em relação ao pensamento neo-iluminista, refletiram na maneira como se percebia e interagia produtivamente com o Pampa ao longo do século XIX, com características ambientais de territórios com pouca ondulação, vegetação mais rasteira e pouca presença de florestas (apesar de ocorrerem em algumas regiões)[10].
A ideia de monotonia do Pampa foi presente, construído com a produção pecuária como um cenário imaginado que dava espaço para a racionalidade da produção, em contraposição e correlação a uma visão idealizada de campos sem fim, pela ausência de limites expressivos. Além das próprias categorias gerais (Bens móveis, Semoventes, Escravizados e Bens de Raiz), os Bens de Raiz foram divididos em diferentes subcategorias, para um mapeamento mais direcionado. Dentre as subcategorias estão: arvoredo, benfeitoria, casa, campo, chácara, comércio, meia água e rancho terreno e possibilitou conexão ao tema do estudo dos animais, já que, em algumas dessas categorias, é possível identificar construções e benfeitorias relacionadas à produção e manejo de animais, bem como ausências que caracterizam a região, como a quase inexistência, nesta amostra, de chiqueiros para porcos, por exemplo.
Percebendo sujeitos em um espaço de disputa
A presente seção tem como tema pensar em que medida as ocupações do território fronteiriço foram importantes para estabelecer características comuns ao cotidiano na região da fronteira oeste do Rio Grande do Sul ao longo do século XIX, especialmente sua segunda metade, tendo em vista que concebemos que animais e espaço estão correlacionados. Para isso, analisamos os dados relativos principalmente aos Bens de Raiz enquanto dados sobre a ocupação estrutural e as características das propriedades, extraídos de inventários fronteiriços, mas integrando-os aos demais bens categorizados no banco de dados e à historiografia do período, que foi fundamental para compreender o cenário rural e pecuário que buscamos analisar.
Viver em uma região fronteiriça[11] e, permeada por disputas, exigia uma composição de elementos espaciais e sensoriais cotidianos, dos sujeitos e das pessoas e seus papéis naquela sociedade. Ocupar a fronteira era uma ação importante no estabelecimento dos interesses individuais e imperiais oitocentistas e torná-la produtiva era um dos meios de fazê-lo. O entendimento dessa dinâmica garantia que os grandes proprietários de terras e gado tivessem maior possibilidade de manobra de recursos no período e que o Império também pudesse ter um certo movimento nas bordas mais ao sul do território. Segundo Carla Menegat (2013; 2020), até o fim do século XIX, ainda após o fim do controle sobre o Uruguai, muitos brasileiros, ou súditos do império do Brasil, ainda tinham terras em diferentes e extensas localizações na faixa de fronteira, cujo objetivo econômico principal era a produção de gado.
As imagens criadas sobre o Pampa e a fronteira oeste são permeadas por propósitos de ocupação que atendiam os interesses políticos e de colonização no período. A historiografia sobre a região das últimas décadas promoveu uma transformação importante no sentido de explorar mais detidamente diferentes formas de viver e ocupar a fronteira, considerando especialmente um trabalho de pesquisa documental e metodologias que possibilitam expandir a percepção sobre viver na fronteira oitocentista. Minuzzi (2017; 2024) apresenta o cenário ambiental que constitui o Bioma Pampa e suas principais características que auxiliaram na formação de uma economia voltada à pecuária. Uma das principais características físicas do Pampa enquanto bioma é a pouca ondulação do terreno, somado a pequenos capões de mato e vegetação campestre, possibilitando a criação e arrebanhamento de bovinos. Por outro lado, sendo sempre contraposta a outros cenários de vegetação mais fechada, como a Mata Atlântica, por exemplo, que fornecia mais materiais para uso em contextos de colonização[12], em especial a madeira. O ideário relativo à ocupação da “natureza” é baseado na ideia de floresta que havia sido construído no cenário europeu, “além disso, o grande centro econômico e populacional do país está concentrado no bioma florestal da Mata Atlântica, e a construção da identidade dos brasileiros foi muito pautada nos elementos tropicais e representativos desses dois espaços” (Minuzzi, 2024, p. 38). Como pondera Minuzzi (2024), não há uma uniformidade na vegetação do bioma em toda a sua extensão, já que a nomenclatura dos aspectos geográficos varia entre a classificação de cada país, sendo no Brasil tratado como bioma[13], e que esta ideia de monotonia, vazio e uniformização das características vegetais é também uma das formas de tentar civilizar o território. Na figura abaixo é possível verificar a distribuição dos biomas Mata Atlântica e Pampa no território rio-grandense e com destaque para a América do Sul, demonstrando a extensão deste bioma que é fundamental na análise da pesquisa.
Figura 2: Distribuição do bioma Pampa na região do Rio Grande do Sul

Fonte: Organização e elaboração PEZETI, Mateus; MINUZZI, João Davi Oliveira; SÁ, Debora Nunes de (2021). Original disponível em: https://periodicos.uffs.edu.br/index.php/FRCH/article/view/12655.
