Fronteiras: Revista Catarinense de História. Dossiê Fronteiras, migrões e identidades nos mundos pré-modernos. N 35, 2020/01 –
ISSN 2238-9717
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DOI: https://doi.org/10.36661/2238-9717.2020n35.11421
Multiculturalidade e a Christiana Civilitas na Britannia de Gildas (s. VI)
1
Multiculturality and the Christiana Civilitas in Gildas’ Britannia (6
th
century)
M.ª Helena Schütz Leite
1
Prof. Dr. Renan Frighetto
2
Resumo
O período que parte da historiografia atual
denomina de Antiguidade Tardia foi marcado
tanto por rupturas quanto por continuidades
com o passado, causando uma série de
transformações em praticamente todos os
aspectos da sociedade tardo antiga. Este
trabalho busca contribuir para a compreensão
desse período ao observar o caso específico da
Britannia no século VI, uma região que esteve
em contato com diferentes grupos desde o
período chamado de Idade do Ferro e, portanto,
é constituída de múltiplas culturas e
identidades. Nesse contexto, analisamos em
especial a obra de De Excidio Britanniae de um
clérigo britânico chamada Gildas, tendo como
principal objetivo entender como a construção
de uma ideia de comunidade cristã nos auxilia à
compreender o tom de Gildas em referência à
uma unificação e identificação que ia além das
fronteiras dos reinos existentes na Britannia do
século VI.
Palavras-chave: Britannia; Christiana
Civilitas; Gildas.
Abstract
The period that part of the current
historiography calls Late Antiquity was marked
by both ruptures and continuities with the past,
causing a series of transformations in pratically
all aspects of late antique society. This works
seeks to contribute to the understanding of this
period by looking at the specific case of
Britannia in the 6th century, a region that has
been in contact with different groups since the
period called the Iron Age and, therefore, is
made up of multiple cultures and identities. In
this context, we analyze in particular the work
De Excidio Britanniae by a British clergyman
called Gildas, with the main objective of
understanding how the construction of an ideia
of Christian community helps us to understand
Gildas’ tone about a unification and
identification that went beyond the borders of
the kingdoms in 6th century Britannia.
Keywords: Britannia; Christiana Civilitas;
Gildas.
Introdução
Nas décadas de 1970 e 1980, autores como Peter Brown e Henri-Irénéé Marrou
passaram a questionar a visão pejorativa que até então predominava as análises dos séculos III
a VIII d. C.. Estes autores buscaram no conceito de Antiguidade Tardia uma forma de valorizar
o arco cronológico entre a Antiguidade e o Medievo, repensando as abordagens sobre ele
(BROWN, 1971; MARROU, 1977). A historiografia passou então a compreender o período
1
Mestra em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (2019).
Graduada em História pela Universidade Regional de Blumenau FURB (2017). Membro discente do
NEMED/UFPR. Contato: helena.schutzleite@gmail.com
2
Doutor em História Antiga pela Universidade de Salamanca (1996), na Espanha; mestre em História Antiga e
Medieval pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990); professor associado da Universidade Federal do
Paraná, em Curitiba/PR, Brasil Departamento de História. Pesquisador 1D CNPq; pesquisador do
NEMED/UFPR. Contato: rfrighetto@hotmail.com
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representado pelo conceito de Antiguidade Tardia como uma nova e vigorosa civilização, seria
muito mais do que a simples passagem de um período para outro. Para Marrou, a Antiguidade
Tardia seria "outra civilização, cuja originalidade precisamos aprender a reconhecer e a apreciar
em seus próprios termos em vez de seguirmos os critérios de épocas passadas” (1977, p. 13).
Partindo dessa abordagem historiográfica, buscamos neste trabalho explorar este
contexto a partir da noção de "transformações", embora seja necessário afirmar que tal termo
não desconsidera as rupturas e conflitos que ocorreram em diversas regiões e em diferentes
momentos, mas sim assinala para o potencial modificador de tais questões. Além disso, é
preciso lembrar as múltiplas culturas e identidades que compunham os mundos tardo antigos.
Nesse sentido, temos como objetivo neste trabalho explorar uma região em específico: a
Britannia no século VI, na intenção de compreendermos as transformações que afetaram sua
população após a retirada militar romana da Ilha.