Não se trata de minimizar a existência dos estancieiros e peões, mas sim perceber outros mais no caminho, entre humanos e não-humanos não hegemônicos. A própria ideia de insegurança generalizada contribuiu para que a ocupação do Pampa tivesse adicionada uma camada mítica sobre sujeitos errantes e desgarrados, já debatidos também historiograficamente. Farinatti (2010a) explora inclusive a distribuição dos pagamentos e das relações familiares de uma amostra de peões alegretenses e demonstra que a ideia do gaucho errante montado a cavalo não explica os sujeitos fronteiriços como o imaginário sobre o passado poderia inferir. Era uma outra forma pejorativa de notar os indígenas após diversos séculos de colonização da região que, por vezes, acabavam sendo cooptados para o trabalho em propriedades de outrem.
Na análise dos inventários, não encontramos tantos indícios desta ocupação quanto gostaríamos sobre estas ocupações além Império, por isso a historiografia é importante como aporte para nos apresentar uma noção mais ampla, que não depende exclusivamente da particularidade dos dados. Na amostra, encontramos o inventário de Basilica Saldanha[14], de 1881 em Uruguaiana, cuja atividade socioeconômica (ASE) foi classificada como “Rural sem identificação” em razão da indefinição de sua atividade ou do real montante dos seus bens, em que constam tanto animais quanto propriedades no Estado Oriental (atual Uruguai), como consta na fonte. Percebe-se, pelas dívidas e outros documentos, que havia uma movimentação na região e, por isso, também é possível que o montante dos bens da falecida tivesse passado por modificações ao longo da sua vida e morte[15].
Em uma tentativa de exercício, considerando que um cavalo bem treinado conseguisse percorrer de 30 a 50 km por dia, a ida para qualquer uma dessas cidades demoraria, pelo menos, uma semana, com sorte dos animais serem bem treinados, terem bom estado de saúde e sem nenhuma intempérie ou problema ao longo do caminho, também sem considerar a possibilidade de perder-se. Imaginemos agora esse processo considerando carroça e carretas. A locomoção exigia planejamento, sorte e condições de mobilizar comercialmente o interior da província do Rio Grande de São Pedro, tornando o comércio pelo Prata uma possibilidade, por vezes, mais viável. Os viajantes que passaram pela região relacionam essas viagens e distâncias ao tema da relação próxima entre indivíduos e animais, os vínculos estabelecidos possibilitaram viagens eficientes e a formação de laços culturais, já que os cavalos foram inseridos na região desde a metade do século XVI.
Circular pelo território era uma necessidade e uma prática comum e envolvia longos deslocamentos. Os itens de montaria são um exemplo de coisas importantes na perspectiva de uma representação social rural do cotidiano fronteiriço no período. Os arreios, estribos e todo o conjunto de coisas que eram usadas para montar cavalos e mulas – animais domesticados que aparecem nas nossas fontes. Os animais, portanto, desempenhavam um importante papel de deslocamentos pelos caminhos do Pampa. O imaginário oitocentista comum sobre áreas urbanizadas poderia nos levar a pensar sobre as ferrovias (Blois Filho, 2018)[16] e como elas eram importantes em diversos cenários a nível de Brasil Império e Europa. Mas, não é o caso da fronteira oeste. As ferrovias passaram a ser incorporadas na infraestrutura da região apenas no fim do século XIX e início do século XX[17], fazendo com que a presença de animais de tração e próprios para as lidas e viagens se mantivessem como importantes meios de deslocamento. Então, temos que considerar que a locomoção na fronteira dependia da movimentação humana, material e animal como elemento básico, antes de se estabelecerem as características de uma modernização como visto em outras regiões.
Carroças, cavalos, mulas ou, em último caso, a pé, assim era o deslocamento dos sujeitos na fronteira. Em jornais do período são identificados anúncios de carruagens fazendo o transporte de pessoas e bens entre as vilas com certa regularidade para o fim do século XIX, especialmente a Gazeta de Alegrete[18], cujas páginas de propagandas continham a divulgação de carros fazendo o trajeto Alegrete-Uruguaiana e vice-versa, e outras direções. Assim, os indícios de como essa movimentação ocorria, a periodicidade e o motivo das viagens, e do que representava no processo de troca comercial e social para o período, corroboram a importância comercial da produção de animais de tração na região. Nos inventários da amostra são diversos os documentos em que são avaliados tanto cavalos, éguas “em cria” e “sem cria” e potros. Esses animais formavam um circuito comercial que supria as necessidades locais e regionais e impulsionava a criação de animais cavalares para o comércio local. Ainda é um campo a ser explorado com mais profundidade em pesquisas futuras.
Em complemento, é importante considerar que o Brasil, durante o Império, teve um aumento evidente nas atividades comerciais em algumas regiões, especialmente combinadas com malhas ferroviárias. Porém, o papel dos animais na interiorização desses contatos e na expansão de rotas comerciais não fica em segundo plano. São Paulo, por exemplo, na primeira metade do século XIX, era a mais complexa em conexão entre áreas rurais e urbanas. Abrahão (2008) argumenta que, no período, mercadorias vindas da Europa chegavam em São Paulo a partir do Porto de Santos ou da região do Vale do Paraíba. Além disso, o transporte era feito em comboios, em que as mercadorias eram carregadas no lombo de mulas ou em carroças, e a viagem levava em média de quinze a vinte dias.
Nesse sentido, o acesso e a locomoção continham dificuldades comuns à época e o papel dos animais se destaca por viabilizar a vida cotidiana naquele cenário. No Pampa, especialmente nas vilas da amostra de pesquisa, o bem de transporte existente e mais recorrente é a carreta, que aparece entre os bens arrolados na categoria de bem móvel. Havendo carretas, a possibilidade de terem também animais para seu transporte era proporcional. Verifica-se que 30% dos inventários da amostra tinham apenas uma carreta ou carretilha avaliada, e que a maioria deles foi classificada como “Rural sem identificação” e “Pequeno criador” (83%). Apesar da inexistência de outros meios de transporte, como ferrovias, o deslocamento de tropas e manadas desde a província do Rio Grande de São Pedro em direção ao sudeste e mais ao sul, pelas propriedades de rio-grandenses no estado oriental, ou para o litoral, era recorrente.
Percebe-se que a fronteira oeste era um espaço ou território em constante movimento, seja pelos indivíduos humanos e não-humanos ou pela relação imbricada que se estabelecia com o cotidiano rural. A fronteira oeste não era limitada ao contexto brasileiro, alguns inventários falam em propriedades no “Estado Oriental” e muitos produtores burlavam as legislações vigentes a fim de manter-se enriquecendo além-fronteiras, mobilizando suas tropas de gado pelas divisas e movendo-se com cargas, burros e cavalos. Por isso, adentramos um aspecto mais direcionado para as descrições das propriedades fronteiriças.
Animais na fronteira
Os animais a que nos referimos aqui são os domesticados e, no máximo, menções aos “chucros” encontrados nas avaliações e descrições de bens em inventários da região da Fronteira oeste no século XIX. Luís Augusto Farinatti (2010b) explica que o termo xucro está mais relacionado ao nível de domesticação pela qual passavam os animais, podendo ser xucros, porém, terem sido ainda pouco manejados, e não se referem a animais sem nenhum manejo ou controle, mesmo que fosse reduzido. Farinatti (2010b) afirma que, em um dos inventários por ele analisado, “constava a presença de 200 reses mansas, 340 reses de gado xucro ‘costeado’ e aproximadamente 700 reses de gado alçado. As primeiras valiam 9$000 e as segundas 7$000”, elaborando uma média de valor pertinente ao período. Verifica-se uma diversidade de trabalhos exercido no manejo de animais arrolados no inventário, além de diferentes níveis de domesticação dos mesmos, níveis que refletiam nos valores a eles atribuídos. O gado “xucro costeado” era o gado que não havia sido completamente domesticado, mas que já havia sido controlado pelos peões, o custeio dos animais significava que estava nos limites das propriedades, para serem castrados e marcados. Um gado “mais manso”, que havia sido propriamente amansado, era mais caro, pois havia também um valor investido no processo de domesticação daquele animal. Ele também afirma que este tipo de gradação era comum no contexto da região, o que também verificamos nos inventários da amostra de pesquisa, sendo separados animais mansos e xucros ao longo das descrições. Farinatti completa que
Nesta análise, há uma graduação bastante elucidativa em termos de domesticação que aparece como critério para a categorização dos animais criados. O que variava era o nível de domesticação dos animais. Com gado manso se faziam com mais facilidade todos os procedimentos atinentes à criação, denotando a aplicação de um grau mais intenso de trabalho. O gado xucro “costeado” era aquele que se procurava, na medida do possível, manter dentro dos limites dos campos de seus proprietários e sobre os quais certamente se efetuava a castração e a marcação” (Farinatti, 2010b, p. 294).