Também na região da atual Grã-Bretanha ocorreram conflitos e foram percebidos os
efeitos do fim do Império romano do Ocidente. Afinal, longe de fazer sentido a ideia de que,
por ser uma Ilha, a Britannia estaria isolada dos acontecimentos no Continente, esta foi, na
realidade, muitas vezes participante fundamental no desdobramento de momentos decisivos
para o futuro de Roma. De acordo com Michael Fulford, entre o primeiro século a.C e a metade
do terceiro, é possível perceber uma relação constante entre o mundo romano e a Britannia por
meio da troca e comércio de milhares de bens de consumo, como vinho, azeite de oliva e outros
artefatos que são encontrados na cultura material da Ilha (2007, p. 54).
Nesse sentido, embora a Britannia no final do século IV e início do V já não demonstre
a produção de moedas e nem mais utiliza-se da moeda imperial (CHARLES-EDWARDS, 2013,
p. 221), as evidências arqueológicas, como as encontradas em Tintagel, localizada na costa da
Cornualha, apontam para uma visível atividade comercial e para o fato de que os britânicos não
estavam isolados durantes os séculos V e VI, mas que mantinham relações comerciais com a
Gália, o Norte da África e com o Mediterrâneo (SNYDER, 2003, p. 99).
E ainda, mesmo tendo sido uma das últimas regiões anexadas ao Império romano, a
Britannia, assim como outros lugares, é um território que não pode ser pensado como
submissivo à influência administrativa e cultural de Roma, nem podemos pensar na Ilha como
estando deslocada e tendo, por isto, uma cultura e sociedade "pura" e sem influências de outros
povos que entravam em contato com a região desde o período conhecido como Idade do Bronze
britânica (2.500 a.C. - 800 a.C). Da mesma maneira, quando já não estava mais sob a influência
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militar romana, a cultura e o modo de vida na Ilha não voltaram a ser como no período anterior
à colonização de Roma.
Veremos ao longo deste trabalho que na Britannia criou-se um contexto específico que
continha tanto elementos de transformação como de continuidade, afinal, as novas visões que
encontramos na Antiguidade Tardia ainda "seguiram as pegadas da tradição greco-latina, mas
sem repeti-las, estabelecendo visões mais amplas sobre ideias já reconhecidas" (FRIGHETTO,
2007, p. 204). O Cristianismo é um dos elementos que caracterizam essa dinâmica entre o
passado e suas tradições e a criação de novas narrativas, ainda que inspiradas e baseadas em
práticas e ideias concebidas anteriormente. É importante destacar que quando falamos em
Cristianismo, em nenhum momento acreditamos que as práticas dessa religião fossem
homogêneas ou completamente estabelecidas por todos os territórios nos quais a religião era
praticada. Nesse sentido, quando mencionamos a expansão e difusão do Cristianismo,
entendemos isto como um longo processo que construiu e transformou a crença cristã.
No caso da Britannia, não podemos ter uma visão muito clara da difusão desta religião
em relação a outras já praticadas ou até mesmo quanto a sua propagação ao longo do território
britânico. Mesmo assim, parece ter ocorrido um crescimento das práticas cristãs com o decorrer
do tempo e se observarmos a cultura material da região, podemos inferir que no final do século
IV o Cristianismo teria se tornado a religião dominante da Britannia romana (DUMVILLE,
1997, p. 88-90).
Para Gildas,
2
um clérigo britânico que teria vivido na Ilha na primeira metade do século
VI, o Cristianismo é um elemento indissociável de sua narrativa. Portanto, compreender como
este estava estabelecido na Antiguidade Tardia é também atentar para uma compreensão da
forma como Gildas percebia o mundo a sua volta por meio da religião cristã. Neste artigo
trabalharemos com um aspecto específico do Cristianismo que se fortaleceu ao longo da
Antiguidade Tardia até o Medievo, a formação de uma identificação entre indivíduos tendo a
religião como ponto de união.
A Britannia de Gildas: multiculturalidade na Antiguidade Tardia
No entanto, antes de atentarmos para uma análise do Cristianismo na Antiguidade
Tardia e em especial, na Britannia do século VI, é preciso lembrar que esta região também
estava inserida em um contexto de constante movimentação e, dessa maneira, é necessário
efetuarmos alguns questionamentos, como: o que era, no século VI, em termos territoriais, essa
Britannia? Quem eram os britânicos, ou quem habitava a Ilha nesse período?