Os animais, assim, compunham as posses dos inventariados e suas famílias e auxiliaram no processo de classificação das atividades socioeconômicas (ASE) da amostra, justamente em razão da sua importância no conjunto do cotidiano. Os utilizamos e quantificamos para que fosse possível formular ASEs que estivessem minimamente relacionadas com o contexto pecuário e rural analisado, sendo a divisão entre gado xucro e manso um elemento importante na distribuição dos montantes dos inventários investigados. Outros animais classificados como xucros são as éguas, que podiam ainda aparecer como dispersas, ou seja, eram pouco manejadas e domesticadas, e eram importantes para reprodução de animais de carga. E, quando correlacionados os animais presentes nos inventários aos bens móveis e de raiz, por exemplo, é possível reconstruir o cenário doméstico do período: terras em sua maioria sem cercas, casas e galpões, animais, bens móveis, e objetos unitários. Os não-humanos são notados gradualmente como agentes que afetaram diretamente ou indiretamente o espaço, pessoas e outros elementos. A afetação ocorre de forma direta, pela interferência no território pelas migrações e movimentações – ordenadas e desordenadas – dos animais ao longo da segunda metade do século XIX e, indiretamente, na fertilização do solo e na propagação de espécies não nativas, aspectos que imprimem um conjunto de fatores que podem ser bastante ilustrativos da vida fronteiriça. Farinatti (2010b) explora um pouco da correlação entre sujeitos, com foco para a análise da dinâmica do manejo com as tropas de gado. A importância das nuances de domesticação de gado nas propriedades alegretenses oitocentistas indica que, a depender da menor domesticação, os animais acabavam estando mais passíveis de se afastarem dos limites das propriedades, cujo cercamento não era usual na segunda metade do século XIX. Sendo assim, a ordenação e manejo de animais evadidos dos limites das propriedades aumentava a demanda de trabalhadores para arrebanhar estes animais fugidos de forma a retomar ou aumentar o processo de domesticação, causando certa instabilidade às propriedades.
Os animais não eram, por si só, ordenados apenas nas demandas das pessoas que os possuíam. Elas necessitavam deles para seu sustento ou para o trabalho doméstico com a terra e no transporte das cargas de comércio. Dada a ausência de cercas, a circulação de pessoas e animais era comum na região, já que o processo de cercamento foi sendo inserido no cenário dos campos fronteiriços mais ao fim do XIX. O estudo dos animais enquanto um tema na pesquisa histórica não é “novo”, mas é sim uma novidade quando aplicado à fronteira oeste, especialmente relacionada à cultura popular e pecuária da região, cujo tema tem sido elaborado pelo viés econômico e cultural. Por isso, o estudo do cotidiano pensando os animais tornou-se possível e possibilitou perceber outros.
Farinatti (2010b) ainda analisa, pontualmente, a importância do aspecto ambiental na dinâmica da fronteira e o relaciona aos animais. Segundo o autor, “em tempos de seca, os rios e arroios tornavam-se rasos ou mesmo vazios, sendo facilmente vadeados pelas reses que partiam em busca de água e comida” (2010b, p. 292). Tal condição climática exigia que grupos de pessoas se mobilizassem para arrebanhar animais soltos, principalmente os que estavam sem marcação, o que nem sempre era possível e certamente era bastante custoso. Podemos pensar o mesmo para épocas de chuvas ou enchentes, com o aprisionamento de animais em uma região, falta de pasto ou na perda de alguns nas travessias dos rios e córregos. A influência da agência animal nos permite ampliar o escopo perspectivista. Cavalos, gado, ovelhas, mulas, entre outros, sempre foram anexados e usados para classificar indivíduos economicamente, eram a métrica para compreender boa parte das atividades socioeconômicas (seja na fronteira ou outras regiões rurais) e, sim, tinham um papel fundamental para estabelecer os critérios de entendimento da vida na fronteira nestes contextos, especialmente no cenário do Pampa, em que representavam um elemento de conexão entre ocupação do espaço e implementação de perspectivas econômicas vigentes. Contudo, ainda assim, eram vistos de uma forma mecânica.
Os inventários apresentam uma diversidade de animais descritos e avaliados, como bois (mansos, res), éguas, burros, mulas, ovelhas, cavalos (manso, redomão), potros, cabras, porcos etc. Como aponta Minuzzi (2024, p. 245), que afora “ser o produto principal da economia da região e de se tornar símbolo dentro da cultura e imaginário, o gado tinha um papel importante na dispersão de plantas, no pisoteamento e consequente desgaste do solo, na culinária local, etc.”, questão que apontamos brevemente no trecho anterior deste texto. Os animais eram diversos em sua distribuição e ocupação do território de fronteira, estando mais atrelados ao comércio de gado ou aos usos domésticos, relativos ao consumo familiar, comercialização local e produção de subprodutos comuns ao contexto, como o couro. Além disso, é possível analisar também os termos novo, velho ou em “mau estado” que eram designadores dos animais ao longo da avaliação dos inventários, demonstrando que alguns deles passavam pelo cotidiano familiar por médio ou longo período, na condição de executores de atividades domésticas. Eles são encontrados em inventários, mas passam despercebidos como dados de pesquisa. Além disso, uma miríade de outros animais domésticos ou de interesse rural provavelmente se perdeu nos registros, sendo acessível a nós apenas os registros mais formais sobre a sua existência.