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Muito antes das invasões efetuadas por Roma, a Ilha era habitada por várias tribos
independentes que possuíam o controle de diferentes regiões e tinham "religiões, costumes e
tradições distintos daqueles dos invasores" (BELO, 2018, p. 23), assim como diferenças entre
as suas próprias crenças e culturas. Nesse sentido, tinham perspectivas de identidade social
separadas e não se compreendiam, necessariamente, como uma grande unidade. Percebiam-se
como catuvellaunii ou brigantii e não como britânicos. Podemos verificar essa questão quando
os romanos entram em contato com os habitantes da Ilha. Assim, quando Julio César enfrenta
Cassivellauno, rei dos catuvellauni, em 54 a.C. recebe o auxílio da tribo vizinha, os trinovanti,
que já possuía conflitos com os catuvellauni (Ibidem, p. 79).
No momento no qual o governo romano finalmente inicia um processo efetivo de
colonização da Britannia, ele se utiliza em parte das estruturas já existentes na Ilha, dividindo
a região primeiramente em duas províncias, Britannia inferior (York) e Britannia superior
(Londres), e a partir do final do século III, com as reformas efetuadas pelo então Imperador
Diocleciano, a Ilha passou a ser dividida entre as províncias Britannia Prima (Cirenchester),
Britannia Secunda (York), Flavia Caesarensis (Lincoln) e Maxima Caesariensis (Londres) que
formavam a diocese conhecida como Britanniae, isto é, as Britânias, no plural.
Com a dominação de Roma, a tradicional estrutura administrativa desta foi implantada,
mas como visto acima, ainda havia um certo nível de separação e independência entre as
províncias. Além disso, no início desse processo as até então autoridades locais de cada grupo
não foram totalmente eliminadas mas trabalhavam como "clientes" de Roma, mantendo sua
autoridade local, porém, ainda assim, pagando tributos ao governo romano (HARDING, 2010,
p. 156).
Todavia, essa divisão foi muitas vezes vista como algo que retornou facilmente após a
retirada romana e a constante regionalização da Ilha. Não podemos, no entanto, pensar nesse
movimento como ocorrendo de uma hora para outra. Como afirmam J. D. Hill and D. W.
Harding (HILL apud HARDING, 2010, p. 157), é muito simplista a visão de que a influência
romana teria sido tão superficial à ponto de que, quando retirada, as comunidades nativas da
Ilha teriam revertido aos seus costumes e crenças do período da Idade do Ferro. Por outro lado,
como ressalta Richard Hingley (1997), não podemos enxergar a relação entre os habitantes da
Britannia e os romanos como a imposição de uma cultura sobre a outra, mas sim como uma
constante troca cultural.
É entorno desta perspectiva que nosso trabalho busca girar. Portanto, compreendemos
que a Britannia não estava um dia sob o poder romano e no dia seguinte, com a retirada do
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contingente militar destes, retornou exatamente para como era antes do período sob o poder
imperial. Assim como, ao mesmo tempo, ela não perdeu completamente as tradições e hábitos
que possuía antes da dominação romana.
Primeiramente, é preciso lembrar que o Império não chegou a dominar efetivamente
todas as partes da Ilha, mas também que os efeitos da colonização não foram idênticos nem
homogêneos por todas as regiões da Britannia. Em segundo lugar, os habitantes dessa região
não entraram em contato apenas com Roma. Ao longo dos séculos como diocese, a Ilha foi
cenário de diferentes trocas culturais entre diversos grupos sociais e indivíduos que circulavam
e muitas vezes se assentavam na Ilha. Um bom exemplo é o caso dos escotos, que adentravam
a Ilha por meio do Mar Irlandês. Não é possível ignorar a longa relação entre a ilha da Britannia
e a Hibernia¸ atual Irlanda. Os contatos entre as ilhas podem ser percebidos desde muito antes
da dominação romana sobre a Britannia.
Quando olhamos para a arqueologia dessa região na Antiguidade Tardia, também
encontramos trocas materiais e, portanto, culturais, como demonstrado pelo desenvolvimento
de um tipo específico de broche, conhecido em inglês como peannular, datado como do século
IV e que foi encontrado em sítios arqueológicos tanto na Irlanda como na Grã-Bretanha.
Segundo Thomas Charles-Edwards (2013, p. 225-6), esse tipo de broche era, muito
provavelmente, um símbolo de status e se tornou uma linguagem compartilhada nos dois lados
do Mar Irlandês.
Outro elemento de cultura material que contribui para a nossa compreensão dos contatos
entre as Ilhas são as Ogham Stones, monumentos com inscrições em Ogham, alfabeto utilizado
com as primeiras formas da língua irlandesa (SANTOS, 2015, p. 2). Estes podem ser
encontrados na Irlanda, Ilha de Man, Escócia, País de Gales e Inglaterra. Algumas dessas
inscrições, no entanto, são diferentes, pois apresentam um caráter bilíngue/biliteral, ou seja, em
Ogham e em Latim. Dentre as centenas de inscrições em Ogham, trinta e três são bilíngues e
são encontradas no País de Gales, Devon, Cornualha e Ilha de Man.
3
Embora haja uma longa discussão sobre a origem da escrita Ogham que não pode ser
abarcada satisfatoriamente neste trabalho, a existência desta tradição em ambas as Ilhas atesta
para diversos grupos étnicos dividindo, negociando e disputando suas identidades na região
durante o período da Antiguidade Tardia. Como afirma Charles-Edwards (2013, p. 174), a
presença de irlandeses na Britannia não precisa ter ocorrido devido à uma migração em massa,
mas a presença de vestígios de uma elite falante do irlandês corrobora para a imagem de um
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contato constante e ativo o suficiente para a adoção de aspectos culturais irlandeses na
Britannia.
Além desse grupo, Gildas narra o constante contato entre britânicos com pictos que,
juntamente com os escotos, invadiam e pilhavam a Britannia por gerações. O clérigo ainda
afirma que pictos e escotos seriam "gentibus transmarinis", nações ultramarinas (GILDAS, De
Exc., 14.1. p. 93.). Contudo, pictos são normalmente localizados na região norte da Ilha, um
grupo que tem suas origens e características ainda muito discutidas. No início da conquista
romana da Ilha da Britannia, o historiador Tácito, escrevendo por volta de 98 d. C., se refere à
esta região como Caledônia, no entanto, habitada por britanni, ou seja, britânicos.
Dessa forma, não era feita uma distinção entre os britânicos do sul e os do norte. Isto se
repete também na obra de outro historiador, Dião Cássio, escrita mais de um século depois.
Ainda que este autor acrescente a divisão dos britânicos do norte entre caledônios e maetae,
estes continuam sendo britanni (SCHUSTER, 2012, p. 30). É apenas no final do século III, no
Panegírico de Constâncio VIII, do ano de 297, que ocorre o primeiro registro conhecido do
termo picto, passando a ser cada vez mais utilizado (Ibidem, p. 12).
Existe ainda um desacordo entre os especialistas sobre o termo em Latim picti, se este
seria uma latinização de um termo nativo ou apenas o modo como os romanos se referiam a
estes povos (YORKE, 2009, p. 47). A formação dessa identidade parece ter ocorrido ao longo
de um processo de enfrentamentos com os romanos, nos quais esses povos dispersos ao norte
da Ilha teriam se unido e a partir da consciência de suas similaridades frente a um inimigo em
comum, construído certa identidade unitária. Assim, a identidade dos pictos como um grupo
parece ter sido o resultado da fronteira romana, assim como ocorreu com outros povos no
Continente (CHARLES-EDWARDS, 2013, p. 36).
Podemos inferir que nem todos os elementos da cultura que compreendemos como
romana foi apagada da vida dos habitantes da ínsula, mesmo um século após a retirada do
Império da região. Ainda assim, mudanças ocorreram constantemente, principalmente devido
ao intenso contato entre britânicos e esses outros grupos populacionais. Além disso, ao longo
do século V vemos na Ilha o assentamento de povos que conhecemos como anglo-saxões que
teriam sido convidados pelos próprios britânicos como Foederati para auxiliarem na proteção
contra ameaças externas. Estes grupos, contudo, após se estabelecerem principalmente no lado
oriental da Ilha, iniciaram um processo de conquista de território que, aos poucos, abarcou boa
parte da região leste.
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Portanto, por mais que Gildas, ao escrever no século VI sua carta, se dirija ao seu
provável público como sendo britânicos, ou melhor, se refere à região de uma maneira
generalizante, como se a Britannia fosse uma personagem por si só, não podemos esquecer que
seu contexto não era formado por um grupo homogêneo de pessoas. É preciso que a ideia de
uma completa homogeneidade entre os habitantes da Ilha seja desconstruída. Mesmo que
algumas fontes apontem para esse caminho, um olhar mais cuidadoso sobre elas será capaz de
perceber que não havia uma única identidade ou, como afirma Richard Miles (2002, p. 3), suas
identidades estavam em constante estado de fluxo e desenvolvimento.
O que podemos inferir é que Gildas tinha como grupo alvo de suas críticas os que
considerava como seus compatriotas e, devido a situação que verificamos na Ilha no momento
de escrita do clérigo, no qual os povos anglo-saxões consolidavam o seu assentamento na parte
leste da insula, é provável que a narrativa do autor possa ser melhor aplicada para o contexto
da região oeste da Ilha.