Na tabela a seguir, há um conjunto de dados extraídos dos inventários e transformados em elementos quantitativos. Alguns aspectos podem ser extraídos e que, em certa medida, corroboram um cenário já esperado. Primeiro, já comum ao contexto, é a predominância de animais na categoria bovinos, a qual agrega reses, bois de trabalho, vacas e novilhos. Essa categoria abarcava 71,8% do número total de animais identificados nas fontes da amostra investigada para as vilas de Alegrete, São Borja e Uruguaiana. Analisando esses dados, comparados ao número de animais da categoria distribuídos entre as vilas, verifica-se que 51,6% deles estavam constantes nos inventários de Alegrete, no período e amostra analisada. De certa forma, essa informação não é algo novo nas análises sobre a distribuição de gado pecuário no século XIX, já que outras pesquisas atestaram o grande volume de gado sendo manejado entre as propriedades de alegretenses, tanto nos limites da vila, quanto em outros territórios da região e do Uruguai. Além de ser algo esperado, essa constatação auxilia a entender um pouco das nuances da distribuição dos bens nos inventários, já que muitos inventários de alegretenses apresentavam esses animais em especial. Por bens, considere as categorias gerais, os “bens móveis”, “semoventes”, “escravizados” e “bens de raiz”, em consonância com o contexto geral da fonte averiguada.
Tabela 1: Distribuição dos animais na amostra de pesquisa, vilas de Alegrete, São Borja e Uruguaiana (1851-1881)
|
Animal |
Soma em libras |
Quantidade |
N. Inventários[19] |
|
Ovino |
4.387 |
9.570 |
50 |
|
Bovino |
174.284 |
57.664 |
106 |
|
Equino |
20.528 |
12.047 |
102 |
|
Muar |
2.966 |
1.017 |
49 |
|
Suíno |
37 |
3 |
1 |
|
Total |
202.202 |
80.301 |
- |
Fonte: Inventários post mortem de Alegrete, São Borja e Uruguaiana (1851 – 1881). APERS.
Antes de darmos seguimento, é importante recordar que a indicação das partes utilizadas dos inventários varia em duas frentes: uma quantitativa (que abarca avaliação e descrição dos bens e outros documentos, como tutelas ou dívidas passivas) e outra qualitativa, no diálogo com as informações em conjunto e descrições[20]. Nesse sentido, em uma região que abrangia grandes distâncias e propriedades praticamente sem cercamento (Farinatti, 2010b), havia uma intensa atividade para tentar manter a ordem da lida no campo e isso, certamente, estava também relacionado ao tipo de animais que eram reproduzidos nas propriedades. Sobre isso, manteremos apenas a elaboração teórica, pois o que queremos apresentar são outros elementos referentes à distribuição dos animais entre as vilas. Entendemos que isso também ajuda a compreender o contexto das atividades cotidianas em cada uma delas, ainda que de forma mais geral.
Os equinos (cavalos e éguas) também ocupavam um expressivo espaço nas amostras. Eram animais presentes em 102 inventários da amostra investigada, o que corresponde a 61,4% do total. Isso significa que, apesar de não serem um montante tão expressivo quanto as reses (que somam também a grande maioria quantitativa dos animais da categoria de bovinos), cavalos e éguas eram comuns e necessários pelo seu tipo de atividade dentro das propriedades enquanto força de trabalho e deslocamento, também para a reprodução. Eles possivelmente eram mantidos por mais tempo no conjunto de não-humanos do contexto doméstico. Já as reses bovinas tinham foco especialmente para o comércio e abate e, por isso, também eram tropas mais mobilizadas e perenes no cenário. Ao todo, os animais de todos os conjuntos aparecem em 110 inventários (66%) da amostra, reiterando sua importância no montante dos bens arrolados, ao menos enquanto animais domesticados e presentes nas fontes de pesquisa, sem contarmos com a distribuição antecipada de bens entre os familiares, antes de haver em si a execução do processo de inventário. Como foi mencionado anteriormente e fica evidente nos dados da amostra, os suínos eram praticamente inexistentes, ou melhor, pouco expressivos e demonstram uma possível transformação no cenário da vida urbana fronteiriça com a inserção da produção de outros tipos de animais para consumo regional.
Considerando também que muitos inventários demoravam alguns anos para serem elaborados, algumas informações acabavam sendo perdidas ao longo do tempo. Além disso, também evidenciam que, apesar do foco estar direcionado para a atividade pecuária ou na reprodução de animais de carga, 44% dos indivíduos inventariados não estavam incluídos de forma direta nessas atividades, por não possuírem propriedades rurais pela posse efetiva e, possivelmente, precisavam mobilizar trabalho e renda com atividades sazonais nas vilas de Alegrete, São Borja e Uruguaiana, como em épocas de marcação do gado, manejo ou abate, épocas de plantação ou colheita de produtos, para mover cargas de comércio ou onde tivesse trabalho disponível (Farinatti, 2010a).
A realidade vivenciada comportava uma série de outros animais que passaram despercebidos, como aves, cachorros e animais silvestres, dos quais não temos muitas informações se não através dos relatos de viajantes, enquanto fontes, ou de algumas discussões historiográficas (Minuzzi, 2024). Entretanto, podemos inferir que eram também comuns à vida do dia a dia nas propriedades fronteiriças, tanto ou mais do que os quais temos maior acesso a informações. Também podemos considerar outras atividades relacionadas a animais, como a caça, enquanto um elemento presente nas atividades cotidianas e de interesse “cultural” no período, enquanto uma prática comum em diversas sociedades e com a qual pudemos tomar contato pela menção de algumas armas de fogo identificadas na amostra de bens móveis (categoria de “Uso pessoal”), as quais eram descritas como sendo para a caça.
Verificamos assim que seria importante considerar relevantes as ocupações do território e animais como temas correlacionados ao tema geral do cotidiano, sendo reiterativos e compositores do cenário doméstico e rural. Pois, a partir desta integração, conseguimos imaginar ações e práticas rurais que levassem em consideração o tipo de animal a ser produzido em cada local e propriedade, por exemplo, e os elementos materiais necessários para isso, como mangueiras, arreios e instrumentos de trabalho em geral. A segunda metade do século XIX é também um período instigante para essa discussão integrada, já que a quantidade de animais disponíveis, especialmente o gado, vai diminuindo ao longo do período, mas não perde a relevância no contexto da produção de recursos e status na região fronteiriça. Pela fronteira oeste (estendendo até o sul da província do Rio Grande do Sul) que passavam pessoas, livres ou não, animais de diferentes espécies, sendo domesticados ou não, e toda sorte de contrabandos e comércios de bens. É o que nos indica a historiografia e a documentação. Incorporar o cenário fronteiriço multifacetado enquanto vetor de pesquisa é um processo historiográfico presente nas últimas décadas de pesquisa histórica com a qual queremos colaborar através deste texto.
Ocupações, espaço rural e os animais: a vida cotidiana na fronteira
O cotidiano na fronteira não era simples e harmonioso, isso já se sabe pela historiografia e pela documentação do período. Eram recorrentes os conflitos militares, as disputas sobre o território fronteiriço, a recorrente segregação de grupos de indígenas dispersados, o comércio de escravizados. Referenciando Paulo Zarth (2008), Minuzzi explica que “o gado, especialmente o cavalar e o vacum, foi apropriado pelos indígenas em seu cotidiano, modificando suas formas de alimentação, de locomoção e até mesmo suas estratégias de guerra”, demonstrando a profunda transformação que a região passou ao longo da sua ocupação, desde os primórdios da dominação europeia no Pampa, demonstrando também como tropas de animais inseridas por via externa transformaram as vivências humanas que com elas interagiram. Além disso, completa afirmando que, em razão da intensa ocupação humana, portuguesa e europeia, tal processo impactou os grupos indígenas que habitavam a região do Pampa, com consequências últimas que produziram extermínio, desterritorialização e catequização (Minuzzi, 2024). Posteriormente, com a desagregação das reduções jesuíticas, passaram a estar novamente marginalizados em seu próprio território, precisando reelaborar suas práticas de vida a fim de sobreviver na fronteira.
No âmbito da marginalização de grupos não colonizadores, evidencia-se a presença de pessoas escravizadas arroladas dentre os “Bens Semoventes”, cujos outros componentes são animais, como rezes, cavalos, ovelhas, e escravizados, o que evidencia a percepção do período sobre a composição da sociedade estratificada escravista. A lida com os animais também configurava uma das formas pelas quais pessoas escravizadas precisavam conviver. Esses grupos estavam expostos a diversos acontecimentos sobre seus corpos, causados pelo uso e manejo de animais, como lesões, que poderiam ser curadas com o tempo ou causavam deficiências permanentes, até mesmo outros acidentes fatais. Os inventários também podem ser um vetor de investigação do tema da saúde de pessoas escravizadas, já que em algumas descrições dos indivíduos arrolados enquanto escravizados é mencionada a sua condição de saúde (muito em razão da condição da avaliação e da designação de valores a eles). Assim, a maioria das pessoas no período acabava, necessitando ou não, por terem suas vidas envolvidas com animais de diferentes espécies, seja para transporte, trabalho, comércio ou alimentação. Isso não foi diferente para indivíduos escravizados, que precisavam aprender também a andar a cavalo e a manejar o gado das propriedades dos senhores, já que eram também meios de locomoção intensamente utilizados, junto de bois e mulas, ou para indígenas, os quais buscavam formas de se inserir no cenário regional.
Através dos dados investigados a partir dos inventários, pudemos perceber que em Uruguaiana, os animais estavam distribuídos em menos inventários do que as outras vilas. Ressalta-se que isso poderia ser explicado por serem menos inventários na amostra, exigindo uma amostra mais ampla em pesquisas específicas sobre o tema, por um lado. Por outro, o que compreendemos é que, mesmo considerando a diferença nesse quesito documental, a relação entre quantidade, animais e distribuição por inventário reitera uma grande concentração de posses em menos da metade dos inventários da amostra, consequentemente uma possível concentração de riquezas que representa o número reduzido em algumas regiões, períodos ou grupos socioeconômicos.