Consequentemente, quando neste trabalho nos referimos à Britannia, compreendemos
como esta sendo a denominação da região da qual Gildas parece fazer parte: a região Oeste da
Ilha, especificamente o País de Gales e o Condado da Cornualha, região que, durante seu
período como parte do Império, estava inserida na província romana chamada de Britannia
Prima. Na qual viviam britânicos descendentes de cidadãos do Império, de cerca de quase dois
séculos antes, mas também escotos advindos da Irlanda e até mesmo indivíduos que
compartilhavam de diferentes heranças, tanto genéticas
4
como culturais. Além destas questões
de identidade, outro aspecto da vida de Gildas precisa ser explorado: sua inserção no mundo do
Cristianismo, como veremos a seguir.
Christiana Civilitas: comunidades cristãs e a Britannia na Antiguidade Tardia
A Antiguidade Tardia, assim como outros períodos históricos, não pode ser pensada de
uma maneira estática. A movimentação de sujeitos históricos faz parte da História e no caso do
Império romano, este construiu um ambiente que em grande medida ampliou esta mobilidade
entre o seu território. Sabemos que a expansão do poder romano sobre parte do mundo na
Antiguidade teve como uma de suas características o desenvolvimento de redes de contato entre
diferentes regiões, representadas também pela construção de estradas que poderiam levar
indivíduos ou grupos de um canto do Império para o outro. Afinal, conforme o exército romano
conquistava determinadas regiões, ele construía estradas e pontes, sendo estes alguns "dos mais
visíveis sinais da ocupação romana" (LEYERLE, 2009, p. 120).
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Mas, além de servirem como um sinal da presença do poder de Roma, as estradas foram
essenciais para os negócios do Império, auxiliando nos procedimentos burocráticos, fiscais e
também militares. Dessa maneira, milhares de pessoas circulavam entre as várias províncias
romanas e até mesmo além, cada qual com seus propósitos, fosse econômico, social, cultural
ou até mesmo políticos. Acima de tudo, o desenvolvimento de estradas e outros meios de
transporte era vital para a comunicação entre a capital e suas províncias (LEYERLE, 2009, p.
110).
Talvez facilitadas por esta estrutura, no âmbito do Cristianismo, as viagens, que faziam
parte deste desde o seu fundamento, continuaram também na Antiguidade Tardia, com
pregadores itinerantes que criavam diversas ecclesiae, isto é, comunidades de cristãos, que
dependiam do constante fluxo de visitantes para seu apoio material e ideológico (Ibidem, 2009,
p. 112). Muito provavelmente este caráter migratório auxiliou no desdobramento do
Cristianismo ao longo do período Tardo Antigo (WOOD, 2005, p. 710). Indo de cidade em
cidade, os cristãos propagavam sua crença, fosse de maneira intencional ou não. Também dessa
forma, é provável que o Cristianismo tenha chegado ao Ocidente, "não por meio de missões
sistemáticas, mas antes por cristãos viajando por outros motivos e que proclamavam a sua fé
para quem encontravam." (DE PAOR, 1993, p. 8).
Ao longo deste período esta religião passa a ser uma forma de identificação entre
indivíduos de diferentes regiões do mundo. Essa identidade cristã parece ultrapassar os limites
tanto do Império romano como de outras unidades políticas, criando uma comunidade que
embora ampla, mantinha contato entre si de forma constante. Wilfred Cantwell Smith (1993)
considera este recorte temporal como pertencente ao que ele denomina de scriptural movement,
em referência às várias tendências religiosas do Oriente Próximo dos primeiros séculos da era
de Cristo até a Antiguidade Tardia, que foram chamadas por Max Muller de religions of the
book (MULLER apud STROUMSA, 2008, p. 65-6).
Dessa forma, neste período, podemos ver diversas religiões que tinham no livro uma
importante ferramenta de adoração e legitimação. Não devemos, no entanto, acreditar que a
importância atribuída às Escrituras Sagradas fazia parte apenas do Cristianismo, sendo que esta
teve uma origem muito anterior. Ainda assim, o uso de livros foi parte significativa da
caracterização e do crescimento da religião cristã. Como afirma Guglielmo Cavallo (1995, p.
135-6), "O Cristianismo, de fato, considerava o códice escritural [bíblico] meio de difusão da
palavra divina". Embora a concepção dos livros que compõem o que conhecemos hoje como
Bíblia tem uma história própria e a construção da sua canonicidade tenha sido um processo