Na mesma direção, Alegrete não fica muito longe desta análise, e como já sabemos, era formada de uma sociedade bastante estratificada. Considerando que Uruguaiana havia sido parte do território alegretense até 1846, é considerável ponderar que estas semelhanças tenham raiz em um passado compartilhado entre as vilas. Por outro lado, em São Borja, a distribuição era muito maior, e podemos atrelar isso a uma maior diversidade de bens em relação às duas outras vilas, por exemplo. São Borja tem mais inventários em sua amostra, porém, podemos inferir que em uma análise equiparada de quantidade de inventários (não por tipo de amostragem em década) ainda assim teria maior distribuição no conjunto.
Ao realizarmos estas análises, verificamos que diversos são os indícios, ainda que pequenos, da importância dos animais na experiência da vida cotidiana na fronteira, seja como uso comum e generalizado ou individual[21]. Alguns viajantes também relatam a presença dos animais pelo caminho, em geral notam mais aqueles domesticados. Conde D’Eu ([1865] 1981) aponta as caravanas que o levavam junto do Imperador Dom Pedro II até a fronteira durante a Guerra do Paraguai, as trocas de animais ao longo do caminho, a própria devastação e a grande quantidade de animais mortos encontrados pelo caminho, tornando o cenário devastador e insalubre. Alexander Baguet ([1845] 1997) também nos apresenta suas percepções, fala primeiro da necessidade e da dificuldade de encontrar mulas que fossem habilidosas para os conduzir na viagem, e depois menciona como esse animal em específico era inteligente e perceptivo quanto ao caminho e, por isso, fundamental para uma viagem mais eficiente e com menos problemas. Esses relatos, junto a algumas indicações nas fontes, relativas a atividades especiais atribuídas a animais, formulam também importâncias entre alguns animais e espécies, como os cavalos de comércio, burros para carga e burros trabalhadores. Identificamos 31 desses animais na amostra, além de bois lavradores. Foram identificados cerca de 1.012 bois mansos, entre novos, velhos e regulares (indicações que referenciam o tipo de condição dos animais, tempo de uso, etc). Os bois mansos também podiam ter sua função designada como sendo carroceiros, correios ou de carreta, usados em geral para transporte, além de dois bois lavradores, pertencentes a Manoel José Schimit[22], falecido em 1881 em Alegrete, e classificado na amostra geral da pesquisa como um Rural sem Identificação. Entre outros bens daquele indivíduo havia ainda mais rezes de criar (37), ovelhas (58), 2 cavalos mansos e algumas benfeitorias e terras, indicando que sua atividade principal era a rural com uso específico de animais para manejo da terra e pequena criação familiar.
Os animais passavam então a ter algumas funções dentro da vida dos indivíduos e tinham habilidades, pela sua capacidade corporal ou força, que facilitam a dinâmica do dia a dia, seja para o trabalho rural ou para o comércio, além da própria reprodução de algumas espécies para comercialização, como os potros e mulas. Podemos atrelar essas atividades específicas exercidas por estes animais com os materiais que eram necessários para executar as atividades que lhes eram atribuídas, como ferramentas de trabalho, as encilhas, arreios e malas para carregar produtos, entre outros. Dentre os animais que eram mais valorizados na amostra, do ponto de vista do valor individual, identificamos os burros e bois. Decidimos extrair do banco de dados aqueles que custavam mais de 20 mil réis pois, além de ser um valor de margem alta para o período, seria o mais alto dentre as principais categorias como reses, novilhos e cavalos. Dentre os animais que identificamos acima dessa faixa de avaliação, temos os bois, que possivelmente eram bem avaliados nos processos de inventário pelo seu valor dentro das propriedades, no trabalho com a terra ou na locomoção de carretas e carroças para o transporte de gêneros.
As funções atribuídas e exercidas por bestas, cavalos ou bois podiam ser tomadas como potencial de valorização nos inventários, haja vista os montantes identificados nas avaliações da amostra. Sobre as bestas e a importância dos animais de carga, citamos Carlos Eduardo Suprinyak (2008) como um exemplo de análise a partir dos animais, especialmente as “bestas muares”. Segundo o autor, ao longo do século XIX esses animais se tornaram os principais utilizados para transporte no centro e no sul do Império, por isso as éguas eram sempre animais presentes nos inventários, demonstrando a conexão nos diferentes territórios do Brasil ao longo dos oitocentos. Nos dados da nossa amostra, ao utilizarmos categorias para agrupar os animais, identificamos que os da categoria muar (bestas, mulas, burros) foram os com melhor avaliação por unidade. Encontramos burros trabalhadores entre 20 e 80 mil réis e, dos 31 com essa designação, 23 deles eram parte de inventários de São Borja, os outros foram avaliados em Uruguaiana e nenhum deles em Alegrete. Supomos, com base no tipo de produção e distribuição dos bens, que isso ocorria pela ênfase na atividade econômica predominante em cada região, contudo os detalhes deste tipo de investigação precisam de maior atenção em pesquisas futuras.
Para viver o dia a dia na fronteira, era preciso integrar os diferentes sujeitos existentes e o entorno material, na busca por fazer com que as práticas e escolhas ocorressem da forma mais adequada e eficiente possível. Contudo, é de se imaginar que nem tudo ocorresse como planejado e que o cotidiano também fosse permeado por acidentes, gado sem alimentação, animais fugidos, dívidas e toda sorte de infortúnios. Alguns relatos de viajantes incluíam a presença constante e pouco visível de buracos e acidentes nos trajetos, “se a pata do cavalo entrasse ou tropeçasse em um buraco desses roedores, o risco do animal se desequilibrar, cair e quebrar a pata era gigantesco” (Minuzzi, 2024, p. 203). Além disso, uma possível causa de fraturas e mortes para o cavaleiro, a morte ou “inutilização” do animal de transporte poderia causar igualmente uma série de situações de insegurança e problemas financeiros. Tanto Farinatti (2010b) quanto Volkmer (2013) demonstram que as oscilações da presença dos animais indicavam também sua importância econômica para o período, interferindo diretamente na experiência oitocentista. A fronteira oeste, como já se sabe, em geral carrega reflexões sobre civilizações, modelos civilizatórios e os aspectos políticos e militares que formularam, e junto das práticas e representações fronteiriças, estabeleceram as linhas divisórias de estados, nações e províncias nos oitocentos. Schmitt (2008) argumenta que a ideia de uma fronteira esteve por muito tempo permeada pelo imaginário da barbárie, um contexto geralmente belicoso e lacunar na civilização, a presença dos animais em parte contribuiu para a formulação de tal imaginário.
Contudo, o cotidiano fronteiriço também era permeado por uma ocupação do território que visava, do ponto de vista econômico, a produção e enriquecimento e, do ponto de vista civilizatório, a ocupação humana do espaço, além de garantir a proteção das fronteiras militarmente. O entrecruzamento sobre transformações e permanências faz pensar que a civilização estava ali, no sentido de ocupação de espaços e na vida do dia a dia, sendo experimentada, transformada, almejada ou negada, e inferida pelas leituras de tantos inventários post mortem averiguados ou nos relatos de viajantes que passaram pela região, a exemplo de Conde D’Eu ([1865] 1981), Avé-Lallemant (1980) e Baguet ([1845] 1997). Estes processos investigativos nos ajudam a negar a “visão simplificada de um mundo social quase-bárbaro” (Schmitt, 2008, p. 5), dando lugar para uma compreensão da realidade multifacetada e complexa.
A guisa de uma conclusão
Os animais, como exploramos nas seções precedentes, são elementos-chave para entender a dinâmica cotidiana da fronteira, se foram meros números nas contabilidades, até aqui tivemos a oportunidade de torná-los mais inseridos no conjunto de experiências do cotidiano. Contudo, em geral, os animais passam despercebidos e constam como número e balizadores das atividades socioeconômicas em diferentes pesquisas e pouco enquanto sujeitos compositores das dinâmicas cotidianas. Esperamos que tenha sido possível contribuir neste sentido, já que o tema da modificação das propriedades era visto de uma maneira bastante utilitarista e, consequentemente, visando em especial a ocupação, demarcação e uma produção com ênfase na produção animal para o abate.
Nesse sentido, identifica-se uma importante discussão no período a respeito dos propósitos da ocupação dos territórios, concepções de civilização e sucesso (ou fracasso) econômico, pois isso impacta diretamente na forma da colonização da região ao longo do século XIX (Minuzzi, 2024;Farinatti, 2010b). As perspectivas não eram exclusivas da região da fronteira oeste ou do Pampa e, sim, uma concepção de civilização que era incorporada em diversos âmbitos da vida no século XIX. A partir desta discussão, percebemos algumas das várias formas em que o ambiente se fazia presente na vida cotidiana fronteiriça. Por isso, não consideramos que o estudo do cotidiano ou da cultura material esteja separado da percepção do entorno e, assim, fomos adicionando agentes e sujeitos a este processo e que nos auxiliam a caracterizar a experiência de viver em uma região rural, as grandes distâncias e com uma formação de bioma tão característica.
Os animais tornaram-se um vetor de discussões importantes sobre a ocupação da fronteira oeste do Rio Grande do Sul ao longo do século XIX, como apontam pesquisadores da atualidade e viajantes nos oitocentos. O cenário fronteiriço era composto por uma miríade de elementos. Analisar os Bens Semoventes e os Bens de Raiz em inventários da região propiciou esta pausa temática tendo em vista a circulação, modificação, reprodução e formação de uma sociedade bastante agrária. Por fim, o contexto rural não foi um limitante para pensar o cotidiano e a correlação entre os bens inventariados, animais e a experiência da vida comum no período.
Agradecimentos
Agradeço à CAPES pela concessão da Bolsa CAPES/DS e pelo aceite do projeto de Doutorado Sanduíche realizado na Universityof Copenhagen.
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Aceito 22/07/2025.
[1]Doutora em História, Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Recebeu financiamento de bolsa CAPES/DS e realizou Doutorado Sanduíche, na Universidade de Copenhague, Center ofPrivacyStudies, apoio CAPES. Brasil. E-mail: taistomazi@gmail.com| https://orcid.org/0009-0003-8907-1701